Tanto pra tão pouco – Parte II

FOTO: PEDRO PARDO/AFP

Pelo visto, meu texto anterior soou para alguns amigos do blog como algo retrógrado, segundo sugerem o Márcio Souza e o Fabrício Medeiros. Por certo, consequência de falhas na elaboração do texto por este velho e impreciso escrevinhador.

Aliás, esse negócio de velho muito vezes atua como elemento de interpretação neste mundinho feito de clichês e chavões, o que quase sempre conduz ao preconceito de qualquer tipo (pré-conceito, conceito pré estabelecido de antemão).

Não me sinto tentado, porém, a esclarecer as coisas com medo desses clichês, nada disso. Não tô nem aí, pois amo coisas do passado como as do presente, sonhando sempre com o que poderia vir a ser no futuro, ainda que não o alcance em vida.

Mesmo porque não vejo o curso da história como uma linha linear, em que a evolução se dá sucessivamente, um episódio atrás do outro. Prefiro a visão mais moderna, aquela que tece a história como uma teia de interconexões que a fazem avançar ou regredir de acordo com as circunstâncias.

Basta ver de cima, por exemplo, o que ocorre com o nosso Brasil, em todos os setores: enquanto a Lava-Jato avança, as demais autoridades regridem; enquanto a tecnologia nos oferece cada vez mais recursos pra adquirir conhecimento, criar laços de solidariedade e se expressar livremente, a sociedade, em geral, fica mais embrutecida em todos os sentidos, e assim segue a toada – um pra lá, dois pra cá.

No futebol, que, repito à exaustão, é uma dramatização do cotidiano, a coisa não é diferente.

Os recursos oferecidos hoje aos times brasileiros pra que tenham melhor desempenho são infinitos, se comparados aos dos velhos tempos. E isso, meus caros, é muito bem-vindo.

Quando me referi no texto da véspera ao técnico faz-tudo de um passado distante não estava exaltando, não, essa figuração. Ao contrário. Apenas constatava  que esse técnico, hoje, é cercado de um composto de recursos e apoios que deveria facilitar seu trabalho, além de lhe permitir alçar voos mais altos.

Vou além: há muito tempo clamo por uma comissão técnica que tenha um especialista em defesa, outro em armação de jogadas e um terceiro para o ataque, assim como há o treinador específico de goleiro, mais ou menos o que corre com o futebol americano, aquele subproduto do rúgbi.

Quando falo da diminuição de atribuições do técnico de futebol brasileiro com o advento de tantos intermediários, penso não em Sílvio Pirilo, Flávio Costa, Zezé Moreira, nada disso. Minhas referências são os atuais treinadores do campeonato mais agradável e rico do planeta, o inglês, onde o treinador é verdadeiro mannager, com poderes que extrapolam o campo de jogo e os vestiários, já que lhe cabe inclusive manusear as verbas do clube pra contratações e dispensas de jogadores.

E, se dou um toque de ironia na construção dessa  em que se constituem os departamentos de futebol dos clubes brasileiros em geral, não é pra desfazer da importância de um preparador físico, um fisioterapeuta, uma nutricionista, uma psicóloga, os analistas de desempenho diante da tela do computador, nada disso. Todos eles vieram pra ficar, graças a Deus!

Quanto mais conhecimento melhor, óbvio, pra qualquer segmento da sociedade humana.

Acontece que, no futebol brasileiro, isso tudo tem servido mais como um biombo grafitado com traços de modernidade do que, de fato, numa ferramenta eficiente para a melhora do produto em si, ou seja, o desempenho dos times em campo e do futebol como um todo.

Pra que todo esse arsenal de recursos tenha efeito é preciso antes de mais nada ter um plano, uma estratégia de propósitos, como ocorre em qualquer atividade humana, seja empresarial, seja individual. É preciso estabelecer um alvo, de cara. Depois, as metas a serem alcançadas progressivamente, e assim por diante.

