Tite e a linguagem da bola

Foto: Edu Andrade/STR/Gazeta Press
Foto: Edu Andrade/STR/Gazeta Press

Acabo de ver Tite na tv dizendo que não pretende dirigir um time no exterior porque, entre outras coisas, não sabe se expressar devidamente em outros idiomas. E arrematou dizendo que o técnico italiano Ancelotti lhe confidenciou ter tido esse problema na Inglaterra.

Esse, realmente, é sempre um empecilho, claro, embora a globalização do futebol transformou os grandes clubes da Europa, por exemplo, em verdadeiras Torres de Babel. E, como se viram nossos monoglotas quando desembarcam no Oriente Médio, no Japão e na China?

Na verdade, o inglês é uma espécie de esperanto moderno. é a língua do Império, como o foram no passado, o francês, o latim e o grego.

Quem domina um pouco o inglês se vira em qualquer parte do mundo. Até mesmo no Brasil, onde ainda se fala um idioma a caminho da extinção  – a última flor do Lácio, inculta e bela – , reduzida neste século a pouco mais de cinquenta palavras de uso corrente.

A questão é outra. Por falta de estudos aprofundados sobre a história do futebol, o desenvolvimento dos sistemas e táticas, e de tempo para treinar, fruto de um calendário absurdo, nossos treinadores passaram a ser mais motivadores do que propriamente treinadores. E isso, sim, exige um discurso afinado com os ouvidos dos jogadores. é a tal linguagem do jogador que nossos treinadores tanto exaltam.

Sempre que falo desse assunto me lembro da figura de Bella Guttman, o húngaro que em 1957 desembarcou no São Paulo e mudou a face do nosso futebol, tornando-o menos rebuscado e mais objetivo, ensinamentos colhidos por Vicente Feola e que acabaram resultando na primeira conquista mundial do Brasil, no ano seguinte, na Suécia.

Guttman mal conseguia ser entendido, naquela mistura de italiano e espanhol que emitia aos solavancos. Recorreu, então, à onomatopeia para sintetizar seu conceito de jogo: Pim-pam-pum (mais tarde, expressão adotada por outro gringo, o argentino Filpo Nuñes), ou Ta-ta-tá.

O que essa linguagem de bebê significativa? Simples: três toques, gol.

Então, passou a treinar e a executar esse princípio. Bola com o goleiro Poy, que possuía um chute forte de esquerda. Poy, ao devolver a bola ao jogo, mirava o centroavante Gino, exímio cabeceador, lá na frente. Gino espanava de cabeça para Maurinho, o Flecha Negra, que partia em alta velocidade pela direita, seja para enveredar pelo meio e disparar, seja para cruzar na cabeça de Gino, que já entrava na área.

Claro que tudo não se resumia a isso apenas. Mas, esse é um exemplo sobre o conceito aplicado em campo. O conceito era acrescentar um toque de objetividade onde havia excesso de rebuscamento, de troca de passes laterais e dribles. Mas, não sua substituição pura e simples.

Mesmo porque Guttman vinha da Escola Danúbio, onde o passe e o envolvimento, a técnica e a habilidade, eram a essência do jogo. À época, os húngaros eram chamados de os brasileiros da Europa.

E o que teria sido de toda essa objetividade se lá não estivesse Garrincha e seus drible desconcertantes?

O que estou querendo dizer com essa arenga toda é o seguinte: não é a língua que atrapalha nossos treinadores, e sim os conceitos básicos sobre o jogo da bola, Já passou da hora de olharmos pra frente, em direção ao gol inimigo, e não ficar olhando pra trás, em direção ao nosso  próprio gol. Isso, para a turma lá de fora é passado. Um passado sem glória, diga-se.

 

 

3 comentários

  1. Parabéns Alberto Helena Júnior, em tempos de internet e de comentários tão pobres e destituídos de fundamentos, seu artigo desponta como um colírio para os olhos cansados de ler tantas obviedades. Parabéns pela excelente fundamentação.

  2. Felizes daqueles que viram com os próprios olhos o futebol brasileiro jogado nas décadas
    de 50,60 e 70,e quando discutimos o tema,dizemos que não queremos ser saudosistas
    mas sempre utilizamos o passado como referência comparativa com o presente,e é aí que
    provavelmente cometemos alguns equívocos.
    Os ambientes futebolísticos das épocas são totalmente distintos,e melhor dizendo,
    o “sistema futebol” é outro.
    Hoje temos empresários aos montes nos treinos e concentrações,interesses das TV’s
    predominantes sobre os da CBF e Federações, empresas patrocinadoras que mandam e desmandam,etc.,etc. .
    O próprio Guttman na época já dizia “que treinadores deveriam ficar no máximo dois anos
    no comando das equipes”,e a pergunta que fica no ar é se no presente cenário do futebol
    brasileiro existiría espaço para figuras como Guttman,Feola,Filpo Nuñes e tantos outros?

  3. O Helena é um grande estudioso do futebol, mas não seria um bom técnico, porque tratar com pessoas e geralmente com QI baixo, muda todos os conceitos de formatação de uma equipe e os métodos de posicionamento em campo. Pessoas como Pelé, Zico, Falcão, Alex, são grandes exceções no futebol, inteligentes, raciocínio rápido e definição imediata, a maioria tem medo de errar e não pensam, não enxergam um passo a frente, tudo isso dificulta o trabalho que associado a falta de tempo para treinar, confundi a cabeça dos chamados “craques”. Tem alguns que ganham verdadeiros absurdos e são assim chamados, porque a nossa imprensa assim os coloca. Vejam que todos os jogadores que foram para a Europa retornam mais inteligentes, porque será ?

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