
Nesse calendário insano, em que os principais clubes brasileiros são forçados a jogar dia sim, dia não, está a raiz de nossos problemas. Todo mundo sabe disso há milênios e ninguém se atreve a fazer nada para resolver a questão.
Ah, mas a culpa foi da Copa do Mundo, dirá o mais cínico dos cartolas da CBF. Uma ova! Sabia-se da realização da Copa do Mundo no Brasil há oito anos. Os caras tiveram oito anos para ajeitar o calendário de 2014, e tudo que fizeram foi deixar como está. Ou pior, pois empurraram para o segundo semestre, justamente na fase decisiva do Brasileirão, esse acúmulo imbecil de jogos. E não foi por falta de aviso.
Então, o jogador vai lá e erra todos aqueles passes de hábito; fica na cara do gol e manda a bola pra fora do estádio, nas raríssimas chances criadas por um futebol dominado pelo medo de perder. Sim, porque perder, significa a porta de saída para o treinador, que, por sua vez, tranca seu time, enfeia o espetáculo, afasta público e patrocinadores e, como resultado disso tudo, os clubes se enchem de dívidas sem perspectiva de resgate a longuíssimo prazo.
Sem grana, só conseguem contratar este ou aquele refugo do futebol europeu ou hermanos de qualidade duvidosa. Consequência: os elencos se reduzem ao ponto de não darem conta do recado de tantos jogos acoplados.
Então, o amigo me perguntará: por que cargas d’água, sabendo disso, por menos dotados de inteligência que sejam, os cartolas não mudam o braço da viola? Porque a estrutura do nosso futebol é muito peculiar. O presidente da CBF é eleito pelos presidentes das federações estaduais (essa excrescência que só existe no Brasil). Estes, por sua vez, são escolhidos pelos clubes da sua região, em sua imensa maioria não participantes das competições de elite.
Para contemplar os modestos interesses desses eleitores, os presidentes de federações fecham questão sobre o espaço que o calendário lhes deve reservar para os campeonatos estaduais, coisa de três meses, em média. Para tanto, recebem o apoio de boa parte da mídia esportiva paroquial e de torcedores até mesmo dos clubes grandes, os maiores prejudicados nessa história toda, em nome de uma superada tradição.
Todos perdem, inclusive os clubes pequenos. Pois, alguns deles apenas participam dos campeonatos regionais e depois ficam o resto do ano a ver navios. Os outros, a imensa maioria, nem isso.
A solução? Onde não houver clubes da Série A do Brasileirão, se quiserem manter os estaduais que o façam em forma de copas, mata-mata, em, no máximo, um mês, que somado aos outros dois indispensáveis (férias e pré-temporada) folgam o calendário para o resto do ano acolher as várias competições em pauta de forma civilizada.
O Brasileirão, por sua vez, será dividido em quantas séries sejam necessárias para abrigar todos os clubes filiados, de A a Z, o que permitirá aos pequenos do Brasil afora manterem-se em atividade o ano todo, dentro de suas dimensões e possibilidades.
Veja o amigo que estou me restringindo às questões de campo, num desenho geral. Nos bastidores, há que se estabelecer o fair-play financeiro pra valer: tetos para gastos de acordo com o tamanho de cada clube e responsabilização dos gestores pelos desmandos eventualmente cometidos, respondendo com seus próprios bens.
Enquanto isso não ocorrer, não adianta cobrar de técnicos e jogadores um espetáculo melhor do que esse a que estamos acostumados.
Belo comentário, é uma pena que a nossa voz não é ouvida nem de longe!
Como os clubes grandes, que gastam tanto dinheiro em comprar e pagar jogadores, fazer estadios, pagar centenas de despesas, etc., nao tem uma voz ativa? Todos esses investimentos ficam sujeitos a todos esses riscos que as federacoes impoem, sem falar na pessima qualidade (qualidade??) dos “juizes” (se eh mesmo que sao…), tribunais esportivos ridiculos, etc. etc. O que seria do futebol sem esses clubes grandes (e nao das federacoes, dos juizes e dos tribunais…)? Como nao se entende que os clubes eh quem arriscam os investimentos feitos e, portanto, deveriam mandar mais? Todo o ‘pacote’ de regras brasileiras no futebol eh simplesmente ridiculo…
Bom dia!
caro Alberto Helena assino e concordo com tudo o que voce escreveu, e mais caso os nossos comandantes nao deixarem de sua teimosia, e olharem rapidamente para um calendario proximo ao Europeu, nosso futebol a tendencia e sermos olhados e comparados ao menor futebol do mundo.