No futebol, o alvo, o objetivo a ser alcançado é um espetáculo digno de satisfazer o gosto do espectador, o que, em cascata, leva mais público aos estádios e maior audiência na tv, o que resulta em mais investimentos dos patrocinadores, grana toda destinada a grandes contratações com vistas sempre a melhorar o espetáculo, num círculo virtuoso.

O que se vê no futebol brasileiro é exatamente o oposto: joguinhos vagabundos cujo único objetivo é ganhar aqui ou empatar ali, a qualquer custo, conceito que se fixou em nossos campos há mais de vinte anos e que segue sendo o padrão vigente. Isso é estagnação, ou retrocesso, se o amigo preferir. Nada mais retrógrado.

Ganhar ou perder uma partida ou um título é da natureza do jogo – por isso, chama-se jogo. Mas, quantas vezes o amigo não viu um time perdedor sair aplaudido de campo por sua torcida justamente pela brilhante, embora infrutífera, atuação? Até hoje, exalta-se mais a perdedora Seleção de 82 do que a campeã de 94. Por quê? Porque, como dizia o sábio Joãozinho Trinta, o povo gosta do brilho, ao que acrescentaria a saudosa Aracy de Almeida – “Lantejoulas, meu filho, lantejoulas!”.

Quer dizer: retrógrado, meu caro, é o atual futebol brasileiro. Retrógrados são todos aqueles que defendem o resultado no placar a qualquer custo como o rei do jogo. Retrógrados são aqueles que exalam o cheiro da morte de uma das mais vivas expressões culturais do brasileiro neste dois últimos dois séculos, em nome de uma falsa modernidade.

Modernidade que, de fato, já foi coisa nossa, muito nossa, mas que hoje só se encontra lá fora, nos campos da Rainha, do Rei e seus ilustres vizinhos. Só não vê quem não quer.

NA LINHA DO GOL

Meu Deus! Como joga esse egípcio Salah! Canhoto, veloz, hábil, cheio de dribles e passes inesperados fez dois gols, duas pequenas obras-primas de puro talento e invenção, na virada contra o Leicester, num jogo em que o Liverpool deveria ter goleado tal o volume de chances perdidas. Dá gosto ver aquela turminha do ataque dos Reds em ação – Salah, Coutinho, Firmino, Mané, Milner e cia. bela.

O técnico Mourinho parece ter entrado em entropia. Reclama dos juízes, dos gols de m… dos adversários, segundo ele declarou em entrevista coletiva, dos seus jogadores e até dos investimentos feitos pelos demais clubes, sendo que o United gastou os tubos pra nada. Com o empate deste sábado, caiu pra terceiro lugar, atrás do Chelsea, que goleou com primorosa exibição de William, autor de um gol de pênalti e duas assistências precisas. Ô, Mourinho, vá catar coquinho, que é pra rimar.

 

5 comentários

  1. Olá Grande Alberto, muita generosidade sua ler e mencionar os comentarios de seus leitores-fãs em seu texto… Só um Detalhe: Me chamo Fabricio e não Frederico rsrs. Que perfeição de resposta esse seu segundo texto preciso e pleno, realmente, talvez, no seu outro texto, não pude perceber a real intenção da sua critica ao tecnico moderno, falha interpretativa minha quisá. Ficou claro pra mim agora sua critica aos excessos de profissionais que rodeiam os tecnicos – como os acessores de muitos politicos, por sinal rsrs. Sou um grande admirador do passado também, sou professor de historia aliás, e sei os erros que foram cometidos em nome de modernidades ao longo da História. Muito obrigado pela atenção, esse seu segundo texto sobre o assunto ficou excelente.

  2. Meu caro Helena você esqueceu de citar também a figura do auxiliar técnico, do psicólogo mais gente nesse emaranhado burocrático que se tornou o futebol É a modernidade meu caro. Isso nada mais é que do que aquilo que escrevi anteriormente. A Mão do mercado. O futebol imita a empresa não só nos bastidores, mais também nas quatro linhas. Ou seja, a bola passa a ser uma ilustre desconhecida desses caras. a até jogadores que se assustam quando são a ela apresentados, Você sabe de quem estou falando.

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