
Em uma longa conversa com o Planeta Octógono, o treinador de Jiu Jitsu do campeão peso leve do UFC, Anthony Pettis, Diego Moraes falou sobre diversos assuntos.
O treinador conta como é sua relação de trabalho com Pettis que vai além do lado profissional.
Diego que se tornou amigo do americano, contou como se sentiu ao ver seu pupilo conquistar o cinturão do UFC, usando o Jiu Jitsu.
Além de fazer elogios a evolução do lutador no solo, Diego analisou o próximo adversário de Pettis, Josh Thomson e acredita em um nocaute de Anthony.
Além disso, mostrando muita personalidade, Diego falou sobre assuntos polêmicos como a demissão de Rousimar Toquinho no UFC e a graduação de atletas de MMA estrangeiros no Jiu Jitsu.
Leia na íntegra o bate papo com o treinador de Pettis, Diego Moraes:
Planeta Octógono – Como você conheceu o Anthony Pettis?
Diego Moraes – Meu irmão Daniel passou uma temporada na academia do Pettis nos Estados Unidos, treinando com o Duke Roufus, uma lenda do K-1.
Aí e foi lá treinar e a galera gostou muito e convidaram ele para ser um dos treindores de Jiu Jitsu da academia.
Através disso, fui lá também e como agora meu irmão está com outros objetivos e focando outras coisas, eu meio que acabei assumindo tudo.
Comecei a treinar com o Pettis desde a luta com o Lauzon dele no Japão, depois da luta com o Cerrone fiquei o camp todo lá com ele.
E agora essa última com o Ben Henderson. Trabalhamos praticamente as três últimas lutas.
Antes era mais profissional, eu iria lá treinava mas a amizade não era muito grande.
Aí fiz o convite para treinar no Brasil após a luta com o Cerrone, ele veio e ficou 15 dias comigo. E estreitamos muito a amizade.
Neste último camp eu fiquei na casa dele, eu acho importante este vínculo que temos com os lutadores apesar de nossa excelência.
Outro lutador do UFC, o Scott Jorgensen que começamos a treinar também veio para o Brasil e já veio quatro vezes.
Então sai um pouco daquela esfera só de treinos porque nos levamos eles para a praia, até para poder ajudar contra o stress que incomoda nos treinos devido o ritmo puxado.
Eu acho que é um dos grandes pontos fortes da Team Moraes esta relação com os alunos.
Planeta Octógono – Como é ver o seu aluno conquistar o cinturão do UFC, com o Jiu Jitsu? O que significou isso para você?
Diego Moraes – Foi um dos momentos mais felizes da minha vida. E da minha vida profissional.
Passa um filme rápido na cabeça, antes vemos o Pettis lutando na TV, admiramos como lutador e agora o cara está ganhando um título no UFC, acreditando em nosso trabalho.
Ele agradeceu a Team Moraes e a mim no octógono na entrevista e na coletiva. Valorizando nosso trabalho.
Eu fiquei meio que “a ficha não caiu ainda”. Nós pegamos o Pettis para trabalhar apenas nestas últimas três lutas e afiamos o chão dele.
O Pettis sempre me fala: Hoje eu consigo soltar minha trocação com muito mais confiança. Me sinto mais confiante porque se der errado, sei que se a luta for para o chão, não tenho que me preocupar porque meu chão está bom.
Ele disse que vindo para o Brasil, treinando conosco, deu muita confiança para ele testar coisas novas e tentar já que a parte de chão dele está em dia.
Foi mágico. Cair no chão contra o Ben Henderson, um cara duríssimo. Mas nós estudamos muito isso e eu sabia que ele poderia finalizar.
Estudamos muito as lutas de Jiu Jitsu sem quimono do Benson e vimos que ele dava mole no triângulo, no braço.
Na luta quando falei para ele marcar os cotovelos, teve uma falha técnica do Benson e ele pegou no armlock. Foi um sonho, incrível. Foi como ganhar uma Copa do Mundo para mim.

Planeta Octógono – Como vai ficar o próximo camp para a luta com o Josh Thompson? Você pretende ir para lá ou o Pettis vai retornar ao Brasil?
Diego Moraes – Eu estou indo para lá dia 15 de novembro, 1 mês antes da luta. Nós estavamos em Cancun, tirando umas pequenas férias após a luta e foi engraçado.
A luta tava para ser marcada e quando vi no Twitter já tinham anunciado a luta dele com o Thomson. Mas nem a gente sabia ainda 100%.
Mas após o Dana anunciar a luta e a imprensa reproduzir, ele falou que gostou da luta, do adversário.
Que é uma luta interessante para ser o primeiro cara na primeira defesa de cinturão.
Eles já treinaram juntos uma vez no Havaí e ambos já conhecem a força, a pressão do outro.
O Pettis já começou a treinar porque ele estava com o joelho bichado mas agora está tudo bem, e eu chego 1 mês antes para dar aquele sprint final.
Planeta Octógono – Já que estamos falando do Thomson, na sua opinião, quais os pontos fracos que o Josh tem e que podem ser utilizados pelo Pettis nessa luta?
Diego Moraes – O Thomson é trocador. E na minha opinião, o Pettis é um dos melhores trocadores que tem na atualidade. Então vai fazer o jogo que ele (Pettis) quer.
O Josh não vai querer ir para o chão e tenho certeza que o Pettis vai impor o ritmo dele e tem tudo para nocautear.
Planeta Octógono – Mudando de assunto, conte nos um pouco sobre seu trabalho e como o mesmo pode ajudar a combater as drogas e a violência como temos visto nos últimos anos no Brasil…
Diego Moraes – A gente tem um trabalho social aí. Na minha academia antiga, nós tinhamos um projeto social a mais ou menos 6 anos que atendia cerca de 100 crianças.
E com a mudança de academia, que faz mais ou menos 1 ano, nós pegamos aqueles que se destacavam e que treinavam mais sério.
Hoje nós temos um garoto que mora na academia e que não tinha muita perspectiva. Os pais dele não queriam nem saber e a gente deu um salário bom para ele.
Ele ajuda nas aulas e nós temos muito essa responsabilidade social porque sabemos que a luta ajuda, a luta salva vidas.
Já tenho um projeto montado. Como antes era só academia não era uma coisa tão profissional.
Mas hoje, nós temos um Centro de Treinamento na Ilha do Governador, temos 400 alunos mas a gente estabilizou primeiro para voltarmos com o projeto.
Um dos nossos professores de Muay Thai, ele iria para os Estados Unidos para fazer a preparação do Pettis mas como a luta com o Aldo cancelou, acabou que não indo.
É um garoto de 22 anos que treinou muito conosco, de base humilde, então vejo que a luta e o futebol são a expectativa dos brasileiros.
Se todo mundo fizer um pouco, tenho certeza que podemos ajudar bastante até porque talento existe em todos os lugares.
Quantos talentos desperdiçados existem nas comunidades e acredito que temos que criar as oportunidades para os talentos aparecerem.
Esse é o pensamento da Team Moraes, dar oportunidade para as pessoas com talento mas que mostram vontade. Para estes nós procuramos abrir as portas.

Planeta Octógono – Como você enxerga o esporte nos últimos anos no Brasil, e como isto ajudou a vocês a ter essa estrutura para poder dar oportunidades e ajudar muitas pessoas?
Diego Moraes – Hoje, penso que a Globo ter comprado a idéia ajudou muita gente.
Eu já treinei e dei aula no Centro Olímpico nos Estados Unidos, tanto que um dos meus alunos é o Joe Warren, campeão mundial de Wrestling e ex campeão do Bellator.
Estive lá gravando o reality show do Bellator, o Fight Master junto dele como técnico de Jiu Jitsu do time dele lá e dá para ver a diferença de estrutura.
Treinamento, eles tem apartamento para os atletas, refeitório, acompanhamento médico e nutricionista.
Cheguei a comentar com os atletas americanos. Quando vocês verem um brasileiro chegando aí, lutando por medalha olímpica é porque o cara é muito bom.
Porque infelizmente no Brasil nós não temos suporte do Governo, Centros de Treinamento de nível.
Então quando o cara chega no topo é porque ele realmente passou muita dificuldade e é muito talentoso.
Até porque para se ter uma empresa hoje no Brasil, tem que ser algo que venha dar retorno para a mesma, então hoje estando nas grandes mídias.
Com essa divulgação toda, nós estamos engatinhando e conseguindo montar grandes academias e grandes eventos.
Acho que a coisa é mais ou menos assim até porque é muito difícil conseguir um suporte no país.
Planeta Octógono – O que você achou da demissão de Rousimar Toquinho? Você concorda com a demissão?
Diego Moraes – Eu particularmente sou fã do Toquinho, adoro o estilo de luta dele mas com certeza ele passou (do limite) até porque o cara bateu ali.
Ele já tinha feito esse erro antes e penso que ele poderia ser punido talvez com a perda da bolsa, uma suspensão.
Mas ser demitido é uma coisa muito forte porém é um política do UFC então como nós temos regras no esporte, já que muitos lutadores são exemplo para muita gente.
É complicado falar até porque o UFC tem muito disso, dois pesos e duas medidas.
Para alguns atletas tem algumas punições e para outros não porém eu concordo com a punição.
Apesar de eu gostar muito dele, acho que ele segurou muito o golpe e ele já tinha feito isso antes sendo até advertido na oportunidade.
Planeta Octógono – A Comunidade do Jiu Jitsu tem reclamado bastante sobre esta nova tendência da graduação. Como você vê os atletas principalmente os de MMA sendo graduados?
Nós vimos o Velasquez e o Daniel Cormier recebendo faixas sendo que não possuem um histórico longo na arte marcial. Como você enxerga tudo isso?
Diego Moraes – O pessoal meio que abriu mão de vários conceitos. Eu venho da linhagem Gracie.
Para mim para ser um faixa preta, o cara precisa saber defesa pessoal, o cara precisa saber a história do Jiu Jitsu.
Quem foi o Hélio Gracie, o Carlos Gracie. Como começou a luta. No meu ponto de vista.
Mas como o esporte está tão difundido e está tão grande hoje, é muito difícil ter controle sobre isso.
Apesar que um cara ser duro, com uma grande base de wrestling vai dar muito trabalho para os caras mas para ser um faixa preta ou marrom é um pouco diferente.
Porém isso vai muito do professor até porque tem muitas pessoas que avaliam só pela dureza do cara, se é muito duro ou não.
Para conseguir pegar uma faixa preta do Relson Gracie, você precisa saber mais de 100 posições de defesa pessoal, tem todo uma coisa envolvida.
Eu vivi muito tempo com o Saulo e o Xande Ribeiro que me falaram isso: Você treina Jiu Jitsu? Treina de quimono? Ou treina apenas o No-Gi (Jiu Jitsu sem quimono)?
Então tem essa diferença toda, o Saulo mesmo dá prova para os alunos sobre a história do Jiu Jitsu.
Mas hoje qualquer cara pode botar uma faixa na cintura e dizer que é. Não tem fiscalização. Não tem um padrão então vai da idéia de cada professor.
Porém é muito difícil julgar até porque por exemplo, o Pettis é um faixa azul e finalizou um faixa preta duríssimo. Realmente é complicado.
Planeta Octógono – O que você acha do famoso TRT (Terapia de Reposição de Testosterona)?
Diego Moraes – Eu nunca estudei profundamente sobre o assunto. Então é difícil eu dar uma opinião sobre mas o pouco que eu ouvi, geralmente quem usa TRT são pessoas que já usaram muito anabolizantes.
É outra coisa que é difícil você ter um controle, até porque qualquer médico pode dizer que você precisa usar esta terapia.
Mas eu acho que deve ter uma regra para todos. Porque se ficar liberando para um e para outro fica difícil.
Planeta Octógono – Você tem alguns alunos que certamente vão chegar com tudo nos eventos? Alguma promessa já criada dentro da Team Moraes que pode despontar no MMA?
Diego Moraes – Hoje nós temos a Team Moraes que possui mais de 300 alunos e temos 7 atletas no UFC.
Afiamos o chão dos caras que já estão prontos. Porém nós já estamos montando nossa equipe agora dando chance para novos talentos.
Temos dois caras, um deles o Diogo Pimenta, treinador de Muay Thai e que o Pettis queria levar para o Estados Unidos porque ele tem o estilo muito parecido com o do José Aldo.
E com a nossa experiência que estamos tendo com treinos com tudo certamente vamos criar muitos talentos por aqui.
Planeta Octógono – Se puder mande uma mensagem aos fãs e também aos leitores da Gazeta Esportiva.net…
Diego Moraes – Eu queria agradecer. A todos que nos ajudaram e ajudam como o Arena Sport Bar que nos ajudam, um dos maiores Sport Bar do Rio de Janeiro.
Estão convidados a vir conhecer nosso trabalho, eu queria agradecer a eles por ser uma empresa grande que ajuda muito e também a vocês pelo espaço por estar divulgando nosso esporte.
E também agradecer a quem nos apoia e pedir a torcida de todos para nossos lutadores.