O presidente do Senado, Renan Calheiros, ainda à tona das águas da Lava-Jato, sugeriu ao presidente interino da República, Michel Temer, o resgate do Ministério da Cultura, uma instituição estratégica para defender o país da ação colonizadora dos mais poderosos.
O princípio é justo e necessário. Mas, cá entre nós, um tanto insuficiente, pois o processo de colonização cultural está a pleno vapor faz tempo, com ou sem Ministério da Cultura. Diria que se acentuou muito desde que se instalou definitivamente no planeta a tal sociedade de consumo, também chamada de globalização, sob a sombra crescente do império americano.
O que distingue um povo do outro é o idioma, seus hábitos, crenças e expressões culturais (artes e literatura).
Claro que sempre houve e haverá interatividade entre as várias culturas e influências desta sobre aquela. Mas, como dizia Paulinho da Viola num dos seus sambas antológicos, não me alterem o samba tanto assim.
O idioma falado no Brasil é dilacerado a cada momento, nossas artes plásticas reduziram-se a uma coleção de imitações da moda que expulsaram de cena os espíritos dos retirantes de Portinari e das mulatas de Di Cavalcanti; nossa música restringiu-se a um tatibitati primário, meio rock, meio sertanejo, algo que se assemelha às cantigas inventadas por adolescentes sob o chuveiro da manhã; e a literatura e poesia de Machado, Guimarães Rosa, Drummond e tantos outros se resumem a Paulo Coelho, imagine!
O teatro, hoje em dia, praticamente uma série de comédias ligeiras e superficiais, não tem um dramaturgo de peso desde Plínio Marcos, nem um diretor do estofo de um Antunes Filho.
E, na área das crenças populares, as quermesses e procissões católicas, assim como os terreiros de cultos afro-brasileiros foram varridos do cenário, onde os templos evangélicos, fenômeno tipicamente americano nascido na época da Grande Depressão, se instalaram em cada esquina das periferias e tomaram conta dos espaços televisivos por milhares de Billy Graham.
E baixando a bola pros nossos campos da bola, nós, que inventamos o futebol-arte, o futebol-moleque, inventivo, ofensivo, um tanto irresponsável, gingado e cheio de malícias, adotamos o modelo robotizado, mecânico e cinzento dos europeus que, por sua vez, incorporaram o espírito dos nossos ancestrais e jogaram no lixo da história a sua antiga maneira de tratar a bichinha.
Assim com o brasileiro das ruas, aquele tipo magrinho de andar gingado, foi substituído pelo mano estufado por tantos cachorros-quentes e batatinhas chips da vida, de boné virado e pisar robótico, à imitação dos Brothers de lá.
Um povo que desdém de sua própria língua, suas artes, sua poesia, sua literatura, seus hábitos e suas crenças está fadado a ser apenas um amontoado de gente sem nenhum significado, o que explica bem tudo isso que está acontecendo por aí: terra de ninguém.

NA LINHA DO GOL
E o Sevilha levantou pela terceira vez consecutiva a Liga da Europa, ao bater o Liverpool em espetacular virada por 3 a 1, num jogo sensacional de duas faces. Na primeira, os ingleses dominaram, fizeram um golaço com Sturridge – um toque de canhota com os três dedos externos no canto direito – e teriam ampliado o placar se o juiz marcasse um pênalti claro contra os andaluzes. Mas, no segundo, o Sevilha voltou irresistível, e logo no primeiro ataque, o nosso Mariano, ex-Flu, escalou pela direita, passou por um, deu uma caneta noutro e cruzou na medida para Gameiro empatar. A seguir, como fruto de um massacre técnico, tático e anímico, os espanhóis ampliaram com Coke por mais duas vezes e ainda criaram outras três chances para alcançar a goleada inesperada. E vivem dizendo por aí que o futebol espanhol se resume apenas a Barça e Real…
PS: A propósito do processo de colonização cultural, ainda na transmissão da decisão da Uefa, o nosso bravo locutor da Espn, ao lembrar os grandes artilheiros da competição, citou o francês Just Fontaine, goleador mor da Copa do Mundo, em 58. E assim pronunciou o nome do atacante francês: Jast Fonteine, a la inglesa. Se não me engano, é o mesmo que chamar o latino Stadium da Juve de Steidium. Vai, colonizado!
Sóbrio, Lúcido, Cristalino!
Impecável Helena. Nesse mundo globalizado, o “soft power” do império e seus satélites, como um tsunami, vai dizimando as outras culturas menos abastadas, principalmente esta onde a maioria sempre acha que a grama do vizinho é mais verde que a sua e não encontra aonde se agarrar. Em vez de tanques, o domínio pela aceitação dos mesmos valores culturais. Não que a globalização não tenha trazido coisas boas, mas a diversidade cultural mais se reduz do que se espalha para dar novos frutos…
Mas o momento é tristemente infértil para quase todas as culturas (o futebol mundial pelo menos parece escapar disso). Talvez quem melhor capte esse fenômeno seja Zygmunt Bauman e seu conceito de “tempos líquidos”.
Eu agradeceria muito se a grande mídia fosse curada de seu estado bipolar, alternando entre o Pachecão cheio de patriotada e o seu estado normal, do “complexo de vira-latas”… Abraço.
“Precisamos entrar de acôrdo para chegar a um acôrdo.Redundância,pleonasmo ou tautologia?Errado.Isto significa o estado em que se encontra o “Acôrdo Ortográfico da Língua Portuguesa”,firmado em Dezembro de 1990 e que ainda não chegou a um consenso entre todos os países lusófonos..
Dunga para ministro da cultura. Ele como ninguém representa o governo que ai está.