
Finalmente, Kaká volta a vestir a camisa que envergou desde a infância até se transferir para o Milan, sob vaias da torcida são-paulina, onde se sagrou o melhor do mundo. O mundo, porém, dá voltas e nessas voltas Kaká perdeu o rumo já em Madri, por causa de sérias lesões e da má vontade do técnico Mourinho.
O retorno ao Milan deu um certo alento ao craque, mas não sobrevida num clube moribundo nas mãos do Duce da Lombardia, Berlusconi, que há tempos flerta com uma cela de prisão, depois de desgraçar a Itália anos a fio.
Negociado com o Orlando, antes do abraço final ao Mickey e ao Pateta, Kaká dará um tempo e seu talento por aqui.
É sempre bom ver em ação nos nossos campos um meia atacante de sua estirpe. Mesmo que já não suporte aquelas arrancadas irrefreáveis dos bons tempos, Kaká sabe jogar bola, passar, driblar em velocidade e chutar a gol. Ainda por cima, é um ídolo, embora esse status só viesse depois de sua saída do Tricolor.
O fato é que sua entrada no time contra o Goiás, na tarde de domingo do Serra Dourada, expeliu Maicon do meio de campo. Pois, Muricy preferiu promover também a volta do zagueiro Tolói, empurrando Rodrigo Caio para a posição de volante. Volante ou terceiro zagueiro? Veremos quando a bola rolar.
Maicon é desses meias-armadores que nossos bravos comentaristas confundem com a figura do segundo volante, frio, capaz de assentar o passe no meio de campo, coisa rara no nosso futebol. Longe de ser um craque, no sentido mais refinado do termo, justamente por suas virtudes é desprezado pela maioria da torcida, que quer ver em campo o brucutu suando sangue e maltratando a bola durante os 90 minutos e mais os acréscimos.
Aliás, o próprio Muricy já fez referência a isso, várias vezes;
Mas, pelo sim, pelo não, dentro da margem de obviedade que baliza os caminhos de nossos treinadores em geral, Muricy prefere garantir o poder de marcação por ali com a dupla de volantes Souza e Rodrigo Caio. Sim, porque Ganso não marca, Kaká não marca, quem marca? Marcar, para a turma em geral, técnicos, mídia e torcedores, significa desarmar, tomar a bola do adversário, se necessário dar carrinho, trombadas, o que for, para tanto.
Ora, meu amigo, faça você mesmo a pesquisa, nestes tempos de tantas estatísticas, e verá o que já foi confirmado: cerca de 70 por cento da bola recuperada por um time são fruto de erro de passe do adversário., não de combate direto e retomada à força.
Marcar, tanto no campo da bola como na semântica, significa pôr marca em um lugar, sinalizar, demarcar, posicionar-se de tal forma que se crie obstáculo ao que vem de lá.
Na Seleção de 70, considerada a melhor de todos os tempos pela Fifa, quem roubava bola a não ser Clodoaldo e os zagueiros? Gérson, Pelé, Tostão, Jairizinho, Rivellino, por acaso, eram marcadores desses de sair correndo atrás do atacante, dando botes mortais? Nem de longe.
O que faziam, então? Posicionavam-se em campo de tal maneira que o adversário acabava por entregar-lhes a bola de bandeja.
Ah, mas isso é coisa do passado, seu velho gagá. Hoje, a banda toca diferente.
É mesmo? Diga-me, pois, como jogava até outro dia o Barça que venceu dezesseis dos dezoito títulos disputado nos quatro anos de Guardiola? Afora Busquets, quem era emérito marcador naquele time? Nem Iniesta, nem Xavi, nem Messi, nem ninguém mais. Mas, o posicionamento da equipe, a sábia ocupação de espaço por todos, jogando compactamente, com seus zagueiros atuando como verdadeiros volantes, impedia que o adversário respirasse. e a bola não saía dos pés dos catalães.
Mas, enfim, deixemos isso pra lá. E vamos aplaudir a volta de Kaká, o craque, que é menos decepcionante neste pobre futebol brasileiro.