Encantar é preciso

Fernando Dantas/Gazeta Press
Fernando Dantas/Gazeta Press

O jogo se arrastava num zero a zero que parecia ter se cristalizado no placar do Maracanã, quando o técnico Joachim Löw decidiu substituir o maior artilheiro de todas as Copas, o pirulão Klose, centroavantão certo para aproveitar as inevitáveis bolas alçadas à área argentina, na hora do sufoco final inevitável diante da feroz retranca inimiga. Mas, não o fez trocando seis por meia-dúzia, o experiente Podolski, por exemplo. Nananina!

Mandou a campo, isso, sim, um meia habilidoso, baixinho, de apenas 22 anos de idade, que disputava sua primeira Copa do Mundo. Resultado: Schürrle cruza da esquerda, e o garoto mata no peito com extrema categoria e gira para dar a quarta Taça do Mundo ao seu povo. Não sem antes jogar-lhe nos ombros todo o peso do mundo:

– Vá lá, e prove que você é melhor do que o Messi! – sussurou-lhe Löw à beira do gramado.

Só isso: vá lá e suplante o craque eleito por quatro vezes seguidas o melhor do mundo.

Em contrapartida, Felipão passou a Copa toda insistindo com um centroavante típico – Fred ou Jô, ambos em baixa ao longo de toda a temporada em seus times e na Seleção. E o resultado todos nós vimos qual foi.

Não digo que isso apenas teria salvado o Brasil do vexame histórico. Mas, o futebol é feito de detalhes. Muitas vezes, uma mexidinha aqui, outra ali, surte um efeito surpreendente, o bastante para engrenar o todo e mudar o cenário que parece ser definitivo.

Sucede que, pra mudar o braço da viola, o cara tem de ser ambidestro, e explorar um repertório aberto, pleno de nuances e tons diversos. E, desde que assumiu a cena do nosso futebol, o repertório de Felipão se resume ao samba de uma nota só. Fecha a casinha pequenina no alto da colina e dá-lhe bola pra frente, que, se cair nos pés de um craque eventual, a pátria estará salva.

Sempre foi assim. E não seria diferente nesta Copa. A diferença é que, desta vez, não soube sequer fechar as portas do barraco, que desabou sob a enxurrada de gols alemães.

Seria injusto, porém, dar exclusividade a Felipão nessa toada repetitiva, sem inspiração que se entoa pelos gramados brasileiros há muitos anos.

Qual o técnico brasileiro que arriscaria um acorde fora da pauta, trocando a força pela habilidade no fragor da batalha?

Por isso mesmo insisto na velha clave de sol, ponto de partida de qualquer execução básica. Não se trata de esquemas táticos, metodologia de treinamentos etc. Nossa desafinação é fruto de uma perversão permanente do conceito sobre o que é e o que deve ser o jogo da bola.

Resumindo: técnico de futebol cujo repertório se restringe só ao hino à vitória, que vá dirigir o Juventus da Mooca, com todo respeito ao meu Moleque Travesso. Seleção Brasileira (assim como os grandes clubes brasileiros) exige muito mais: criatividade, beleza, arrebatamento. Tem que dar show, sim, senhor. Ou, no mínimo, partir do princípio de que sua regência busque exatamente isso: uma sinfonia inacabada, pois a perfeição é uma meta defendida pelo goleiro da Seleção, impossível de ser vazada.

Parodiando o poeta que imitou o poeta maior, encantar é preciso, vencer não é preciso. Embora a vitória seja sempre bem-vinda.

