
É sempre reconfortante bater uma bolinha no campo das ideias em boa companhia.
Um dos maiores prazeres que tinha, ao cobrir a Seleção Brasileira nessas tantas viagens mundo afora, era o reencontro com Tostão, nos saguões dos hotéis, nos aviões, nas mesas dos restaurantes, nas tribunas dos estádios ou à beira dos campos de treinamento do nosso time.
Temos em comum, além de um certo traço de misantropia, a paixão pela bola bem jogada e as infinitas reflexões a que ela nos leva, de um campo a outro, na viagem pelo tempo e suas peculiaridades. Sempre há um mistério a ser desvendado, sempre há um ínfimo detalhe que pode fazer a diferença na perspectiva do todo, e é o fascínio por essas coisas que nos aproxima, embora ele, lá, no seu solar às bordas de Belô, e eu, aqui, na minha chacrinha de Ibiúna.
Como nem ele, nem eu somos muito adeptos do telefone ou dessas todas formas de convívio chamadas de redes sociais, nossas conversas são telepáticas. Ou melhor: eu leio o que ele escreve e fico aqui conversando comigo mesmo como se fosse com ele. Suponho que o mesmo se dê com o velho Tusta, pois nossas concepções sobre futebol batem como se o papo tivesse sido atualizado ontem. Dá pra entender?
Por exemplo: na sua coluna de hoje na Folha, Tostão debruça-se sobre uma questão que me é muito recorrente – esse divórcio entre volantes e meias que sepultou o toque de bola, o passe – leia-se, a essência do futebol -, a criação, a trama, o envolvimento progressivo do adversário, enfim, o próprio significado do jogo, que, ao cabo, se resume na expectativa permanente do desfecho, o gol, como se fosse uma novela interminável.
Isso acaba desaguando na extinção da figura do meia-armador, o pensador do time, aquele que arquiteta o jogo a partir do meio de campo, ditando a alternância de ritmo, com passes curtos ou longos, viradas de lado, enfiadas fatais de bola para os atacantes, o cara que sabe a hora certa de se colocar no lugar exato para receber a bola e dar-lhe o destino correto, esses expedientes todos que compõem o vasto repertório do autêntico meia-armador.
No nosso futebol atual, ou esse cara tem de virar volante, correndo atrás do adversário mais próximo, ou tem de ser um terceiro atacante, entrando na área inimiga a toda hora.
E, aqui, Aleluia!, encontro no velho Tusta um inestimável companheiro nesta minha viagem solitária, quando se refere a Ganso. Muricy e os papagaios da mídia em geral vivem exigindo de Ganso que entre na área, faça gols e tal e cousa e lousa e maripousa. Logo ele, um dos raríssimos exemplares de meias-armadores que restaram nos nossos campos. O cara talhado pra vir aqui e engendrar as jogadas de ataque, tem porque tem de jogar lá adiante, entrando na área. Não é a dele, embora isso deva ocorrer vez por outra, pela própria natureza do vaivém da bola.
Enfim…