
Conheci Sandra Moreyra na casa de seu pai, o cronista esportivo Sandro Moreyra, filho de Eugênia e Alvinho Moreyra, escritor e grande animador da cena cultural carioca. Foi há trinta e poucos anos, numa festinha de aniversário de João Saldanha, e até hoje guardo com carinho uma foto em estou metido entre Sandro, João e Oldemário Touguinhó.
À época, Sandra era uma jovem graciosa, que irradiava vida no sorriso cintilante, começando sua brilhante carreira como repórter do Jornal do Brasil, o fino da imprensa carioca nos anos 60/70.
Sempre que a via na tv, nos tantos anos em que foi cobriu todo tipo de acontecimento na Globo, com uma categoria inigualável, lembrava-me de seu pai. E de alguns episódios que vivemos, sobretudo, nas peripécias da Seleção pelo mundo.
Certa vez, na parada da Seleção em Lisboa em direção à Copa da Espanha, nosso time treinava no Estádio da Luz.
Sentado no banco à beira do gramado, acompanho os movimentos de Sandro no círculo central. Já coxeando, fruto de um desastre, Sandro faz um giro completo olhando pra cima.
Percebendo que o estava espiando, fez-me um sinal. Fui lá. E aí ele passou a apontar para as torres de iluminação.
– Veja só o que é o marketing português.
E o que se via? Numa torre, estava escrita a sílaba BEN; noutra, FI; na seguinte, CA… E assim sucessivamente, torre por torre, a mensagem, final: Benfica, bicampeão do mundo.
– Quer dizer: só o juiz, no centro do campo, é capaz de ler a mensagem inteira. – arrematou Sandro.
Noutro dia, caminhávamos pelo centro de Lisboa, quando ele estancou diante da porta de um teatro. O cartaz da frente anunciava: Não perca, hoje: O Quarteto + 1.
Sandro entrou para dar de cara com o porteiro, de boné xadrez, atrás de um balcão, conversando com um tipo de terno preto e chapéu da mesma cor, encostado à parede.
Sandro indagou ao porteiro.
– Ó pá! Me diga por que O Quarteto + Um?
O homem de preto, percebendo que éramos brasileiros e trazíamos na bagagem alguma sacanagem, foi aos poucos se retesando.
E o porteiro:
– Ora, pois, pois, é porque são quatro músicos e mais um.
Sandro;
– E por que não o Quinteto, simplesmente?
O porteiro retirou o boné, coçou a cabeça, olhou para o homem de preto que estava uma estátua colada à parede, balançando um não com a cabeça, tenso e prestes a estourar, e respondeu:
– O quinteto? Pois bem que podia ser, ora!
Sandro agradeceu e partimos, não tão rápido a ponto de escapar do comentário do homem de preto ao porteiro:
– Tu és mesmo uma besta! São mais dois brasileiros a dizer que português é burro, ó pá!
Ao lembrar de seu divertido e gozador pai, presto aqui minha homenagem à memória de Sandra Moreyra, que partiu deixando mais um vazio no jornalismo brasileiro.
PS: A expressão O Quarteto + 1, na música de câmara, é uma expressão normal. São quatro cordas tradicionais (dois violinos, uma viola e um celo) e um instrumento sopro.
Grande Sandro Moreyra, comprava todo dia o JB para ler suas crônicas. No livro “Histórias de Sandro Moreyra” há um relato do comportamento da torcida brasileira em 82, assistindo uma tourada em Sevilha, que é de rolar de rir.
Alberto Helena Junior é um dos poucos cronistas esportivos que, na atualidade, lembram essas figuras antológicas como Sandro, Saldanha, e Oldemário.
Não sei se cometí um ilícito, mas, copiei da minha coleção da revista Placar, máis de 100 “causos” das suas
HISTÓRIAS DO FUTBO,L BRASILEIRO. Fico triste ao ver a atual crônica esportiva brasileira, principalmente a televisada, manifestar explicitamente sua preferências clubísticas, abrindo mão da imparcialidade. Sandro Moreira,e Nelson Rodrigues (Botafogo e Fluminense) para citar apenas esses dois, jamais se omitiram de comentar a verdade, mesmo que fosse contra seus times de coração.