O brasileiro cordial

Jorginho. Foto: Paulo Fernandes/Vasco.com.br
Jorginho. Foto: Paulo Fernandes/Vasco.com.br

A vaia em Jorginho é sintomática. Até outro dia, Jorginho era o pastor divino tocando seu rebanho, sob a Cruz de Malta, que na verdade é de Aviz, em direção ao Paraíso. Depois de cinco resultados negativos, é uma besta aos olhos da multidão vascaína. Só falta pregarem-lhe o número cabalístico 666 nas costas de sua camisa.

Fui admirador de seu refinado futebol – um dos melhores laterais da história do Brasil – e mantive um excelente relacionamento com ele até a Copa do Mundo da África do Sul, quando, transfigurado em autoritário líder religioso, desafiou a todos os jornalistas que lá estavam, fechou treinos, promoveu cultos ocultos entre os jogadores e tal e cousa e lousa e maripousa (Dunga era apenas uma das ovelhas de seu rebanho, se me permitem a irreverência).

Vinha de um excelente trabalho à frente do Ameriquinha do Trajano, talvez último respiro do time de Noel, Lamartine e Romário, e, embora não se firmasse no Fla e outros tantos clubes que viria a dirigir, acertou a mão no Vasco já na Segundona, até esta série de fracassos recentes.

Mas, não é de Jorginho que quero cuidar. Amanhã, o Vasco começa a vencer e ele volta a ser o Deus de São Januário.

Minha mira é a torcida., do Vasco e das demais. Ou melhor do brasileiro de nossos dias.

O tal brasileiro cordial, termo cunhado pelo gênio sociológico de Sérgio Buarque de Holanda, o Serjão, pai do Chico, que tive a honra de conhecer e curtir durante alguns anos, fino observador da alma da nossa gente.

De cara, entende-se essa expressão como se o brasileiro fosse em ser afável, solidário, parceiro, essas derivantes da expressão cordial, esquecendo-se de sua raiz etimológica, segundo outro Buarque de Holanda, o Aurélio: vem do latim medieval cordiale. Isto é: coisa do coração.

O que Serjão queria dizer e disse é que o brasileiro é movido mais pelo coração do que pela razão. E o coração, meu amigo, é o repositório do amor e do ódio como de todas as demais gradações desses sentimentos antagônicos. Falo, claro, metaforicamente.

Sucede que, durante durante grande parte de sua formação, o brasileiro tendeu mais à cordialidade, no sentido de amizade. O brasileiro era o boa-praça, divertido e que preferia se divertir antes de tudo.

Mas, observa-se nos estádios de futebol, assim como nas ruas e nas redes sociais, que isso mudou radicalmente. O brasileiro passou a ser um cara amargo, revoltado, descortês, enfim, o anti brasileiro, como diria Nelson Rodrigues.

O malandro esguio e cheio de manhas e ginga, sempre com um sorriso, ainda que enganador, no rosto, cedeu espaço nas ruas e nos estádios aos manos alentados, de coturnos pesados, andar robótico, boné revirado, e cara crispada de ódio.

Isso, claro, é apenas um estereótipo. Mas, a essência é a mesma, tanto para os desprovidos como para uma classe média cada vez mais agressiva e ignorante.

Por quê? Isso deixo para os sucessores do saudoso Serjão responderem, que não possuo conhecimento suficiente, embora tenha cá minhas suspeitas.

Como, por exemplo, uma revolta inconsciente de viver numa sociedade de tantas ofertas de consumo e tão poucas oportunidades de satisfazer os desejos renovados a cada manhã.

Na impossibilidade de atender a tantos apelos de consumo – e nisso inclui-se a tal classe média, além dos desvalidos da sorte, como dizia o velho sábio -, cresce o rancor e ele se espraia pelos campos de futebol e pelas redes sociais, quando não nas ruas.

É uma hipótese de um velho, eterno aprendiz das coisas da vida, sem lustros para ir tão fundo nessa questão. Mas que viu coisas que até as carnes chegam a tremer, como no antigo samba da Portela.

 

 

 

 

3 comentários

  1. Há brasileiro mais cordial que Cristovam Buarque? Ele é tão cordial que se dá ao luxo de mudar de partido político como quem muda de escola de samba. O enredo do samba é o que menos preocupa Cristovam o que lhe interessa são os adereços.

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