Areia nos olhos da multidão

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press
Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

Dois leitores, corintianos, me recriminam por algo que não fiz: faltar ao respeito com a instituição Corinthians e apelar para o sensacionalismo, depois de velho.

Ambos referiam-se ao post Tite e o marketing genial. Surpreso, fui reler o texto pra ver se havia algo ali que pudesse induzir o leitor a uma interpretação diferente da que está expressa. Nada. Nem uma vírgula, absolutamente nada que fosse ofensivo à instituição Corinthians, tampouco aquele ponto de exclamação que pudesse sugerir a corte ao sensacional.

A crítica, contundente é verdade, mas nunca sensacionalista, ao marketing em torno do evento da apresentação de Tite se estende à apresentação de Oswaldo de Oliveira pelo Palmeiras. O pau que dá em Chico dá em Francisco, como no dito popular. Vale tanto para o Corinthians quanto para o Palmeiras.

Bem, se não há nada no texto, será, então, a ilustração, aquela foto da mesa de apresentação, com o telão ao fundo mostrando Tite com uma faixa dizendo The favela is here?

Liguei, então, para a redação, que é quem publica as ilustrações do blog, imaginando que poderia ter sido uma montagem, coisa do tipo.

Não, nada disso. Era uma foto flagrando aquele exato momento da apresentação, em que, atrás da bancada, havia um telão, cujas imagens eram aquelas mesmas, escolhidas, aliás, pelo próprio marketing do clube. Era, pois, um reforço à tese do anti-marketing do próprio clube, não de minha parte ou da redação da Gazeta Esportiva.net.

No que me toca, vale dizer que a palavra favela tem um tom mais romântico, nostálgico e pacífico do que a politicamente correta comunidade, que a substituiu no glossário nacional.

Favela remete-me aos idílicos versos dos sambistas do passado, assim como às minhas subidas frequentes ao Morro da Mangueira, onde assistia, entre uma cachaça e outra, os velhos batucando numa mesa ao lado – João da Bahiana raspando com a faca seu prato histórico, Nélson Cavaquinho arrancando as notas de seu violão como se extirpasse do fundo da alma todas as dores do mundo, Cartola e sua rica obra orfeônica, essa gente.

Mas, entendo que o termo herdado dos acampamentos dos seguidores de Antônio Conselheiro, durante a Guerra de Canudos, representa também, miséria e violência, a ponto de ferir as almas mais suscetíveis. Por isso, a favela passou a ser chamada de comunidade, na certeza de que isso erradicou de vez a miséria e a violência desses aglomerados humanos por esses brasís afora.

A outra restrição a mim feita é a de que insisto em chamar de Itaquerão o belo e moderníssimo estádio de futebol do Corinthians.

Já expliquei aqui à exaustão que o faço não em detrimento à imagem do Timão. Ao contrário: é uma forma de respeitar e homenagear o clube mais popular deste Estado e o segundo do Brasil, de acordo com as pesquisas realizadas até agora. E, ao mesmo tempo, deplorar o uso indevido da palavra arena para designar estádios de futebol.

Arena, que parece ser uma palavra moderninha, significa areia. Na Antiguidade, servia como denominação para os espaços públicos destinados a espetáculos teatrais ou de confrontos entre gladiadores, leões, massacres de cristãos, coisas desse tipo. Os gregos também as usavam para debates políticos, prestação de contas do regente da cidade etc.

Tinha um formato circular e o chão era coberto de areia.

Já as disputas esportivas – corridas de bigas ou competições de atletismo – desenrolavam-se nos estádios, referência a uma medida de comprimento, em forma retangular, com o chão que podia ser coberto de grama ou de pedras. O palco do futebol, enfim, adotou esse modelo, não o das arenas, para se desenvolver como esporte, hoje macro-indústria de entretenimento.

