
Há 25 anos eu estava em frente da televisão em um apartamento pequeno de Perdizes, assistindo à Fórmula 1. Na hora da batida fatal na curva Tamburello pressenti que seria grave pela posição do carro, pela agitação das pessoas e porque Ayrton Senna não se mexia no cockpit da Williams. Na sexta, Rubinho Barrichello decolou com a Jordan, perdeu os sentidos e deixou Ayrton Senna assustado; no sábado, o choque mortal da Symtek do estreante Roland Ratzenberger na curva Villeneuve. No domingo, Ayrton.
Entre a batida – ninguém esperou o resto da corrida – e o angustiante anúncio oficial da morte do piloto brasileiro no hospital de Bolonha, a redação do Jornal da Tarde, onde trabalhava, virou um formigueiro humano. O indigesto laudo médico, as primeiras repercussões, a expressão grave de Michael Schumacher no pódio, o desespero dos fãs que congestionavam as linhas telefônicas do jornal. Isso continuou nos dias subsequentes, culminando com o velório e o funeral em São Paulo.
Ayrton Senna, mais do que Émerson Fittipaldi ou Nelson Piquet, tornou-se, no começo da carreira, uma presença habitual na redação do jornal. Trazia fotos de suas corridas nos circuitos europeus, recortes de jornais, revistas especializadas. Era o seu próprio ‘assessor de imprensa’, até ser salvo pelo afável e competente Charlinho Marzanasco. Eu não acompanhava mais o circuito, ia a uma ou outra corrida, mas não perdia as entrevistas de Senna em São Paulo. E, muitas vezes, o próprio entrevistado me levava de volta para a redação do JT, no caminho de seu escritório em Santana.
Depois da batida inexplicável em Mônaco, em 1988, ouvi dele uma curiosa constatação: ‘Eu não posso liderar uma corrida com muita folga. Quando isso acontece perco a concentração. Agora estou certo disso. Preciso ser pressionado o tempo todo.’
Senna acelerava como um samurai, sem dar trégua. Talvez por isso os japoneses se apaixonaram por ele.
Ayrton Senna da Silva nunca foi santo, mas tinha um carisma talvez jamais alcançado por qualquer outro esportista no Brasil. As narrações vibrantes e eufóricas de Galvão Bueno fizeram sua parte. A morte ao vivo calou fundo no coração do torcedor. Era um rapaz de 34 anos e muitos sonhos pela frente quando bateu na Tamburello. Não será esquecido. Hoje é o Senna Day.