
Se eu dissesse aqui que hoje colocaria Rogério Ceni no lugar de Pele, por certo, o amigo cairia da cadeira e me enviaria de imediato uma camisa de força. Calma! Deixe-me explicar.
Nunca, jamais, em tempo algum, seria no campo de jogo. Mas, simplesmente no cenário que bolei para o programa que apresentei na TV Gazeta há, sei lá, vinte anos, intitulado Na Linha do Gol. Eram painéis de fotos dos históricos artilheiros brasileiros, de Fried a Ronaldo, de um lado; de outro, as de goleiros históricos, desde de Marcos Carneiro de Mendonça.
No centro dos painéis, o instantâneo de Pelé, com a camisa de goleiro, naquele célebre jogo com o Grêmio em que o Rei foi para a meta santista por falta de outra alternativa, e pegou tudo. Era a síntese do goleador-goleiro na época.
Por coincidência ou não, foi nesse programa que Rogério Ceni apareceu na tv pela primeira vez de corpo inteiro, ainda um promissor iniciante. E que, pela primeira vez, foi aventada a hipótese de que – a exemplo de Roberto Gomes Pedrosa, arqueiro do São Paulo transformado em presidente do clube (e, mais tarde, da FPF) ao pendurar as chuteiras – o destino final do jovem craque tricolor seria esse.
Mais cedo ou mais tarde, esse vaticínio se realizará, não só pela determinação de Rogério Ceni, mas, sobretudo, pelo deserto de cabeças pensantes nos campos dos cartolas.
Enquanto isso, a tendência é Rogério dar um tempo a si mesmo para curtir um pouco a vida e logo se atirar, como em direção a um petardo fatal, à carreira de treinador.
A propósito, soube por amigos comuns que antes mesmo de adiar sua aposentadoria Rogério já havia entrado em contato com Guardiola, visando a um estágio no Bayern, além de se ter agendado um curso na escola de treinadores da Uefa. Esse é o caminho, referendado pela recente experiência que teve com Don Osório no Morumbi.
Há, pois, um vasto campo a ser explorado pelo craque a partir do instante em que ele pisou fora dos gramados naquela comovente festa de sexta-feira. Que o destino lhe reserve a mesma fortuna colhida neste um quarto de século como atleta exemplar e fora de série.