
Simpática e edificante a medida adotada por Inter e Grêmio, no clássico de domingo, ao separar uma área do Beira-Rio para a confraternização de torcedores das duas equipes rivais, uma rivalidade que atinge o paroxismo no Rio Grande.
Mas, enquanto casais e duplas de amigos e amigas trocavam gentilezas nesse espaço do estádio, lá fora o pau comia entre as uniformizadas das duas equipes.
Um flagrante do óbvio: a imensa massa de torcedores comuns do futebol, aqui, como no resto do mundo, é da paz. Vai ao estádio para torcer pelo seu clube de coração, divertir-se e tirar um sarro do parceiro de outro time no dia seguinte. No máximo, no calor da disputa em campo, um empurra-empurra, algumas trocas de xingamentos e bola que rola.
Sempre foi assim, desde que inventaram o futebol, uma espécie de simulação da guerra. Simulação, eu disse, justamente para substituir a guerra de fato – uma catarse, um descarrego daquelas emoções todas contidas no dia a dia.
Cansei de frequentar o Pacaembu, nos meus tempos de torcedor, e assistir a clássicos dos mais renhidos da história ao lado de torcedores adversários, na maior paz.
Ah, mas os tempos eram outros, retrucará o amigo. É verdade. O ser humano, porém, é o mesmo desde quando passou a andar de fronte erguida, espiando o horizonte lá na frente. Mudou a cosmética da vida, o seu entorno, a bolha tecnológica em que vive, mas o bicho homem é o mesmo, fundamentalmente. E o será até que a ciência invente ferramentas para construir uma nova humanidade. Mas, isso escapa aos gramados da vida atual e cai no campo da ficção científica.
A violência nos estádios, seus arredores e caminhos, está intimamente, se não exclusivamente, ligada às tais torcidas uniformizadas. Só um cego não vê isso.
E, mesmo nas entranhas desses clubes de fanatismo, a maioria não é necessariamente violenta. É apenas um bando de jovens à procura de identidade comum – minha tchurma como se dizia. Mas, quando você coloca um uniforme nessa turma, ensina-lhe cânticos de guerra, de ódio, e comanda suas operações de deslocamentos e atitudes, acaba formando uma legião de arruaceiros, prontos para a batalha de fato. Mesmo porque, dentre eles, como no resto da sociedade, há traficantes, bandidos, paranoicos, esquizofrênicos, psicopatas, tem de tudo, meu.
Há alguns anos, no auge dos confrontos, o Ministério Público de São Paulo conseguiu eliminar as tais torcidas uniformizadas dos estádios e acabou com as divisões nos estádios. Resultado: reinou a paz no nosso futebol. Mas, só pelo tempo suficiente para que a Justiça reabrisse as portas a esse pessoal.
O que isso quer dizer? Quer dizer que, paralelamente a uma ação mais abrangente e profunda das autoridades no sentido de dar aos jovens brasileiros um ensino mais adequado, de os pais cumprirem sua missão básica e tal e cousa e lousa e maripousa, cabe aos setores da segurança pública e à Justiça criarem instrumentos mais eficazes para, pelo menos, reprimir na raiz o sêmen da violência. É difícil, mas não impossível.