As voltas que o mundo dá

(Foto: Glyn Kirk/AFP)
(Foto: Glyn Kirk/AFP)

E assim caminha a humanidade: em círculos progressivos, como se fosse a representação gráfica do DNA. Traduzindo para o paulistês do Oswaldo Moles reprisado pela dupla de radialistas esportivos e sambistas bissextos, Joseval Peixoto e GB, assim que nóis vai, nóis vorta. Só que um passo adiante.

No fundo, no fundo, esse passo apenas descortina um novo cenário, a paisagem e os adereços que a cercam, pois, a essência, ela a conserva desde as cavernas – essa teia de contradições entre a vida e a morte, o amor e o ódio e tudo mais que enreda a tal humanidade em pleno curso.

No futebol, como no resto, qual foi o passo adiante dado nas últimas décadas?

O amigo mais desavisado dirá que foi no plano tático, já que nossos comentaristas adoram decupar os esquemas em autênticos números telefônicos. Veja que não sou só eu quem o diz. Tá no livro do Guardiola, o mais celebrado estrategista dos nossos tempos. É ele quem declara que essas fórmulas todas – 4-2-3-1, 5-4-1, 4-1-4-1 – não passam de números de telefone.

Futebol não é pebolim, em que os bonequinhos ficam ali plantados, cada um na sua, até o juízo final. Aliás, nunca foi, embora vez por outra na história do futebol, haja sempre um retorno à maior especialização se contrapondo à versatilidade e ao movimento.

O que realmente avançou prodigiosamente foi toda a parafernália da tecnologia do corpo: a medicina esportiva, a fisioterapia, a fisiologia, a preparação física, o nutricionismo, os equipamentos usados pelos jogadores, e até a bola e o campo de jogo. Tudo isso evoluiu muito nas últimas quatro décadas, mais ainda depois do boom virtual, que aí, sim, ajuda muito no plano tático.

Quer dizer: o jogador, hoje em dia, está mais bem preparado para correr mais e cumprir várias tarefas táticas do que os de trinta, quarenta anos atrás. Isso, sem falar na velocidade muito maior na recuperação de lesões, cirurgias etc.

Em contrapartida, joga-se muito mais. São jogos praticamente de três em três dias, o que multiplica a possibilidade de lesões.

E, ah, sim, os cartões. Esse negócio de cartão é mais ou menos recente no futebol. E, com eles, vieram as suspensões, que vivem desfalcando os times, o que põe em risco o entrosamento, base de qualquer jogo coletivo.

Nos principais centros da Europa, em especial, Alemanha, Inglaterra e Espanha, essa questão se resolve com dinheiro. E, com a abertura da mentalidade dos novos cartolas de lá, que romperam com o preconceito e o chauvinismo e invadiram todas as áfricas e américas, em busca de talentos, ginga e imaginação, com vistas à melhora dos espetáculos. Assim, podem ter lá em seu elenco trinta, trinta e cinco jogadores de alto nível técnico, jogadores de destaque em suas respectivas seleções, essas coisas que compensam os desfalques da hora.

Aqui, seguimos ainda atados a esquemas superados, que mais prejudicam o espetáculo do que o promovem, embora haja uma tentativa tímida de romper com esse status. Assim como, em nome desses esquemas mais defensivos e tacanhos, o talento individual seja desprezado em favor do jogador de bom porte atlético e mais disciplinado taticamente, disposto a se doar em campo a qualquer custo.

Mentalidade, aliás, que alcançou e se expandiu nas arquibancadas, nas padarias, nas oficinas e escritórios. É o povo gritando: “Queremos raça!”.

Ora, raça é pra cachorro, cavalo. Talvez daí advenha as expressões do tipo tem que morder e distribuir patadas.

A natureza dotou a humanidade de um dom especial – a inteligência um tantinho mais evoluída. E é por isso mesmo que ela anda em círculos, ao mesmo tempo, para escapar das surpresas que a esperam na próxima esquina, e para sempre estar recolhendo os ensinamentos que ficaram lá atrás antes de dar o passo seguinte.

 

 

 

 

Um comentário

  1. Muito boa observação, afinal no futebol, com raras exções, estão cheios de “brucutus”. No meu entender, tem que haver um equilibrio entre Força x Inteligencia (QI), aonde o segundo predomína. Afinal os jogadores são os ARTISTAS!!!!

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