O Real e a inesperada goleada

Foto: AFP

Quem, em sã consciência, poderia esperar um resultado como esse na decisão da Liga dos Campeões, sobretudo porque a Juve, apesar de toda ofensividade que ganhou com o técnico Allegri, é celebrada como uma defesa praticamente intransponível?

Pois, o Real, fazendo valer sua técnica superior, meteu 4 a 1, e olhe que poderia ter sido de mais.

Graças, em boa parte, a essa máquina de fazer gols que leva no peito a sigla CR7. O Gajo é um assombro na hora de decidir a jogada final. Foi ele quem abriu a contagem, ainda no primeiro tempo, com um tiro de primeira que resvalou em Bonucci e enganou Buffon.

Nesses instantes da partida, diga-se, a Juve era melhor, mais agressiva e compacta. Tanto, que empatou logo em seguida numa puxeta extraordinária de Mandzukic, num jogo que escorreu até o fim do primeiro tempo sob o signo da porrada de lado a lado, uma surpresa para confronto como esse.

Mas, no segundo tempo, só deu Real. Pôs a bola no chão, envolveu seu adversário, e, em pontadas agudas, foi construindo a inesperada goleada. A começar por Casemiro disparando lá do meio da rua um torpedo que desviou em Khedira antes de ludibriar Buffon. Em seguida, Modric vai ao fundo e cruza pra Cristiano Ronaldo finalizar na cara do gol.

Bem que, diante do placar tão adverso, Allegri tentou desfazer seu sistema com três zagueiros, substituindo Barzagli por um ponta ofensivo e driblador como Quadrado. Sucede que o Real já era dono do jogo e Quadrado, logo depois, acabou sendo injustamente expulso com o segundo amarelo.

E aqui entra o extraordinário mérito de Zidane, um dos maiores meias-armadores da história do futebol, que, ao pendurar as chuteiras, discretamente foi ser auxiliar do técnico principal. Em seguida, dirigiu o Real B, e, quando se viu obrigado a tirar diploma de treinador, tinha duas opções: fazer o curso na Espanha, de três meses, ou ir à França, por seis meses de aprendizado. Escolheu o caminho mais longo, aquele que lhe ofereceria a chance de aumentar ainda mais seus conhecimentos sobre futebol, ele, que em campo, já havia sido um mestre inigualável.

Assumiu o Real há três temporadas e já acumula um acervo de títulos invejável, dentre eles o bicampeonato da Liga dos Campeões, feito incrível na era do Barça e do Bayern.

E seu tom de grandeza foi dado neste sábado, quando, já de início, não tentou espelhar seu esquema ao do adversário, como virou hábito hoje em dia. Armou os merengues de acordo com sua próprias potencialidades e estilo de seu melhores jogadores. E, quando já vencia por 3 a 1, em vez de reforçar seu meio de campo ou defesa, pra assegurar o placar que lhe dava a taça, fez três substituições, todas ofensivas: Bale, Asensio e Morata, todos atacantes.

E assim o Real deu um verdadeiro baile na Juve, que mal chegou a fustigar a meta merengue.

PS: A lamentar, o show de abertura. Rico e animado espetáculo de rock, hip-hop, rap, sei lá como chamar aquele bate-estaca primário, mas inadequado diante dos principais astros do dia, representantes de duas das mais significativas culturas musicais da história humana – a Itália, berço do canto lírico e popular, e a Espanha do Paso Doble, do Flamenco e das canções gitanas. Mas, que fazer se o tal multiculturalismo dos nossos dias só fala inglês, a língua do Império, e o som que ela nos impõe se resume ao pã-pã repetitivo e exaustivo como fundo para exercícios de aeróbica dos figurantes?

2 comentários

  1. O sobrenatural do Almeida ajuda os pernas de pau. Foi assim que Casemiro saiu de um começo de jogo onde o único mérito até então era dar bordoadas, para num chute espírita que certamente iria morrer nas mãos do goleiro mais que desviado ganhou o fundo das barras do guarda valas Buffon. Sempre critiquei o Tite por suas convocações equivocadas. Parece que agora ele mudou para melhor e está priorizando jogadores com elevada capacidade técnica. Espero que ele e encontre opções melhores ara Fernandinho, Casemiro e Willian.

  2. Que texto! É um prazer te ler, mestre Alberto Helena!

    Não vejo ninguém falar isso do Zidane, e é verdade, ele parece transmitir um sentido de grandeza e ambição único aos seus jogadores. É incrível como o Real nunca fica passando sufoco e defendendo o resultado, mas sim amplia o marcador e até goleia. Foi assim contra o Kashima Antlers na final do Mundial, quando foram para a prorrogação e os “espanhóis” (cada vez com mais aspas) fizeram 4 x 2; foi assim contra o Bayern (quando o juiz salvou o Madrid), que venceu por 2 x 1 e na prorrogação sofreu 2 x 4;; e foi assim, novamente, contra a Juventus.

    Só uma coisa: o Zidane assumiu o Real há somente um ano e meio, não faz três anos! O que torna ainda mais assombroso o que ele tem feito.

    Abraços

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