Tite lembrando João

(Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press)

Olho o Tite e vejo o Saldanha.

Não, não, um nada tem a ver com o outro. Ao contrário: diria que são figuras e personalidades opostas.

Tite é verborrágico, porém, conservador, por temperamento e formação. João era um intelectual que sabia reduzir as palavras ao essencial, geralmente subversivas, em todos os sentidos.

Tite é da paz; Joã0, da guerra.

Tite é aquele tipo familiar, de hábitos comedidos; João, gostava do e de uma boa briga.

Mas, afinal, o que me faz lembrar um do outro, além de ambos serem gaúchos, embora João tenha incorporado o carioca em toda a sua amplitude?

São as circunstâncias em que os dois assumiram a Seleção Brasileira, em momentos distintos da vida brasileira – João, apesar de comunista, em plena vigência da nefanda ditadura militar, e Tite, durante este período em que o tecido social verde-amarelo apodrece a olhos vistos, de cima a baixo.

(Foto: Acervo/Gazeta Press)

João recebeu uma Seleção desmoralizada das mãos de Aymoré Moreira. Havíamos dado um vexame na Copa de 66 e outro na excursão à Europa, quando chegamos a perder de cinco da Bélgica e de 1 a 0 para a Holanda, que, na época, figuravam no quinto time da escala mundial do futebol.

João, com sua verve afiada, saiu Brasil afora pregando a reconstrução do nosso time, formado apenas por feras, as Feras do Saldanha, como ficou conhecido. Isto é: uma equipe formada por jogadores com espírito de vencedor. E, sobretudo, com talento. Para tanto, chamou o que havia de melhor no cenário futebolístico brasileiro, craques dos três times mais famosos da época – o Santos, o Cruzeiro e o Botafogo -, dando-se ao luxo de deixar de fora ainda os verdes da Academia.

E varou as Eliminatórias para a Copa de 70 distribuindo goleadas e dando show por onde passasse: seis vitórias consecutivas, um feito único até então. Depois, perdeu a mão e acabou sendo substituído por Zagallo, campeão no México com a melhor seleção do mundo em todos os tempos.

Tite igualmente recebeu de Dunga uma Seleção desacreditada, humilhada nos resultados, no desempenho e no ranking da Fifa.

Muitos duvidavam até que o Brasil, pela primeira vez na história, se classificaria para a Copa da Rússia.

Pois, num piscar de olhos, Tite não apenas ajeitou o time como o fez cumprir campanha ainda mais espetacular do que a de João, com oito vitórias seguidas (a fórmula de disputa passou a ser outra). E, com uma performance capaz de nos levar aos bons tempos do nosso futebol, resgatando o gosto e o respeito do torcedor brasileiro pela Seleção. E olhe que, ao contrário de João, não teve três esquadrões brasileiros para basear o seu time, tampouco o mesmo tempo de treinamento.

Ainda assim, conseguiu um entrosamento prodigioso com jogadores vindos de todos os cantos do mundo, até da China.

Se João estivesse entre nós, por certo, iria à tv  e resumiria seu apreço pela obra de Tite com aquele aceno típico – uma continência com os dois dedos, aprovando com louvor o feito e desejando toda sorte para seu sucessor além da linha do tempo.

 

 

10 comentários

  1. Há um movimento quase subversivo no Blog para me desacreditar. não tem problemas sigo em frente.
    Comparar João Saldanha com Tite na minha opinião vai mais além. Saldanha tinha além de muitas diferenças, uma que o Tite não tem e jamais terá. Saldanha não jogava com o regulamento embaixo do braço. Além disso segundo ele, o esquema deveria estar a serviço do craque e não o contrário. Essa é a maior delas. Daí a justificativa para Casemiro e Fernandinho. Duvido que Saldanha deixasse de fora jogadores como Luan, Rafinha, Felipe Anderson. Saldanha levou Edu com 19 anos e o cara era titularíssimo da seleção. Levando Edu, Saldanha mostrou coragem e deixou no banco nada mais nada menos que Rivelino e PC Caju. Edu naquele time era uma clara opção pelo jogo ofensivo sem medo de perder jogo. Quando Saldanha falava todo mundo dava risada se descontraia. Quando Tite fala há um silêncio ´só quebrado pelo pranto geral de quem o ouve. Em suma, o que os tornam iguais é apenas o lugar onde nasceram: O Rio Grande do Sul.. Outra coisa, o time formado por Saldanha encantou o mundo e foi Tri Mundial. Será que Tite passará das oitavas? Não acredito. Mais torço para que esteja enganado e o Brasil seja hexa.

    1. Ou você não sabe ler ou quer ter seu próprio blog….você apenas realinhou em quase tantas mesmas linhas sem chegar onde o Mestre Alberto chega, veja como ele começou;
      “Olho o Tite e vejo o Saldanha.
      Não, não, um nada tem a ver com o outro. Ao contrário: diria que são figuras e personalidades opostas.” a partir daí acabou incluir mais diferenças.

  2. Bom, o fato é que cada época possui um “cara” espetacular, não é mesmo?
    Se o Tite vai ou não passar das oitavas na copa ou até mesmo classificar para confrontá-las, isso eu não sei.
    O que sei é do trabalho espetacular de hoje, o Adenor está colocando todos no “bolso” e assoando o bom e velho nariz com rendas de seda, isso é fato!
    Mas, como alegou o camarada, assim como Saldanha, o Tite pode ficar no caminho.
    Vamos ver, então, aguardar e ter paciência, rodar cada dia, assim como o bom e velho Adenor o faz.
    Grande abraço.

  3. O melhor do Tite é que mesmo com todo o oba-oba ele não se mostra deslumbrado, não se dá maior importância do que vale no processo. Se parece que faz um milagre, é porque Felipão e Dunga levaram nosso futebol a um nível abaixo da realidade.
    Endeusar Tite é uma tremenda bobagem. Mas critica-lo só por seu lado pragmático também não diz muito. O mais importante é que faz um trabalho digno e honesto, grande carência nos dias de hoje e acho que esse é seu grande mérito até aqui.
    Pois diferente dos que diziam que estamos em uma crise de talentos como justificativa do nosso fracasso recente, Tite simplesmente deixou as desculpas de lado e faz um bom trabalho.
    O mais auspicioso é que parece ter os pés no chão. Demonstra saber que ainda falta muito, que as seleções sulamericanas são parâmetro relativo, embora esse estágio tenha concluído com louvor.

  4. Elogiar o treinador agora nas vitórias é muito fácil. Quero ver quando o time perder uma ou duas partidas se os seus defensores manterão os elogios de agora. Será que eu com minhas críticas nesta hora não estaria prestando um favor muito mais significativo do que ficar o elogiando?

    1. Na verdade você está prestando serviço de “adivinho”, bola de cristal, etc…
      Veja o momento, e, outra coisa, ninguém está dizendo que o Tite é imbatível, apenas elogiando o trabalho do Adenor.
      Está esclarecido agora?
      Grande abraço.

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