
Ketlen Wiggers tem o costume de entrar nas mais seletas listas do Santos FC.
O hábito começa em sua estreia pelo time, em 21 de abril de 2007. Na ocasião, aos 15 anos, bateu Pelé, ídolo do clube, e se tornou a segunda jogadora mais nova a atuar pelo Santos – atrás apenas de Coutinho.
Um mês depois, novo feito. Balançou a rede e, mais uma vez, ultrapassou Pelé. Sagrou-se a segunda atleta mais jovem a marcar um gol pelo clube. Novamente, Coutinho é o número um.
Quase treze anos depois, em 2020, ela também entrou na curta relação de jogadores que já puderam comemorar seus gols mais de cem vezes vestindo o manto do clube da baixada.
Na última semana, a maior artilheira da história do time feminino e dona de dez títulos com a equipe, foi homenageada na parede do centro de treinamento. Ela se tornou a primeira mulher com o rosto estampado no CT que leva o nome do rei.
“Agora, o muro está mais bonito”, brincou Ketlen, em meio a risos, em entrevista exclusiva ao Entrelinhas. “O pessoal da assessoria do Santos até brincou: ‘agora, você tem um peso enorme, você está no muro’. Eu falei para eles que continuo normal, vou continuar tentando sempre fazer gols e trazer títulos para o time. Eu plantei lá atrás e estou colhendo agora”.
Para Ketlen, seu amor pelo futebol e, mais especificamente, pelo Santos, começa antes mesmo dela nascer. A avó, dona Dozolina, não deixava o rádio de lado quando a equipe de Pelé e Pepe entrava em campo. Infelizmente, ela não teve a oportunidade de ver a neta atuando pelo time do coração.

“Onde ela está, ela está vendo. Está vendo meu rosto no muro também. Queria poder realizar isso pra ela, mas infelizmente, o destino não quis”, lamentou a atleta.
Além das paixões – pelo futebol e pelo Santos – Ketlen também herdou da avó, que jogava futebol, a habilidade com a bola nos pés. Nascida em Rio Fortuna, a quase 195 km de Florianópolis, capital de Santa Catarina, a atacante do Santos cresceu em meio ao esporte.
A vestimenta para escola, escolhida pela mãe, ela clássica: vestido no corpo e laço na cabeça. Mas Ketlen tinha uma “comparsa”. Sua professora levava uma muda de roupa para que a pequena pudesse ir a campo, jogar bola com os meninos. Meia hora antes de ser buscada pela mãe, trocava as peças novamente e voltava, impecável, para casa.
E aí, foi uma questão de tempo até perceber que queria levar o futebol a sério. Aos 12 anos, avisou sua mãe, que tinha o objetivo de jogar profissionalmente. Quando fez as malas para vir para o Santos, tinha 15.
“Quando cheguei, falava toda semana que queria ir embora, que eu não aguentava de saudade da minha família. Minha mãe sempre vinha me visitar e falava: ‘aguenta mais um mês’”. De mês em mês, logo, Ketlen completou um ano no Santos. Não, claro, sem a ajuda do técnico, Kleiton, e de sua esposa, que cederam um espaço em sua casa para que a jogadora ficasse.
Naquela época, Ketlen lembra que o Santos não tinha base – nem campo para o feminino. Quando chegou, foi direto para o profissional. “Íamos de bicicleta para treinar na areia. Nunca jogamos por dinheiro, era por amor. Eu vi o crescimento do futebol feminino”, destaca.
Além de hoje ter acesso a estrutura do Santos, moradia, alimentação e um bom salário, Ketlen sente que o que mais mudou no futebol feminino foi a visibilidade. “ Antes ninguém era conhecido aqui na rua. Hoje, as meninas brincam que não podem sair comigo, porque o pessoal me reconhece”, conta a jogadora, entre risos.
Referência para a nova geração, Ketlen, hoje com 28 anos, tinha Érika, ex-Santos e atual zagueira do Corinthians, como fonte de inspiração. “Sempre olhava para ela e tinha – tenho até hoje- ela como referência. Ela fazia gol, eu tentava copiá-la. Os lances do treino que ela fazia, tentava fazer igual”, recorda.
EXPANDINDO AS FRONTEIRAS
Em 2011, o Santos deixou de ter um time feminino. As Sereias da Vila só voltaram a existir quatro anos mais tarde. Neste intervalo, Ketlen deixou o país e foi desbravar a Suécia e os Estados Unidos.
“Todo mundo sabe o quanto os EUA estão à frente no futebol feminino em todos os sentidos. Lá, eles tem uma estrutura muito grande. No meu primeiro jogo pelo Boston, tinham 15 mil pessoas no estádio”, relembra, com orgulho. Para ela, o Brasil tende a chegar nesse nível.
Apesar da crença, Ketlen acredita que, aqui, os clubes precisam realmente apoiar o futebol feminino para que ele cresça. “Outros times precisam ter uma estrutura melhor – como a do Santos, São Paulo e Corinthians. Tem meninas que jogam por amor, não jogam por dinheiro. Isso precisa melhorar bastante, para que possa melhorar a estrutura, o campeonato e possamos atingir esse nível que é lá fora”, analisa.
MULHER DE FÉ
Katlen se define como uma mulher de fé. Para a artilheira, não é preciso se preocupar com o dia de amanhã ou planos futuros. “Sempre confiei que Deus está cuidando de tudo e já escreveu minha história”, destaca. “Eu não estou preocupada com o ano que vem porque sei que Deus já o preparou. Deus já escreveu minha história e onde ele me colocar, estarei preparada para estar e fazer meu melhor”.
Para ela, todos os recordes, gols e detalhes da sua vida são escolhidos a dedo por Deus. “Ele
quis que essas coisas acontecessem. Saí de uma cidade de quatro mil habitantes, que nem é conhecida. Poucas pessoas saem de lá e eu saí por um sonho, porque acredito que Deus me tirou de lá para ser referência no futebol feminino, pra fazer a diferença”, finalizou a atleta.
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já tenho uma boa ideia do que fazer. Valeu!
Simbolo do futebol feminino do Santos, Ketlen!