Regi fora da Globo. Mas não da Fórmula 1.

Foto: Gazeta Press

O anúncio oficial pegou de surpresa. Depois de quatro décadas, os comentários ponderados de Reginaldo Leme – contraponto com as narrações intensas de Galvão Bueno – não estarão mais ao alcance dos espectadores da TV Globo. A sóbria despedida foi na semana passada, na prova de stock car. A ausência já se fará sentir neste final de semana, com a corrida de Abu Dhabi, a derradeira da temporada de Fórmula 1 2019.

Reginaldo sempre conferiu uma grande credibilidade ao seu trabalho e, ao longo dos anos, esta acabou sendo sua marca registrada. Fez entrevistas memoráveis com campeões mundiais – incluindo os três pilotos brasileiros – abriu espaço para os jovens talentos das pistas e criou o grande anuário do automobilismo brasileiro, o ‘Automotor’, a caminho de sua 28º edição.

Falar do Regi para mim não é difícil. Começamos praticamente juntos na cobertura do automobilismo esportivo. Ele pelo Estadão e eu pelo Jornal da Tarde, por acaso separados por apenas um corredor que ligava as duas redações da Major Quedinho. Regi sempre foi elegante: usava um casaco de couro preto sete oitavos que ele tinha comprado na Iugoslávia, durante uma excursão do Palmeiras. Cobrimos corridas juntos – Bélgica, Holanda, França, Suécia – e depois separados, em revezamento. O mote principal era Émerson Fittipaldi que além de campeão mundial gostava de brincar com aviõezinhos em sua casa na Suiça. Mas tinha ainda José Carlos Pace, Wilsinho Fittipaldi e os outros que foram aparecendo na trilha aberta por Émerson. Na Europa, contávamos com a presença constante e inestimável do correspondente do Globo, Janos Lengyel. E de amigos competentes e divertidos como Teca e Chico Júnior, Álvaro Teixeira, Sérgio Rodrigues, o gaúcho Pinheirinho, Lemyr Martins e tantos outros. Dividimos momentos agradáveis em cidades europeias. Regi, sempre acompanhado pela mulher, a jornalista Carmen Sílvia, cujos olhos se enchiam de lágrimas de felicidade ao saborear bombons de marron glacê.

Do Estadão para a Globo foi uma passagem natural. Deu grandes furos jornalísticos – revelou ao mundo a farsa criada no acidente com Nelson Piquet Jr em Cingapura, na corrida de 2008 – anunciou com exclusividade algumas mudanças de equipe, sofreu como todos com a morte de Ayrton Senna e foi sempre sensato em suas análises, trazendo como essência a longa vivência nos autódromos, um bom relacionamento e bem sucedidas experiências jornalísticas como o programa ‘Linha de Chegada’, que comandou por temporadas a fio no SporTV, onde tive o prazer de participar diversas vezes.

Com Reginaldo Leme, o automobilismo passou a contar com a assistência do irmão Dinho Leme, nada mais nada menos do que o baterista dos Mutantes. E da filha Daniela Leme, colocando ordem na vida profissional do pai e impulsionando seus projetos.

A Fórmula 1 não sai do Regi. Nem que ele queira.

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