Os ingleses se divertem

AFP
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Sempre que se fala em acabar com a violência nos nossos estádios, o exemplo vem da velha Inglaterra. Depois de mergulhar nas trevas mais profundas produzidas pela ação dos hooligans, bando de hunos que atemorizaram a Europa nos anos 70 e 80, o futebol inglês emergiu à luz da paz e do verdadeiro espetáculo da bola, graças à duras medidas adotadas por suas autoridades, em conjunto com o universo da bola, que expulsou esses fanáticos da violência dos estádios. Dentre essas medidas, uma se destacou: o fim dos alambrados ou proteções extras entre torcida e jogadores.

E, ainda neste fim de semana, no clássico renhido entre Manchester United e Liverpool, as câmeras flagraram um momento edificante do jogo. Ao cair à beira da mureta que separa a torcida da linha lateral do campo, aquele fio desencapado do Balotelli levanta-se com a nítida intenção de investir sobre o adversário com quem acabara de trombar. Eis que, no ato, um torcedor estende os braços e segura Balotelli pelos ombros, cochilando-lhe algo aos ouvidos, do tipo, imagino, não faça isso, meu filho, que você vai ser expulso. O atacante, então, se recompôs e voltou a campo, chiando, é verdade, mas na boa.

Depois do jogo, publicamente, agradeceu o torcedor que evitou sua inevitável expulsão, pois sua disposição era partir pra briga com o adversário.

Outro detalhe que tenho observado em alguns jogos do campeonato inglês: a relação quase lúdica dos juízes em relação ao jogo e seus participantes. É comum o árbitro inglês, ao marcar algo, chamar o jogador faltoso e explicar-lhe as razões de seu apito. Essa atitude essencialmente didática, que nossos idiotas da comunicação costumam execrar na base de que o juiz não tem que ficar falando com jogador, é meter logo o amarelo ou vermelho nas fuças do bicho, que isso é coisa de macho, de imposição da autoridade, essas cretinices típicas de gente despreparada e tosca,  serve para desarmar os ânimos. Afinal, mais eficiente do que dar porrada é esclarecer.

Assim como entram em êxtase reprobatório quando juízes e jogadores saem rindo um para o outro, depois de uma marcação pontilhada por alguma observação engraçada de um ou de outro. Ainda neste fim de semana, por exemplo, o técnico do Hull City, um tipo bonachão, ao celebrar o gol de empate de seu time sobre o poderoso Chelsea, abraçou o bandeirinha, que, por sua vez, abriu um largo sorriso. Aqui, teria reagido com a brabeza de sempre: “Não põe a mão na farda, meu!”.

Quer dizer: o mundo virou de ponta-cabeça. O brasileiro cordial, brincalhão, um tanto irresponsável, inventor do jeitinho e outros babados, ficou um sujeito grave, quando não violento quando se trata de futebol, que já foi nossa mais graciosa e inventiva arte, ao lado do samba.

E o solene, pontual e carrancudo inglês, descontraiu-se e se diverte como o brasileiro de antigamente.

São as mágicas que um jogo de bola pode produzir: se bem jogado, com graça e leveza, transforma o bruto em boa praça. E vice-versa.

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