Silêncio: foi-se o BaIxo.

Foto: Divulgação/TV Cultura
Foto: Divulgação/TV Cultura

Morreu o Baixinho. Só fiquei sabendo hoje aqui no meu esconderijo da caverna de Ibiúna, embora me mantenha ligado na Internet e na tv o tempo todo.

Mas, esse é o meu Brasil brasileiro, onde a memória tem o tamanho de uma ervilha, e as pessoas que fizeram algo diferente, quando partem, levam consigo apenas o esquecimento.

E o que fez o Fernando Faro, que por ser baixinho batizava a todos de Baixo? Entre tantas coisas, foi o cara que recriou a tv brasileira por meio de seu Móbile, na TV Cultura, quando esse canal tinha pretensões realmente culturais, uma colagem de imagens e textos dos mais significativos autores nacionais, declamados pelos mais expressivos atores brasileiros.

Sergipano mas santista de coração, num desses programas, o Baixinho resolveu fixar uma câmera noventa minutos em Pelé num jogo do Peixe. Foi uma tragédia! Ao som de Brasileirinho, de Valdir Azevedo, as cenas foram as mais desoladoras de raríssima atuação apagada do Rei. Faz parte do show.

Publicitário, jornalista, diretor do Museu da Imagem e do Som,  diretor de programas de tv e produtor de discos, o Baixinho foi o centro da recuperação de nossa música popular mais autêntica, fosse na série infindável de seu programa Ensaio, reprisado até hoje na TV Cultura, fosse na organização de discos antológicos como, por exemplo, aquele em que Mestre Marçal (pra nós, o Marçalzinho), filho de Armando Marçal , parceiro de Bide (Alcebíades Barcelos), desfila quase todos os sucessos da dupla autora de Agora é Cinzas, obra inestimável da criatividade brasileira. E que ele, Faro, resolveu romper com a norma habitual de estabelecer intervalos entre as músicas para que fossem tocadas pelas rádios, mantendo tudo interligado.

Durante décadas, convivemos, a maior parte em sua casa, que era um ponto de encontro de atores, atrizes, cantores e escritores, sob os cuidados da bela Iara e de suas filhas Zu, casada com Juca de Oliveira, e a Fernanda, que odiava o apelido lhe dado pelo pai: Psiu!  Sempre sob a lembrança silenciosa do Zé, o filho que se foi ainda menino.

Travamos amizade há meio século, quando o Baixinho tinha, sei lá, uns 38 anos de idade e aparentava uns 18, com aqueles olhos claros, cabelos finos aloirados e pernas ágeis de lateral-esquerdo esperto que brilhou durante anos nos Namorados da Noite, time em que atuavam Chico Buarque, Toquinho, Carlinhos Vergueiro, o Português, a Velha e tantos outros amigos queridos.

Conciso, na forma de se expressar, tudo começava com essa expressão que repito pra ele, onde estiver:

-Ah, Baixo…

 

 

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