
Leio no blog do Jamil Chade que a CBF e a Conmebol, temendo uma interdição do estádio do Corinthians em Itaquera pelos gritos da torcida chamando de bicha o goleiro do Paraguai, é apenas uma questão cultural. Coisa de sul-americano machista e ignorante.
Melhor seria dizer que não é nada cultural; é, sim, falta de cultura. Mas, prefiro achar que a homofobia é apenas uma das hastes do estelar espectro de aversão ao outro que está impregnado no DNA humano, desde quando deixamos de ser uma ameba marinha.
O ser humano perde a humanidade por um átimo, quando se trata do confronto com o diferente. O branco não gosta do preto, o cristão odeia o judeu, que não pode ver um árabe, que, por sua vez, detesta a todos que não creem em Alá, e assim vai. Tribos dizimam tribos vizinhas, ambos da mesma cor e crenças, só porque… são vizinhos.
É briga de bairro contra bairro, de rua contra rua, irmão contra irmão, até chegarmos ao extremo de o sujeito se dilacerar por suas próprias contradições no seu quarto solitário e noturno.
O futebol, vivo repetindo, é uma dramatização do cotidiano, um reflexo do dia a dia, como diria Nélson Rodrigues, a vida como ela é.
Bem, se a questão é cultural, então não é algo imutável. Ao contrário: cultura é adquirida, num processo interminável de mudança nas formas de pensar e se expressar.
Nem sempre isso significa avanço do ponto de vista moral e do conhecimento humano, se a meta ainda for a utopia do bem viver com a mente aberta e produtiva na busca do saber.
Pra minha geração, certamente, essa mania de espetar o ar com o dedo médio, herdado das séries de tv americanas, não quer dizer absolutamente nada, Afinal, pra mandar o sujeito praquele lugar, o gesto era outro: um círculo formado pela junção do dedão e o indicador, mais expressivo, convenhamos. Mas, enfim, os hábitos se alteram rapidamente numa sociedade veloz como a nossa.
A maioria das pessoas ainda confunde cultura e tradição com estagnação de certos símbolos e conceitos imutáveis.
Tradição, por exemplo, assim como cultura, no sentido literal, significa transição, passagem, avanço, na medida em que se tome como exemplo a velha máxima segundo a qual quem conta um conto aumenta um ponto. Não é algo estático no passado, um bloco de granito perpetuado pela vida afora. É como o estudo da história, que vai adquirindo novos contornos conforme as descobertas mais recentes deste ou daquele elemento – relatos dados como perdidos e reencontrados, fósseis achados etc.
Encerrando, pois, estas filosofices de botequim, templo da sabedoria humana, diria que se é questão cultural, portanto passível de mudanças constantes, bem faria a Fifa em punir Itaquera, a CBF, a Conmebol e a torcida brasileira pra ver se essa gentalha passe a ser, culturalmente, um pouco mais civilizada.
Já que o preconceito de todas as espécies é eterno, pelo menos que seja sempre punido, pra que os preconceituosos asquerosos se contorçam de raiva.
Nos anos 70 e 80 era comum também o coitado do árbitro ser xingado de “ladrão” ao adentrar ao gramado. Incrível era que as duas torcidas se irmanavam nesse absurdo. Coisas do Brasil.
E olha que há mais absurdos acontecendo país afora. Quando achamos que já tínhamos visto de tudo, eis que lá no Recife alguns jornalistas da Rádio Jornal do Commercio cogitam ainda que tentem negar que para o bem do futebol pernambucano, para a sobrevivência das duas equipes, Santa Cruz o time de maior torcida no estado e o Náutico um time fundado em 1901 segundo mais velho do país deveriam se fundir num time só. É inacreditável como jornalistas formadores de opinião cheguem a comentar tamanha barbaridade sugerindo ainda que dissimuladamente acabar com dois tradicionalíssimos clubes brasileiros representados país afora por milhares de torcedores. Só podemos concluir que esses caras estavam bêbados quando comentaram um absurdo desses. Será que a mente deles é tão tacanha e desprovida de um mínimo de inteligência? As torcidas do Santa Cruz e do Náutico deveriam fazer um protesto veemente contra esses idiotas.