O futebol é uma caixinha de surpresas, como diziam os antigos. Mas, não tem segredos, não.
O técnico tem lá seu valor, a camisa pesa, a torcida ajuda (quando não atrapalha), o esquema de jogo pode influenciar o andamento da partida, mas quem determina se um time é superior ao outro sempre será o jogador.
Se o amigo escalar o que há de melhor, tecnicamente, em seu elenco, sua chance de se dar bem será sempre maior do que se você se embaraçar nas teias dos esquemas ou da forma de melhor impedir que o adversário jogue.

Foi o que fez Doriva neste sábado, diante do Sport, que vem num crescendo (não numa crescente como a turma gosta de dizer por aí). Escalou os melhores jogadores de que dispõe em seu elenco. Recuou Rodrigo Caio para a zaga, ao lado de Lucão, que é onde o jogador gosta de atuar e o faz melhor do que no meio de campo, e armou sua dupla de volantes com Tiago Mendes e Wesley, dois jogadores leves, hábeis e versáteis.
Ambos deram o devido suporte a Ganso, que teve um dos melhores desempenhos nesta temporada, claro. Não só pelo gol, criado por Wesley e por ele definido sob a trave adversária, na abertura do placar, aos 18 minutos do primeiro tempo. Mas, pelo conjunto da obra de todo o time tricolor, que, antes, já havia criado duas excelentes chances para marcar, com o próprio Ganso e com Pato cabeceando na trave.
E foi de um passe exato de Ganso para Pato que nasceu a assistência para Luís Fabiano, no finzinho do primeiro tempo aumentar para 2 a 0.
Nessas alturas, o São Paulo tinha o pleno domínio do jogo, e o Sport, sem Diego Souza, não conseguia se organizar devidamente, a não ser no setor defensivo.
Isso, porque cabe aos volantes, que vêm de trás, vislumbrar os espaços vazios para que preencham com velocidade e capacidade técnica. E era exatamente isso que faziam Tiago Mendes e Wesley. Avançando por dentro ou por fora, davam a Ganso espaço para articular as jogadas de ataque.
Ganso é isso, é aquilo, aos olhos dos cegos em futebol, que são uma multidão. Mas é o carinha que mais me diverte em campo, mesmo que seu jogo se resuma a dois, três passes, um giro de corpo, uma deixada de bola, essas prestidigitações breves que escapam ao olhar mais embrutecido mas que fazem o encanto do jogo.
Voltando ao jogo em si, coube a Michel Bastos, em jogada pessoal, limpar um e meter a bola no lado oposto do goleiro, timbrando a vitória por 3 a 0, o suficiente, se não para garantir uma vaga na Libertadores já que neste domingo outros candidatos estarão em campo, pelo menos para oferecer ao técnico Doriva um rumo em direção ao formato ideal desse time, por enquanto.
NA LINHA DO GOL
Bem que o Edson podia poupar Pelé desses constrangimentos. Faço essa distinção entre os dois (sujeito e personagem) porque o próprio Pelé, quando encantava o mundo com sua arte insuperável, costumava fazê-la, ao tratar Edson na terceira pessoa. Aliás, o grande meia alemão Overath descreveu em suas memórias essa transformação insólita: ao entrar em campo, era o Edson, simpático, cortês, risonho que lhe estendia a mão. Mas, bastava o juiz apitar o início do jogo e Pelé se transfigurava na Fera que metia medo só no olhar. Diria que era um fenômeno semelhante ao que Fellini observava em seu ator preferido, Marcelo Mastroianni, que o descrevia como um cavalo de terreiro, o medium que incorpora o personagem de tal maneira que a mudança se operava no olhar. Digo isso em razão da declaração de Edson, na celebração de seus 75 anos de vida, de que Vasconcelos, o meia a quem ele sucedeu no Santos dos meados da década de 50, era dez vezes melhor do que Neymar. Vi Vasconcelos em ação uma infinidade de vezes, sobretudo na campanha do bi paulista do Santos em 55/56. Era um meia ofensivo, veloz e artilheiro, num mundo repleto de grandes meias. Mas, nada excepcional. Tanto, que nunca foi titular sequer da Seleção paulista, quanto mais da Brasileira. Cá entre nós, não amarraria as chuteiras de Neymar
“prestidigitações” – formidável !!!!!!! impressionante como a forma de pensarmos são semelhantes. E para mim, Ganso é um jogador totalmente diferenciado que infelizmente não encontrou no SPFC uma formação que fizesse com que ele mostrasse o seu talento. E como os corneteiros são a grande maioria, acabam ofuscando o seu talento diante de tantos comentários negativos.
Muito bom texto, parabéns.