A simplicidade profunda de Levir

Bruno Cantini/CAM
Bruno Cantini/CAM

Ao ser perguntado qual o segredo desse Galo líder, Levir Culpi cunhou uma frase que, por certo, será repetida à exaustão neste nosso mundinho do futebol: “Humildade pra defender e coragem pra atacar”.

O conceito, em si, até que não é original, justamente por sintetizar o óbvio, o futebol na sua essência, transcendendo a modismos e épocas, pois assim é como foi e será: o jogo da b0la se resume nisso – defender e atacar.

Pra defender, é preciso ter humildade, pois implica num gesto subalterno; ou seja, correr atrás da bola e tentar roubá-la do adversário, ou, no mínimo, obstar a sequência da jogada. Ainda mais se o que tem essa tarefa de impedir o jogo do adversário é um cara de talento, pois o ato de destruir contraria sua vocação construtiva. Isso está impregnado lá no núcleo de seus genes.

E, para atacar, é fundamental que o time todo tenha a coragem de romper as amarras que o atam à síndrome do contragolpe. Isto é: quando recuperar a bola, tem de se desgrudar da defesa e buscar, com inteligência, habilidade e rapidez (não pressa) a meta adversária.

A imensa maioria dos nossos times são extremamente zelosos na defesa e lenientes no ataque, que se resume hoje em dia em balões despachados pelos zagueiros, ou arrancadas pelas laterais que culminam quase sempre em centros inócuos, do bico da área, para, no máximo dois atacantes postados na zona de conclusão. Ou, na mais habitual de todas as jogadas de ataque, a bola parada., batida direta ou indiretamente.

Por isso mesmo, a impressão que passa é a de que somos aços na arte de se defender. Falácia! Nossas defesas funcionam porque nossos times não atacam. Pois, quando confrontadas com times que realmente atacam, é 7 a 1 pra cá, 8 a 0 pra lá.

Mas, entre defender com humildade e atacar com coragem, impõe-se armar com inteligência. E aí caímos na caça ao tesouro enterrado há quase três décadas – o tal Camisa 10, que os nossos jovens experts confundem com o Camisa 8, se a 10 for a que esteve expressa nas costas de Zico ou Pelé.

Desde o advento da maldição dos dois volantes, essa camisa passou a ser 18. Ou seja: a fusão do meia armador com o meia ponta de lança, duas entidades à parte, embora complementares entre si. Fusão desfeita, aliás, por esse mesmo Levir Culpi, nesse mesmo Galo, quando recuou o tal Camisa 18 para a função de falso segundo volante, pois, de fato, aquele meia-armador que a turma tanto pesca nas águas turvas da ignorância e do medo: Dát0lo, meia canhoto da cabeça aos pés.

E, mais: deu-lhe a parceria no meio de campo de um autêntico volante, um só, mas capaz de cumprir as três funções a ele destinadas desde sempre: marcar, apoiar e atacar com senso e habilidade. Falo de Rafael Carioca, claro.

Simples e profundo como a própria simplicidade em sua complexa depuração o nosso Levir Culpi. Que os deuses da bola o protejam para o bem do nosso futebol.

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