Blatter sai, ficando.

AFP
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Já vai tarde. Quer dizer: vai, pero no mucho, pois Josep Blatter prometeu ficar ali pela Fifa limpando gavetas, selecionando papéis e preparando as mudanças estruturais que não fez em quarenta anos na linha de frente frente da entidade maior do futebol mundial, como secretário-geral de Havelange e como seu sucessor. Traduzindo: até a nova eleição para presidente da Fifa, por ele anunciada hoje, terá tempo para apagar os rastros que, tudo indica, levarão o FBI à porta de sua sala.

A decisão de Blatter de promover novas eleições e cair fora da Fifa, quatro dias depois de ser reeleito e um após as denúncias feitas pelo New York Times sobre malfeitos cometidos por seu braço direito, Jerôme Valker, aquele do chute nos fundilhos dos brasileiros que agora está com os seus na reta, era inevitável.

Na verdade, Blatter sabe muito bem, desde o estouro da boiada, no fim da semana passada, que não teria mais condições de reger a orquestra. Ainda mais com Platini, presidente da Uefa, a mais poderosa federação continental do planeta, na sua cola, ameaçando, inclusive, boicotar a Copa na Rússia. Melhor sair de fininho, anunciando grandes reformas e tal e cousa e lousa e maripousa, posando de estadista, do que carregado de braços dados com dois soldados.

Bem, entre as reformas anunciadas, está o fim da reeleição eternizada que sempre vigorou na Fifa desde Jules Rimet, seu fundador, no início do século passado.

Aliás, desde que me conheço por gente – e isso já faz mais de setenta anos – a Fifa teve só quatro presidentes: Jules Rimet, já velhinho, Stanley Rous, Havelange e Blatter. Pode?

A alternância de poder é sempre salutar, pois o poder corrompe as almas mais puras, todos sabem disso. E quanto mais tempo o sujeito detém o poder, mais se sente seduzido e seguro ao navegar as águas turvas da corrupção.

A contrapartida é imaginar aquela turma de homens de terno, gravata e mentes cinzentas que se acotovelará à porta de Fifa na esperança de atacar o botim.

Quem, afinal, sucederá Blatter? Platini, extraordinário craque francês, mas, como cartola… huummm… O príncipe jordaniano que competiu outro com Blatter? Dois huumms… Figo, que anunciou e logo retirou sua candidatura dizendo-se enojado com as articulações? Talvez, espiando aqui de longe. Mas, duvido que tenha bala para convencer os congressistas da Fifa a votarem nele, pois cartola é como político, devoção que logo vira profissão: não há lugar para quem vem de fora.

A esperança é que o próximo seja, pelo menos, mais discreto nas mutretas. Esperar, contudo, que ela seja definitivamente extirpada da Fifa, como de resto do mundo, é sonhar com a volta ao Paraíso.

 

 

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