A melhor forma de homenagear Ayrton Senna: acelerando na chuva em Interlagos

Fiz minha estreia como piloto na Golde Classic, preliminar da tradicional Mil Milhas, acelerando um VW Voyage a mais de 180 km/h no autódromo paulistano

Não basta ser repórter, tem que acelerar! Com este lema, tive a ideia em 2007 de criar um time inteiro composto por jornalistas nas 500 Milhas de Kart, que reúne os principais nomes do nosso automobilismo no Kartódromo Granja Viana para uma prova de 12 horas, reunindo estrelas da F1, Indy, Stock Car, Truck, como Rubens Barrichello, Felipe Massa, Nelsinho Piquet, Felipe Giaffone, Tony Kanaan, Christian Fittipaldi etc.

Da turma que começou acelerando com a gente, este repórter que vos escreve e alguns outros jornalistas, como Cassio Cortes e Gerson Campos, seguiram “carreira” no automobilismo.

Bom, no meu caso, eu levo bem a sério o kartismo, onde já competi no Campeonato Brasileiro (terminei em sétimo na F4 Senior, uma das mais disputadas), no Paulista (vice-campeão da F4 Senior no ano passado, em dupla com o piloto Dudu Godinho) e até em eventos internacionais, como no Audi Challenge realizado tradicionalmente junto com as 24 Horas de Le Mans no Circuit Alain Prost, que fica dentro da lendária pista francesa.

Mas no último final de semana o desafio foi diferente. A convite do também jornalista-piloto Luc Monteiro, aceitei a missão de dividir o Volkswagen Voyage do amigo Paulo Henrique Costa para ser um dos 64 carros do maior grid do Brasil: a Gold Classic, que fez a preliminar das Mil Milhas Chevrolet Absoluta, que seria o equivalente a nossa “Le Mans”.

Como jornalista, já fiz 3 cursos de pilotagem – o que me garantiu a carteira de piloto, no caso, a PGC-B (Piloto Graduado de Competição-B), ideal para competições paulistas e até nacionais, como é o caso da Gold Classic. Para competir na Stock Car, por exemplo, você precisa da A – e, para isso, precisa terminar ao menos um campeonato entre os cinco melhores para subir de categoria.

E por mais que eu tenha experiências anteriores pilotando carros em Interlagos – incluindo supermáquinas como o Porsche Cup e o McLaren Senna, de 800 cavalos de potência – pilotar um Voyage de Divisão 1 (equivalente a uma “Stock Light” dos anos 1980/90), é totalmente diferente.

E para “piorar” minha situação, só consegui dar 8 voltas nos treinos livres, por conta de muitas bandeiras vermelhas ao longo das sessões – afinal, são 64 carros no grid (a Stock tem 25, para efeitos de comparação).

Consegui progredir bem nos treinos a cada volta (o carro tem tração dianteira e traseira “leve”, ou seja, na freada, é bem difícil achar o limite sem fazer o carro rodas). Eu já estava achando que seria possível até brigar por um lugar entre os três primeiros na categoria – são 15 carros na Divisão 1, Turismo Nacional.

Como os resultados são somados, o PH Costa mandando bem (como sempre) “puxa” meu resultado pra cima, já que são somados e a pontuação das duas provas dá o pódio final.

Mas eis que veio a chuva em Interlagos. E todo mundo brincou comigo porque, afinal de contas, nosso carro foi todo em homenagem a Ayrton Senna.

E confesso, fiquei emocionado ao alinhar o carro no grid (em 26o na geral!), bem em frente ao lugar da arquibancada onde eu, em 1990, vi pela primeira vez uma corrida de F1. Lembro do lugar exato porque, naquela época, o “grid falso” da F1 era montando bem ali e eu vi BEM de perto Ayrton Senna, Alain Prost, Nigel Mansell, Nelson Piquet… todos eles ali, esperando a placa de 1 minuto para sair para a volta de apresentação.

Em 23 de janeiro de 2021, foi a minha vez de estar lá naquele grid. Já não pensava mais em pódio: sabia que minha meta agora, como total estreante, era fugir das batidas, rodadas de pista e trazer o carro inteiro. Essa agora era a estratégia para, quem sabe, contando com abandonos e acidentes, terminar no pódio, já que o PH tinha os pontos de um segundo lugar da corrida 1 (disputada pela manhã, no seco).

Atingi boa parte dos objetivos: sim, dei uma rodada “de leve”, mas rapidamente trouxe o carro para pista e, embora tenha perdido algumas posições, nenhum dos 40 carros que vinham atrás bateu em mim e continuei acelerando! Foi impossível não escapar em algumas freadas fortes, como no final da Reta dos Boxes, antes do S do Senna, e na Descida do Lago. Como são 64 carros e todos eles antigo, a quantidade de óleo na pista molhada ficou gigante – um desafio mesmo para pilotos experientes, imagine para o novato aqui! Nem andar de kart na chuva com pneu slick se compara a este “sabão”…

Pior, a corrida teve 30 minutos e mais uma volta, e não é que, assim que tomei uma volta dos carros mais rápidos (no grid, tinham carros históricos como Stock Car, Stock Light, Alpine Interlagos, que viram até 30 segundos mais rápido que os carros da nossa categoria, Divisão 1), o Safety Car foi acionado! Tive que largar lá na frente e com todo pelotão vindo “babando” na relargada, com menos de 7 minutos pro final da prova. Detalhe: o limpador de parabrisa não funcionava desde a volta 2, então imagina como é enxergar naquele spray de água de 64 carros!

Novamente, coloquei em prática o pensamento de terminar a prova, não atrapalhar ninguém e sair com o carro inteiro. Deu certo! No final, conseguimos somar pontos suficientes para ser o quinto colocando entre os 15 da divisão nacional – e sair com um troféu logo em minha estreia em Interlagos, e na chuva!

Agradeci demais ao PH Costa pela oportunidade, a OMP pelo apoio em todo equipamento para competir (pois nos campeonatos oficiais é obrigatório o uso de macacão, sapatilha e luvas anti-chama, com a mesma tecnologia que salvou o Grosjean na F1) e a Blitz Automotive por preparar o carro de forma brilhante.

Conseguimos fazer da homenagem a Ayrton Senna um momento inesquecível. E com aquela sensação de dever cumprido – e que venham novos desafios!

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