
A convocação de Kaká para o lugar de Ricardo Goulart, machucado, não chega a surpreender. Nem tanto pelo que o craque vem fazendo no São Paulo, nesta sua volta ao Brasil, e muito mais pelas recentes declarações do técnico Dunga, nas quais elogiou Kaká e descartou Ganso.
Se futebol é momento, como bem cunhou mestre Rúbens Minelli há quatro décadas, Kaká merece, sim, essa convocação. Sobretudo, porque mudou radicalmente seu estilo de jogo. Trocou o individualismo dos arranques solitários com a bola nos pés pela solidariedade de uma intensa circulação pelo campo, participando mais da armação das jogadas do que das finalizações, como era seu traço principal nos tempos de melhor do mundo.
Além disso, revelou uma faceta insuspeitada até então – a de líder, uma voz de comando e até de repreensão aos companheiros.
Acrescente-se ainda que, embora não tenha rendido na Seleção o que dele se esperava no auge de sua carreira (Copas de 2006 e 2010), quando chamado por Mano Menezes, respondeu à altura.
Há, também que se levar em conta que a nova maneira de Kaká jogar pode vir a resolver em parte o maior entrave do time atual: a armação de jogadas do ataque, até agora insuficiente no trabalho de Oscar e William.
O problema é que, já caminhando em direção à aposentadoria, Kaká não pode ser cogitado para a próxima Copa do Mundo. E sua chamada, agora, de certa forma, obsta a possibilidade de Dunga ir experimentando outros jogadores mais jovens e com potencial técnico também merecedor de uma convocação, ao menos.
Pego como exemplo aquela legião de excelentes meias e atacantes que andam fazendo bonito no Shaktar Donestk já há duas ou três temporadas: Douglas Costa, Luís Adriano, Alex Teixeira, Taison, sei lá quem mais, todos ex-companheiros de William, que hoje é titular de Dunga até segunda ordem.
São jovens, com muita experiência em competições internacionais, inclusive a Copa da Uefa e a Liga dos Campeões,
Nessa escassez de centroavantes em que vive o futebol brasileiro, por que não chamar Luís Adriano, ex-Inter, que, além de moço, tem um jogo mais participativo do que a maioria dos matadores de plantão, justamente a forma adotada por Dunga pelas atuais circunstâncias?
O importante é manter a mente aberta e espiar um tanto além do horizonte.