Tanto pra tão pouco

(Foto: Erico Leonan/SPFC)

Ricardo Rocha foi um dos mais completos zagueiros que vi atuar nos últimos, sei lá, quarenta anos, pois era, ao mesmo tempo, firme no desarme e extremamente técnico na saída de bola da defesa ao ataque.

Despontou no Guarani como um lateral-direito ofensivo e hábil para se consagrar na zaga do São Paulo, depois de breve passagem pelo Sporting, a ponto de ser contratado pelo grande Real Madrid. Vestiu várias camisas tradicionais por aqui, na volta e foi campeão do mundo, sem jogar, pois se machucou às vésperas da Copa de 94. Ao pendurar as chuteiras, tentou sem muito êxito a carreira de treinador, transitou pela área dos agentes de jogadores, virou comentarista de tv e agora acaba de assumir o cargo de coordenador de futebol do São Paulo, chamado por Raí, o novo diretor do clube.

Falante, era tido como líder em seu tempo de atleta, embora seus discursos sobre as coisas do futebol, na tv, não sugerissem grandes saltos de pensamento.

Mas, pelo visto, a função que acaba de assumir no São Paulo não exige tanto, pelo que depreendo dela. Seu trabalho é atuar como intermediário entre o grupo de jogadores e a direção de futebol do clube. Cargo, aliás, que parecia destinado a Lugano, ídolo da torcida, e que fazia essa ponte já no Tricolor, mesmo sendo ainda jogador esporádico,

Aliás, ainda se fala em um lugar pra Lugano nessa confraria.

Várias foram as tentativas feitas pelos clubes brasileiros nesse sentido, sem, contudo, se percebesse grandes êxitos.

E aí, pergunto: não será essa tarefa inerente ao treinador, o chefe da tropa, o coach, como dizem os americanos, o míster italiano, o maestro argentino ou o simples prof brasileiro dos últimos tempos?

Houve um tempo em que o técnico era senhor absoluto no campo e no vestiário, quando não na própria direção do futebol de um clube. Nem mesmo preparador físico havia. Era o chefão que ministrava as sessões de ginástica sueca, o sobe e desce das escadarias das arquibancadas dos estádios e as corridas nos bosques ao despontar das manhãs ainda enevoadas.

No máximo, o médico a auxiliá-lo aviando as receitas de quem podia ou não jogar.

Os tempos mudaram. Instituiu-se a figura da Comissão Técnica, cada vez mais sofisticada, à qual se agregaram os especialistas cibernéticos em análises até de questões táticas, como jogam os adversários e tal e cousa e lousa e maripousa, graças às novas tecnologias.

As tarefas foram segmentadas de tal maneira que só restou ao técnico determinar o esquema, as táticas de jogo, treinar o time nos dias que antecedem a essa enxurrada de partidas, escalar a equipe e fazer as substituições que julgar mais ajuizadas durante os jogos. Ah, sim, e levar a culpa por tudo que acontece de errado.

Dito assim, soa como sensacional evolução no futebol, algo extremamente moderno, bem planejado nos mínimos detalhes, uma máquina bem azeitada para o sucesso.

Aí, o amigo liga a televisão pra ver um jogo entre times brasileiros e se depara com um show de tedioso atraso.

Será que precisa tanto pra tão pouco?

6 comentários

  1. Respondendo a sua pergunta Mestre, acho que precisa sim pois esse “tanto” tem uma chance de transformar o “tão pouco” em algo bom. Só ver que muito do que o Grêmio conquistou esse ano em títulos e bom futebol foi graça a estrutura e comissão tecnica.

    Claro que um bom futebol depende também de monte de coisas externas a um bom elenco e comissão tecnica.

  2. Em tempos modernos tudo é válido. O que não vale é perder jogos e culpar treinador e dizer que a Diretoria fez tudo errado. Se ganha são os jogadores, se perde é a Diretoria.

  3. Nossa!! que texto retrogrado… Só não estão sabendo fazer bem feito, mas é importante sim para a evolução. Vide o exemplo na Europa, lá o tecnico não acumula função de roupeiro e outras e não me parece irem mal os times. Seus textos são tão bons Alberto, que lástima lê esse seu ultimo.

  4. Precisamos de novos conceitos em todos os setores, inclusive na imprensa esportiva, sempre tão avessa a mudanças, apesar de sempre informarem o contrário.

  5. Sempre que leio seus bem elaborados textos me indago porque não estas em uma midia de maior alcance. E me respondo: porque foges do padrão mediocre de seus coleguinhas. Só ha espaço para a gritaria, puxa saquismo, alienação ,tudo isso acompanhado por uma tropa de comentaristas , reporters, apresentadoras bonitinhas ( pobre das feiosas competentes) escalados no fundo só para preencher tempo. .
    Seu texto cabe como uma luva para a nossa atual imprensa esportiva. Abraço.

  6. Alberto, creio que sim.
    Simplesmente o fato da tecnologia avançar tanto, simula-se em muitos e não somente em um só, como era antigamente.
    Saudoso tempo, aliás, por devido em que, quando bem sucedido, era o primor e louvor (a alma do grupo).
    Bom, agora tempos modernos, fala-se em tudo até fora das quatro linhas (árbitro de vídeo).
    Nos clubes não poderia ser diferente, diga-se como exemplo o próprio corinthians, tão ganhador de títulos quanto poucos.
    É lógico que nem sempre dar-se por certo, pois, é necessário muita seriedade e lado profissional para dar certo, como uma engrenagem de relógio, todos batendo em seu tempo.
    Vamos ver o que será do nosso querido futebol bretão dos tempos modernos aos tempos ufológicos.
    Forte abraço, saudações e feliz festas.

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