Evocações e equívocos da mídia

Esta época do ano é propícia para evocações. E eu estava aqui me lembrando de quando descobri que Papai Noel não existe.

Tinha lá pelos seis anos de idade, quando vi meu velho retirando do porta-malas do carro uma enorme mala de madeira com alças de couro. Desdobrada, se transformava no presente mágico dos meus sonhos pedido a Papai Noel: um dos primeiros pebolins que surgiram por aqui – um campo verde, demarcado como se fosse o Pacaembu com onze bonequinhos de cada lado, trespassados por varetas manipuladas com pegadores anatomicamente talhados.

Era um autêntico Choque-Rei, bem de acordo com aquela década de 40, quando São Paulo e Palmeiras dividiam os títulos paulistas enquanto o Corinthians cumpria a triste sina dos dez anos de fila.

Mas, não vou recontar essa história aqui. Apenas reproduzir a disposição dos bonequinhos no campo de madeira pintada de verde: dois beques, três médios e cinco atacantes.

Sim, senhor, era assim que os times de verdade eram escalados nos jornais, revistas e nos programas de rádio (ainda não havia a tv instalada no Brasil).

Flávio Costa. Foto: Acervo/Gazeta Press
Flávio Costa. Foto: Acervo/Gazeta Press

Só que havia alguns anos já não se jogava dessa forma de fato. Desde a introdução no Brasil do WM (três zagueiros, dois médios apoiadores, dois meias e três atacantes), lá pelo final dos anos 30, com leve alteração no quadrado central feita por Flávio Costa, que a batizou de Diagonal, o clássico 2-3-5 já havia pendurado suas chuteiras.

Mas, nossa crônica esportiva só foi alterar essa formulação lá pelo início dos anos 60, quando o WM já havia se transfigurado no 4-3-3, com o surgimento do quarto-zagueiro, um dos médios recuado para a zaga, ao lado do beque central.

Mais tarde, passou para o 4-2-4, uma abstração, pois mesmo o meia ponta-de-lança, escalado como um dos quatro atacantes, partia do meio de campo, configurando o 4-3-3, restabelecido recentemente na Europa.

E assim segue a carruagem da mídia, sempre a reboque das mudanças, o que produz equívocos atrozes quando serve de base para os tantos livros sobre futebol que despencam das prateleiras há duas décadas. Redescobrindo modernidades onde há apenas evocações distorcidas das coisas perenes.

 

Um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *