Dunga e o futebol/arte

AFP
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A certa altura da entrevista coletiva, Dunga levantou a questão:

– O que é futebol/arte?

E completou: não será também uma defesa bonita do goleiro, um corte do zagueiro? Quer dizer, já caiu na defesa de cara.

Bem, se fizesse uma breve e salutar visita ao Aurélio, encontraria esta boa definição para o caso: arte é atividade que supõe a criação de sensações ou de estados de espírito de caráter estético, carregados de vivência pessoal e profunda, podendo suscitar em outrem o desejo de prolongamento ou renovação.

Se o preceito não é lhe é claro, meu amigo, permita-me tentar elucidá-lo com alguns exemplos. Sim, uma defesa plasticamente bem executada por um goleiro é arte no futebol. Assim como um corte do zagueiro, se for executado com elegância e inteligência, mas, não, se o gesto se restringir a um carrinho pra linha de fundo, arrancando tocos de grama e atirando o adversário ao ar.

Aliás, foi o que lhe ensinou Arrigo Sacchi, segundo suas próprias confidências públicas de Dunga nesta terça-feira: a maior arte de um zagueiro não é, obviamente, sair correndo atrás do atacante, mas, sim, antecipar a jogada, colocando-se no que Cláudio Coutinho chamava de ponto futuro.

Resumindo: defender, sim, senhor, é uma arte, desde que seja feito com engenho e não apenas com dedicação.

Assim como futebol/arte é o drible desconcertante, o passe inesperado, o lançamento exato, como, por exemplo, o próprio Dunga era capaz de executar quando estava em campo. É o movimento coletivo harmonioso de uma equipe saindo da defesa ao ataque em trocas de passes envolventes buscando sempre o espaço aparentemente inexiste para furar a defesa inimiga. É o disparo venenoso que surpreende o goleiro e a plateia ao mesmo tempo, a cabeçada surpreendente, e, também, todas aquelas firulas, lençóis, chapéus, bandas, chaleiras, toques de calcanhar, enfim, o imenso repertório que o brasileiro inventou ou elevou quase à perfeição, capaz de fazer qualquer galera do mundo delirar.

Futebol/arte, portanto, é o conjunto de todos esses elementos, não o que a mente obtusa de boa parte dos nossos treinadores, torcedores, cartolas e mídia reduz apenas a esta ou aquela firula deste ou daquele jogador. Isso é pirotecnia, não arte.

Futebol/arte, por fim, é traçar uma estética do jogo que rompa com o estabelecido, crie, invente, avance, transmitindo a quem o vê a sensação de prazer e de enlevo, seja na derrota, seja na vitória.

E a eficiência, o resultado, que é o mais importante para os pragmáticos de plantão?

Bem, meu caro, perde-se e ganha-se das duas maneiras. A diferença é que, se o seu time jogar com harmonia, enredando o adversário, criando chances de gols etc. sempre estará mais perto da vitória do que se jogar lá atrás, dando porradas, matando as jogadas de criação, com muita garra e pouca arte, isso é elementar.

São coisas tão evidentes que me espanta e entendia ainda ter de estar repetindo isso, em vão.

 

 

 

6 comentários

  1. Caro Helena,

    Vc um cara digno e honrado….como M uricy ou Tite…
    tanto faz … é honra deslavada… excessiva …para um
    Brasil de Marin … e futuro presidente… Polo Nero ???…
    …………………………………………………………………………..
    Agora, sobre futebol brasileiro / arte… Per favore …,
    chama o Paulo César Caju, .. e, estamos conversado !!!
    Sallute ! Campeone !!!

  2. SE aposente “seu” Helena e leve 99,9% de PSEUDO ENTENDIDOS de futebol que infelizmente existe nesse Brasil afora, a gente entende a sua idade e por isso não vamos levar muito em consideração…

    1. O que piora a sua total falta de senso é sua deselegância, Pedro Paulo. Não dá nem para levar em conta o que vc diz. Alberto Helena é um dos maiores jornalistas esportivos deste país. E a idade não é empecilho para nada. No caso dele, a experiência aperfeiçoou seus comentários e visão sobre o futebol e a vida. No seu caso, Pedro Paulo, claro está que apenas acentuará a sua ignorância.

  3. Mais não é só no futebol que a arte é coisa do passado. Todos os esportes hoje em dia seguem a mesma filosofia. Em tênis as raquetes são maiores que eram antigamente e a força brutal tem tanta importância quanto a habilidade. Em basquete a altura e a robustez são os fatores predominantes etc. etc.

    Bebidas de energia hidratantes, psicólogia, oxigenação do sangue, esteróides, eficiência, tecnologia – seja bolinha de gude ou a Tour de France. Se é competitivo e envolve dinheiro habilidade natural é de segunda consideração.

    Alias, não achei que a Alemanha foi tão deslumbrante nessa copa. Ganhou bem do Portugal e do Brasil mas os outros resultados contra oponentes medianos não foram espetaculares. As seleções do Brasil e Portugal que foram péssimas em todos os respeitos.

    E não é só no esporte. A vida em geral é mais competitiva do que nunca. Pessoas trabalhando horas longas para alcançar objetivos impossíveis, gerar mais produto, mais renda, mais eficiência – qualidade não importa, esmagar o rival e gerar grana é a ordem do dia.

    E a copa do mundo, como os olímpicos modernos, não é diferente. É um negócio que gera bilhões. Os jogadores (atletas) já ganham uma fortuna e os diretores e administradores também. Eles não estão interessados em futebol arte, estão interessados na expêriencia total, nas facilidades, no marketing, na venda de produto, na grana. E os jogadores pensam que atingem o zênite quando ganham a copa? Sim, porque são agasalhados em algodão afastados da realidade que é a vida da maioria do povo….e depois vão ao banco pegar o bônus.

    Infelizmente o artista morreu. A máquina o substituíu.

  4. O Dunga não vai alterar em nada a maneira errada que o futebol brasileiro vem fazendo desde a selecção de 1982. O Brasil irá jogar como ele aprendeu e sabe jogar. fechada com dois volantes a frente de um quarteto defensivo, mais três homens mais a frente sendo que será de certeza mais jogadores de meio campo do que alas verdadeiros e um perna de pau a frente.
    assim o Brasil vai ganhar jogos quando estes não forem importantes, mas quando chegar a uma copa do mundo vai ser despachada como tem sido nos últimos anos. Mas se até lá arranjarem um RONALDO ou um ROMÁRIO com a ajuda de um BEBETO ou de um RIVALDO assim poderão ganhar até uma copa jogando feio e sempre a espera que um destes “CRAQUES” resolvam o jogo com uma jogada fantástica. Mas “EQUIPA” não teram, vão ter apenas “BONS JOGADOPRES” e dois “CRAQUES” à frente. em princípio não chega, mas sempre um dia podem ganhar, como aconteceu no tetra e no penta. Mas ninguém se lembra destas selecções, lembramos é a de 1982 e esta por acaso não ganhou nada.

  5. Seria possível um pouco de respeito e educação?
    Pelo tom selvagem da sua reclamação seu comentário merece a lata de lixo.

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