
Faz tempo que o jogador brasileiro deixou de ser a grande atração nacional. Os “gringos” vieram com tudo e tomaram conta do pedaço. Clubes preferem apostar nos estrangeiros do que dar uma chance para os meninos da base, hoje encarados como investimento a longo prazo. Dirigentes querem negociar a garotada a peso de ouro e tapar os buracos financeiros no orçamento. É mais em conta e traz resultados rápidos. “Aventureiros” sul-americanos têm preferência.
Antigamente, o jogador brasileiro reinava soberano. Não tinha tanta concorrência do exterior. Os clubes negociavam entre si e abalavam as estruturas. Por exemplo, o Fluminense tirou Rivellino do Corinthians nos anos 1970, causando grande impacto. O Timão trocou Neto por Ribamar com o Palmeiras e sagrou-se campeão brasileiro em 1990 pela primeira vez na história. Gérson veio do futebol carioca para o São Paulo e ganhou o bicampeonato paulista (1970 e 1971). Ninguém de fora tinha vez naquela época. Bons tempos.
A tradição do futebol paulista nunca foi de se encantar com “Legiões Estrangeiras”. O alvo era o Interior, apelidado de “Celeiro de Craques”. Dudu veio da Ferroviária e cansou de somar glórias pelo Palmeiras, nos anos 1970. Luizinho saltou de um clube de várzea para dar o Campeonato do Centenário para o Corinthians, em 1954. Sem falar de Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe, no Santos. O mundo se curvou a eles durante décadas. Praticamente todos nasceram na Vila.
Roberto Dias começou a jogar bola aos 16 anos no São Paulo, em 1960. Logo se destacou pelo estilo clássico. Levantou o bicampeonato paulista em 1971. Chegou a ser considerado pelo Rei como seu melhor marcador. Zagueiro feito em casa, na base da fé. Jogou no México e defendeu a Seleção Brasileira. Bom, barato e funcional. Dirigentes eram mais corajosos.
Hoje em dia, a realidade é bem outra. Em crise financeira e política, o São Paulo desprezou as equipes de base. Investiu alto em estrangeiros. Lá estão os argentinos Calleri, Alan Franco e Enzo Diaz; o equatoriano Arboleda; o paraguaio Bobadilla; o chileno Tapia e o português Cedric. Meninos da base são apenas opções de banco. Para quem já teve “Os Menudos do Morumbi”, isso é uma ofensa histórica.
Só no Palmeiras, líder do Campeonato Brasileiro, são sete sul-americanos. Compõem o elenco o colombiano Jhon Árias, os uruguaios Piquerez e Emiliano Martinez; os argentinos Fláco Lopez e Agustin Glay e os paraguaios Gustavo Gomez e Sosa. No temível Flamengo, são sete: o argentino Rossi; o chileno Plugar; o equatoriano Plata; os uruguaios Arrascaeta, Varela e De La Cruz e o colombiano Carrascal. Meninos estão em segundo plano nos “Poderosos”.
O número de jogadores de fora é enorme no Corinthians, que sempre primou em “peneiras” populares. A “legião” é formada pelo holandês Memphis De Pay; o inglês Jesse Lingard; o marroquino Zakaria Labyad; os argentinos Rodrigo Garro e Fabrizio Angileri; o peruano André Carillo e o uruguaio Pedro Milans. Sete ao todo, ocupando vagas que no passado seriam de garotos “prata da casa”.
Até no Santos de Neymar e Gabigol o pessoal sul-americano ganhou espaço absurdo. Os argentinos Adonis Frias, Barreal, Escobar, Lautaro Diaz e Rolheiser e o venezuelano Tomás Rincón têm a confiança da comissão técnica. A esperança na nova geração fica por conta de Robinho Júnior, Bontempo e Gustavinho, que podem repetir as façanhas de outrora, dos eternos “Meninos da Vila”.
As apostas simples, hoje em dia, não funcionam. O Interior deixou de revelar grandes jogadores e a várzea acabou sufocada pela expansão imobiliária e pelo crime organizado. Os fortes esquemas táticos passaram a dar vez para jogadores de pouca qualidade. Qualquer “Meia Boca” veste uma camisa e sai jogando. Basta correr feito louco e agradar os técnicos. Fazer o que eles mandam. Nisso, os estrangeiros são especialistas. Trabalham calados e quase não dão trabalho. Estão por cima e dão as cartas. O pobre e talentoso atleta brasileiro ficou para trás, vencido pelo caprichoso mercado da bola. A modernidade foi implacável.
E tenho dito!