Palco e plateia que passaram a ser chamados de estádio durante mais de século, até que os idiotas da subjetividade, parodiando Nélson Rodrigues, resolvessem denominar de arenas os estádios de futebol. Talvez, por saudosismo dos tempos dos gladiadores, aumentando assim o grau de violência latente nas plateias modernas.

Arena Corinthians, nome provisório, à espera de um patrocinador de peso, tipo Emirates, Allianz etc., nada tem a ver com a história gloriosa do clube, muito menos com a Fiel. Soa como algo feito de areia, ferro e concreto. Um verdadeiro paredão entre nossas tradições mais populares e uma falsa modernidade, impessoal, distante, separando a fala das ruas do monumento.

Itaquerão, contudo, está mais próximo do povão, o mesmo que cultiva esses superlativos – Mineirão, Castelão, Tatuzão – até mesmo para trocar o Corinthians por Timão.

Resumindo: Itaquerão é nóis, meu! Arena Corinthians é areia nos olhos das nossas mais caras memórias e dos que sabem que ovo não tem pelo.

 

4 comentários

  1. O estádio do Valência na Espanha é chamado de Mestalla,pois está localizado no bairro
    do mesmo nome,assim como chamamos o estádio do SPFC de Morumbi.
    O Camp Nou do Barcelona foi construído em 1957 e já quase sessentão continua sendo
    chamado de Campo Nou (Campo Novo).
    El Molinón,é o nome do estádio do Real Sporting de Gijón na Espanha,pois faz referência
    a um grande moinho hidráulico que havía no lugar onde o estádio foi construído.
    Fazendinha e Parque São Jorge foram as denominações utilizadas durante décadas
    quando se referia ao campo do Corinthians,e a lista de exemplos espalhados pelo mundo
    no tocante a denominações dos estádios e respectivas razões de seus nomes é muito longa.
    Naming rights é uma coisa,Itaquerão,Parque Antárctica,Beira Rio,etc.,são coisas do futebol.
    Prezado Senhor Alberto Helena,seja sempre benvindo ao Itaquerão.

  2. Texto demolidor mestre Helena, com a clareza de quem acompanha futebol há tanto tempo, esclarece, desmistifica, sai do lugar comum principalmente dessa praga chamada “politicamente correto” que permeia de forma perversa nossa sociedade “carneira” e as vezes “carniceira”

    Genial.

  3. Concordo, Helena, com todo o pretexto, baseado em fundamentos históricos, para nomear de Itaquerão o estádio corintiano. O problema nessa conversa toda, se encontra na subjetividade e maldade que acompanham a alcunha desde que se pôs a construir o tal do estádio. O bairro de Itaquera foi e é vítima de preconceito por parte de uma parcela (grande, diga-se de passagem) da sociedade, composta por gente ignorante, que se acha melhor ou maior, pelo fato de ser, financeiramente, mais abastada, e entender que se trata de um bairro pobre e marginalizado.
    O próprio Juvenal Juvêncio, munido de um despeito latente, criticou o bairro e a acessibilidade, além de dizer q é “impossível” chegar ao estádio.
    Convenhamos, até o mais cego dos deficientes visuais, sabe que, diante de tudo isso, a alcunha não soa como homenagem ao bairro, nem como um superlativo de valorização, sabe, sem dúvida que o apelido tem mto mais caráter pejorativo do que qualquer outra coisa.
    Para ser honesto, eu mesmo, aceitando a areia que gente inteligente como o senhor joga nos meus olhos, levo na esportiva e me faço acreditar q é só respeito e valorização, mas não acredito, sinceramente, que nem o senhor diga o mesmo de coração.
    Se é pra respeitar, o q custa não bater?
    Se sabe q incomoda, pra que insistir?
    Fica parecendo q só usam o termo para cutucar!
    No mais, sempre fui seu fã, e não é o nome do estádio q me fará deixar de sê-lo!
    Tudo do melhor, sempre!
    Abraço!

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