 

8 comentários

  1. Alberto, podemos fazer uma pequena ressalva: o Mano Menezes já ventilava com a possibilidade de jogarmos sem centroavante fixo (não estou defendendo a sua volta à Seleção).
    Acho que os jornalistas esportivos terão um papel fundamental, apoiando incondicionalmente o futebol bem jogado (por favor, parem de incentivar o 4-3-3 como sinônimo de ofensividade!). Não podemos colocar na conta do material humano, pois até os EUA (por exemplo) praticaram um futebol agradável na Copa sem contar com grandes estrelas. Ou seja: ou jogamos à lá Parreira (feio, buscando apenas o resultado), ou atualizamos a nossa maneira de jogar, a partir de nossos clubes. O foco no espetáculo (e na segurança) trará o público de volta aos estádios!

    1. Seo Helena, uma sugestão: o que acha de os principais jornalistas do Brasil (como o senhor, o mestre Tostão, Falcão, José Trajano, dentre outros) se reunirem e encamparem uma verdadeira campanha virtual pelo resgate da essência do futebol brasileiro: o futebol-arte?

  2. Caro Helena Jr.

    Concordo com a sua posição, especialmente quando estamos falando de uma Copa do Mundo onde se encontram os melhores jogadores do mundo em atividade.
    No jogo contra a Alemanha, o Brasil, logo no começo do jogo tentou surpreender a Alemanha com seus “velozes” jogadores. Uma coisa não explicaram para os jogadores: jogar com velocidade não significa correr feito louco sem organização. Cheguei a comentar com o meu filho, assistindo ao jogo aqui dos Estados Unidos, que os brasileiros não aguentariam aquele ritmo caso o jogo fosse para a prorrogação.
    Acho que fui otimista demais.
    A Alemanha, ao contrário do Brasil, jogou aqueles primeiros 29 minutos com velocidade no toque de bola e inteligência. Apesar de estar torcendo para o Brasil, achei fascinante a forma como a Alemanha, com extrema facilidade, destruiu por completo o sistema defensivo do Brasil.
    Por sorte nossa, a Alemanha claramente tirou o pé do acelerador para não deixar a situação ainda mais constrangedora.
    Outro time que me surpreendeu foi a Costa Rica. Não só porque se classificou líder no grupo mais difícil da Copa (diria que 99.99% das pessoas, incluindo-me nessa lista, acreditava que a Costa Rica já estava pré-desclassificada no momento do sorteio) e chegando às quartas de final.
    Apesar do time da Costa Rica não ter nenhuma estrela (agora tem o Navas, que na minha opinião foi o melhor goleiro do torneio), considerei espetacular a obediência tática dos jogadores da defesa. Contra a Holanda, deixaram nada menos que treze vezes um jogador impedido do time adversário. Esse fundamento não se pode explicar para um jogador individualmente. A coordenação entre os jogadores foi fantástica e combinado com a performance do goleiro, o time deixou a Copa invicto e a defesa menos vazada (somente 2 gols).
    Encanto-me ao ver jogadores habilidosos driblando os adversários, goleiros fazendo defesas milagrosas, toques rápidos e precisos, táticas de ataque e defesa. E quem não se lembra da decisão do tecnico holandês de substituir o goleiro somente para as cobranças de penalties.

  3. Bravo Alberto Helena Junior

    Urge um movimento de resgate futebolístico. E só grandes cronistas, militantes da área esportiva e conhecedores do futebol como você, aliados a outros catedráticos é que podem fazer as mudanças necessárias, aliás, um recomeço que possibilite devolver ao Brasil a identidade do futebol-arte perdido em meio a tanta barbárie político-administrativa.

  4. Alberto, Muita coisa precisa ser mudada e isso é do conhecimento de todos. O que ninguém fala, sei lá por quê, ou melhor, sei sim é a postura da imprensa que na gula por pontos nas estatísticas, endeusam os fracos, mas com rótulos de fortes. Elevam timecos e jogadores chulos a potências e craques, quando a realidade é inversa. Rendem-se aos patrocinadores e obedecem, de joelhos, suas vontades, mesmo que essas sejam contrárias ao necessário progresso do nosso futebol. Enfim, enquanto isso não acontecer vamos continuar sendo “o único penta e o maior futebol do mundo”.

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