
O técnico Gareca, depois de mais uma derrota do Verdão, anunciou que o limite de sua paciência foi ampliado. Só deixa o Palmeiras por vontade própria depois que o time engrenar e a turma respirar aliviada.
Há tempo para isso. Afinal, já vimos outros grandes clubes saírem de situações parecidas no passado, na marca do pênalti.
Além do mais, não cairia bem para a história que Gareca ainda está escrevendo como treinador de futebol abandonar o barco que ele lotou de compatriotas neste momento crucial do seu time. Ao contrário: se conseguir dar a volta por cima, acrescentará um capítulo heroico nessa história.
A propósito das tantas contratações indicadas por Gareca, com o claro intuito de se cercar de gente de sua confiança, prática, aliás, comum entre os treinadores no mundo todo, lembrei-me da eterna exceção chamada Telê Santana. Exceção em quase tudo.
Pois, mal empossado na Seleção Brasileira, no início dos anos 80, tivemos um almoço no restaurante do falecido Jornal da Tarde – maior revolução editorial e estética da mídia impressa brasileira, desde a reforma do Jornal do Brasil – em que lhe perguntei se convocaria Sócrates. Telê torceu o nariz e foi franco:
– Honestamente, acho que ele é um líder negativo.
Certamente, Telê se referia ao médico-craque que passava mais tempo nas cervejarias de Ribeirão Preto do que no consultório ou nos campos de futebol, cheio de ideias estranhas ao mundo da bola.
– Ué, chame o cara e depois decida o que é melhor pra Seleção – insisti.
Sócrates foi convocado, e, no primeiro jogo-treino em Taguatinga, Telê o escalou como ponta-direita. No segundo, como volante. No terceiro, foi de centroavante, cansado de saber que o Dr. era um meia espetacular. No fim das contas, tudo medido e avaliado, Sócrates acabou sendo não apenas titular absoluto do time de Telê, como ainda por cima seu capitão.
Mas, Telê era Telê, não é mesmo?
Um técnico de futebol que gostava de futebol, e que curtia do banco mais o jogo bem jogado do que se exasperava com os eventuais maus resultados. E não me venha o amigo com aquela velha ladainha de que os tempos eram outros. Outro era apenas Telê, em qualquer tempo.