Quem seremos amanhã?

Fernando Dantas/Gazeta Press
Fernando Dantas/Gazeta Press

Confesso que não sei o que passa pela cabeça de Felipão às vésperas da disputa do terceiro lugar da Copa do Mundo, contra a Holanda. Nem pretendo me  entregar a essa aventura arqueológica que me levaria de volta ao tempos das cavernas.

E os treinos em Teresópolis? Não seriam indícios das intenções do nosso treinador? Não necessariamente, pois que tem sido praxe treinar com um time e jogar com outro.

Mas, enfim, digamos que sim. Nesse caso, metade da equipe que tem jogado ficará no banco e outros cinco estarão em campo, numa formação com Júlio César; Maicon, Henrique (acredite se quiser), David Luís e Marcelo; Luís Gustavo, Paulinho e Ramires; Oscar, William e Jo.

Bem, pelo menos nessa escalação há dois meias que sabem trabalhar a bola – William e Oscar -, em vez de apenas um como tem sido até agora. Nada que a princípio sugira uma profunda mudança no nosso estilo (sic) de jogo. Mas, de qualquer forma, um passo, embora tardio, na tentativa de fazer a bola rolar no chão com um mínimo de ciência. A não ser que William e Oscar joguem abertos pelas pontas, correndo atrás  dos laterais holandeses. É verdade que, nessa arquitetura de time, Felipão deverá derivar para a direita Ramires, centralizando mais Oscar. Vá lá.

Assim como, no papel, a defesa ficará menos exposta com os tais três volantes de ofício.

Mas, esse será um jogo, pelo visto, decidido mais no coração do que nos pés dos jogadores. Nesse campo, a impressão é a de que os holandeses estão mais desinteressados do que nós, que viemos de um vexame sem precedentes na nossa história. Esse jogo de nervos, porém, costuma sempre ser traiçoeiro. Às vezes, quem muito deseja nada tem; às vezes, vontade demais paralisa.

O certo é que essas coisas todas não passam pela cabeça de Robben, disparado, o melhor jogador da Copa. O bicho gosta de jogar, partir pra cima dos adversários aos dribles incontidos, com aquela canhotinha mágica. E, tendo pela frente Marcelo, cujo forte nunca foi a marcação, sei não, meu.

É esperar pra ver.

 Nos tempos do Carrossel

Tava aqui posto em confidências com meu companheiro de varanda, o sempre vivo Adonirã Barbosa, reproduzido em papel marchê no seu tamanho natural, quando lembrei do primeiro Brasil e Holanda que vi ao vivo, assim, ó, na fila do gargarejo do estádio de Dorttmund, há exatos quarenta anos.

Terceiro ou quarto degrau acima da linha do campo, ao lado de Vital Battaglia e Orlando Duarte, este, indignado com minha admiração, quase torcida pelo time de laranja, também chamado de Carrossel Holandês. Isso, porque aquele time de Suurbier, Krol, Neskeens, Van Hanegen, Rep e, sobretudo, Crujyff, sob o comando de Rinus Mitchels, este, sim, um professor, porque era catedrático em geometria da Universidade de Amsterdã,  promoveu a primeira e única revolução de fato no futebol mundial.

As razões foram muitas, desde a ausência de um zagueiro de ofício no elenco, o que o obrigou a improvisar por ali dois volantes (Reijesberger e Haan) até à falta de tempo de preparação adequada, atrasada pelas brigas regionalistas entre Amsterdã e Roterdã na elaboração da lista final da Seleção Holandesa, incluindo o atraso na apresentação à Copa da Alemanha do técnico e das duas maiores estrelas da companhia – Crujyff e Neskeens -, que defendiam o Barça na decisão da Liga dos Campeões.

Além do mais, os que estavam concentrados na Alemanha, antes da chegada das respectivas mulheres, haviam caído na gandaia desenfreada.

Sem beques e sem preparo físico adequado, o que fez Mitchels? Simplesmente, subverteu o conceito básico do jogo., sempre moldado em linhas retas, seja na distribuição dos jogadores em campo, seja na triangulação, pilar na evolução da bola por meio do passe. Ou seja:  ao jogador que tem a bola, oferecem-se duas alternativas, dois companheiros, um em cada lado, mais à frente.

Não, porém, naquele time improvisado. Ali, as linhas retas foram substituídas por círculos, verdadeiras rosáceas. O jogador de posse de bola não tinha de mirar o passe para um ou outro companheiro postado nos outros dois vértices do triângulo, sempre sujeitos à presença de um líbero para cortar a sequência caso o marcador primário fosse vencido no giro ou na finta.

O Carrossel começava a funcionar com o dono da bola não num dos vértices do triângulo, mas no centro, no eixo de um círculo formado pelos dois outros companheiros, que giravam em torno dele. Assim, ganhava-se tempo com o passe dispensando a precisão, pois atirado num ponto futuro, e espaço, fugindo-se da marcação estática do defensor e da ação do zagueiro da sobra.

E, como os zagueiros holandeses que não eram zagueiros e jogavam avançados formava-se uma linha de impedimento cômica, pois deixavam, muitas vezes, quatro ou cinco adversários em impedimento. quando a bola conseguia ser lançada ao ataque pelos adversários. E mais: num só movimento, três. Pois, quando inimigo se preparava no meio de campo para fazer o passe, em revoada, quatro ou cinco laranjas se atiravam sobre ele, recuperando a bola diante do espanto do indigitado, e já partiam para um ataque arrasador. Quer dizer. num só gesto coletivo, deixavam meio time adversário em impedimento, recuperavam a posse de bola e atacavam em alta velocidade uma defesa saindo de sua posição habitual.

– É, mas conta aí pros teus chapinha o que te disse esse Crufe aí quando vocês armoçaram junto – sussurra o Adonirã, com aquela voz rouca e safada.

Não foi almoço, Velho. Foi um jantar que varou a madrugada, ao lado de uma deusa loura, mulher do Crujyff, quando ele veio participar de um jogo festivo de fim de ano promovido pela Bandeirantes no restaurante do Hotel Eldorado, na rua São Luís.

O que me disse, então, um dos maiores craques da história? Disse que, se Jairzinho ou Paulo César Caju tivessem convertido uma daquelas duas chances de ouro, o Carrossel teria travado, pois eles morriam de medo do futebol brasileiro

Isso, claro, era nos tempos do Carrossel.

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *