O que nos falta é coragem e imaginação

Foto: Leo Correa / MoWA Press
Foto: Leo Correa / MoWA Press

Esse desprezo estridente de grande parte dos torcedores e mídia brasileiros pela Seleção tem menos a ver com o fato de a maioria dos jogadores ser uma legião de afortunados exilados na Europa, ou de que aquela escudo da CBF na camisa canarinho esteja sujo de lama há muito tempo.

Isso conta, porém não mais do que o simples fato de que o time nacional, em campo, não consegue encantar.

Ganha a maioria dos amistosos, é verdade. Alguns poucos, significativos.Todavia, carrega ainda nos ombros o vexame histórico, inapagável, dos 7 a 1 para a Alemanha na Copa do Mundo.

Isso, para o torcedor de clube, muitas vezes basta: o resultado é que importa, costumam dizer nossos (des) comunicadores de plantão.

Mas, quando se trata da Canarinho, ainda que o brasileiro seja um desmemoriado de primeira hora, está lá incrustado no inconsciente do imaginário popular o desejo daquele espetáculo que só o futebol brasileiro foi capaz de oferecer ao mundo, fosse nas glórias como no infortúnio. Mais do que desejo: exigência.

Ah, mas não temos mais os craques do passado, dirá o saudosista amigo, logo ecoando nos mais jovens.

Oh, memória traidora. Se os velhos lembrassem e os jovens soubessem o quanto se duvidou na época da excelência da bola de tantos mitos de hoje…

Nem mesmo Pelé escapou de ser chamado de craque de papel. Citar todos os que mereciam severas restrições da crônica esportiva e dos torcedores no passado seria desfilar aqui uma lista telefônica.

É bíblico: ninguém é profeta em seu tempo e em sua aldeia.

Temos hoje mesmo na Seleção de Dunga e até mesmo fora dela jogadores que, dependendo do curso da vida, daqui vinte anos provocarão suspiros de saudade dos nossos netos. Não são muitos, é verdade.

E a diferença está no simples fato de que, num passado mais remoto, havia mais espaço na Seleção para os jogadores de habilidade do que ocorre hoje em dia, quando vivemos sob a ditadura dos dois (quando não, três) volantes e a síndrome do contragolpe.

Pegue o amigo esse time do Dunga, que estreia nas Eliminatórias da Copa do Mundo, quinta, contra um Chile que nos mete medo, com toda razão, sem Neymar, nosso único craque reconhecido como tal no mundo todo, com as restrições de praxe, claro.

Se bem treinado (em tempos passado, a Seleção ficava reunida, no mínimo, duas semanas, treinando num recanto qualquer antes de um jogo desse porte), esse time, por certo, renderia muito mais. E, se Dunga tivesse um neurônio e um pingo de coragem a mais, afiaria nesses treinamentos um time um tantinho mais habilidoso e ousado do que jogará na estreia das Eliminatórias, ainda que a partida seja em Santiago.

Algo, mais ou menos assim, ó: além da defesa habitual, Luiz Gustavo, Oscar, William e Lucas Lima; Douglas Costa e Ricardo Oliveira ou Lucas ou Hulk). Compactava esse time a partir de uma zaga mais avançada e procurava manter a bola sob seu domínio até a hora de acelerar a jogada final.

E, se quiser saber como deve evitar os contragolpes tão temidos por nossos treinadores, leia o livro sobre Guardiola que está nas bancas. Mas, isso exige mais do que simples empirismo, algo que escapa ao repertório do nosso treinador.

Além do mais, a turma começou a se reunir hoje, faz um treino leve amanhã e um recreativo às vésperas do jogo. Logo, será como antes, amanhã.

E seja o lá que Deus quiser. Mas Deus não quer, segundo o verso do saudoso Seu Barbosa, embora digam que seu reino pertença aos pobres de espírito.

 

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