
O torcedor é um cretino. Dito assim, até parece ofensa. Mas, não é. É apenas uma constatação sobre a natureza do torcedor, que pode ser doutor de anel no dedo e diploma na parede, PHD em filosofia, mestre em psicologia, antropólogo afamado, mas que, quando veste a camisa de seu clube, se transforma em besta quadrada.
Claro que há exceções. Mas, a maioria assim se comporta nas arquibancadas ou no sofá de casa: ao ver aquele moleque de cabelo espetado, moicano (que, na verdade, era usado pelos hurons, não pelo último dos moicanos do filme histórico), brincos e outyros adereços, distribuindo pedaladas, canetas e chapéus pelo campo, logo vai timbrando o cara de mascarado, metido, mercenário, coisas do gênero. Um desses alvos, por certo, é Geuvânio, como recentemente era Neymar, por exemplo.
Pois, Geuvânio esteve na Mesa Redonda do Flavinho, domingo, e foi um show de simpatia e bom humor, apesar do tema espinhoso: a escapada pela bola da miséria absoluta de sua infância, história de milhões de brasileiros e da grande maioria dos nossos jogadores de futebol, o atalho que alguns percorrem entre a fome e a fama e a fortuna.
O tema não é novo e já nem consegue sensibilizar nossa gente, sobretudo os do andar de cima, pois vem de gerações em gerações, com pálidas melhoras aqui ou ali.
Mas, apesar da gloriosa virada do menino da Vila – que deveria ser Giovanni não fosse a ignorância ou aquela sacanagem própria do letrado contra o iletrado, no caso, o escrevente do cartório lá de Aracaju -, Geuvânio leva as más lembranças dos tempos em que a família nem tinha onde morar e comia quando dava naquele espírito bem brasileiro de ser, numa boa, herança da senzala, por certo, pois se os grilhões da escravidão foram quebrados, os sociais, não.
E Geuvânio deixa claro que essa atitude se baseia na família, que continuou junto diante de tantos malfeitos do destino. E, íntegra, nos valores que os pais passam para o filho agora virando celebridade e ganhando um justo prêmio pelo seu talento.
Talento que se afia a cada dia na ideia de que jogar bola é uma diversão, antes de mais nada, sobretudo das obrigações profissionais a que todo jogador deve se submeter.
Fez-me lembra de Neymar, que sempre disse isso, e antes dele, Robinnho, e antes de Robinho, Pelé e cia.
Pelo jeito, é o elixir da felicidade que corre nas águas da bica de São Vicente há séculos.
Volta logo, Geuvânio, o Santos precisa do seu talento. Força na recuperação. Como sempre, belo texto, mestre Helena. Abraços!
Não sei se é elixir da felicidade, mas que a Vila possui uma magia diferente de qualquer clube isso é a mais pura constatação. Por lá idolos do passado continuam próximos, tão próximos que inspiram aquele moleque que já nasce com vontade de jogar, com uma atração quase que gravitacional por aquele planeta chamado bola. E Zeus deve ter se condicionado naquele espaço de verde gramado, porque o raio não para de cair no mesmo lugar.
Esse garoto vem fazendo falta para o Santos. Sua ausência reflete na velocidade do time. É um exemplo de profissionalismo: dá tudo que pode, até exagera. Chega ao final do jogo – quando chega – extenuado. Sua lesão tem tudo a ver com essa dedicação. Que o torcedor – da arquibancada ou do sofá – saiba respeitá-lo. Gente assim não brota em qualquer campinho.
O Geuvânio é fantástico, mas o que me chama a atenção são os cometários dos torcedores do Santos, de uma riqueza impar, muito diferente dos torcedores de alguns clubes que só abrem a boca para falar besteira, sem considerar o português.
Grande garoto esse Geuvânio, craque de bola, tomara que fique na Vila por muito tempo.
Aliás, essa molecada do time do Santos tem tudo para conquistar títulos e fazer história, basta ter paciência, porque futebol eles tem demais.
Um abraço