
O mundo moderno não tem outro caminho a seguir senão o da ética e da transparência.
Neste domingo, será dada a largada à maior e mais importante competição de futebol do mundo, a Copa Fifa do Catar, que enche de emoção e sonho o peito e a mente dos apaixonados pelo esporte. Afinal, todos queremos ver bons jogos e sonhamos com a conquista do título de campeão do mundo para nosso país.
A Fifa (Federation International de Football) é a entidade responsável pela estruturação, organização e desenvolvimento da competição, para o que, no campo da arbitragem, conta com o inestimável apoio da Ifab (International Football Association Board), cuja competência é a elaboração e atualização das regras do jogo.
Pois bem, por ser o evento de elevada magnitude e importância, o que se espera ansiosamente é que todas as ações das indicadas entidades, com apoio país sede (Catar) fossem de tal ordem corretas e éticas que servissem de espelho para o mundo, não só no futebol, também humanitariamente e, pois, possibilitando mais aproximação de todos os povos e com respeito a suas crenças e culturas.
Lamentável e decepcionantemente, todavia, no campo da arbitragem, que nos toca mais de perto, a expectativa não se revela positiva, senão muito negativa, ao menos em um ponto.
Com efeito, a Comissão da FifaA surpreendeu o mundo da arbitragem ao afirmar que os áudios das comunicações entre os árbitros de campo e o VAR (Video Assistant Referees), não serão divulgados.
Tal decisão, ao lado de surpreendente, está na contramão do que se espera de ética e de transparência de uma entidade de cunho internacional como a Fifa, sobremodo por sua conduta em outras frentes, inclusive punindo clubes quando não honram seus compromissos financeiros, ainda que a inadimplência tenha causa em crise financeira, para a qual não contribuíram.
Disso resulta que a Fifa exige ética de terceiros, mas se julga no elevado patamar de assim não agir, no particular dos áudios do VAR!
Teria, tão absurda decisão, base no entendimento de Massimo Busacca, chefe do Departamento de Arbitragem da Fifa, no sentido de que “se os treinadores não revelam suas estratégias, não a razão para os árbitros divulgarem as suas”?
Tal comparação é destituída de qualquer sentido de lógica. De fato, pois, enquanto os treinadores têm adversários para vencer e devem ter suas ideias reservadas, os árbitros, que não têm adversários, mas duas partes que nele confiam e dele esperam justiça, têm o inafastável dever de demonstrar o porquê de suas decisões.
Mal comparando, seria o mesmo que se dá a um magistrado o direito de decidir sem fundamentar. L´État C’Est Moi (O Estado sou eu), no dizer de Luis XIV.
Mas não é só por questão de ética, senão, até, por estratégia que o anúncio feito por Pierluigi Colina, presidente da Comissão de Arbitragem, deveria ser afastado.
Com efeito, ao contrário do que os dirigentes da entidade podem imaginar, o segredo, em lugar de proteger os árbitros e todo o sistema de arbitragem, a todos expõe, pois possibilita que se façam ilações indevidas.
Desde o início do processo, quando, isoladamente, à semelhança de Sancho Pança, lutávamos no Painel Técnico Consultivo da IFAB, inclusive ao lado de Colina, para a implementação de tecnologia na arbitragem, já defendíamos a ideia de que os vídeos e os áudios deveriam ser de conhecimento do público e, quando possível, em tempo real.
Esclarecíamos, o que ora ratificamos, que a divulgação dos áudios e vídeos, ao lado de ser dever ético, antes de trazer qualquer prejuízo para os árbitros, os protegeria fortemente, porquanto um possível diálogo que não seja técnico não afastaria a postura ética dos árbitros, que, seguramente e sem exceção, buscam a decisão correta. Falar mal, se expressar mal, nada significam se o cerne da questão for tratado com responsabilidade.
Desse modo, os diálogos, ainda que inconsistentes tecnicamente, são de somenos importância comparados com a correção das decisões e com a conduta ética.
Por tudo isto e em conclusão, cremos não ser razoável que os dirigentes se neguem o dever de publicar os áudios e vídeos. Afinal, futebol só pode ser “uma caixinha de surpresas” relativamente à possibilidade de uma equipe mais fraca vencer uma mais forte.
Não bastasse, o certo, ainda, é que a FIFA com tal postura até expõe a Confederação Sulamericana de Futebol e a própria CBF, pois estas já divulgam alguns vídeos e áudios, conquanto de modo tímido, como temos sustentado.
É, portanto, uma pena que ainda estejamos presos a dogmas ultrapassados, que nada constroem, tudo prejudicam!
É preciso superar a infeliz concepção de outrora, no sentido de que a arbitragem deve atuar como um cão “adestrado”, em lugar de agir como um ser humano pensante.
De outro lado e de toda sorte, embora essa mancha já seja por demais prejudicial para a Fifa e para a competição, esperamos que a as demais diretrizes da arbitragem sejam esclarecedoras e que sirvam de modelo para a universalidade do futebol.
Por isso é que aguardamos ansiosamente que as orientações e correspondentes decisões relativas a alguns lances sirvam de base e de direção para as demais competições mundo afora, a exemplo de: a) infração de Mão – movimento natural para jogar; b) alcance do conceito de Clara Oportunidade de Gol (Dogso) e, principalmente, da punição correspondente, quando um tiro penal for marcado; c) dinâmica de jogo, em especial sobre impedimento marcado após delay flag, quando a equipe beneficiada detém a posse da bola sem pressão; d) impedimento por interferir no adversário – alcance de jogar o poder jogar; e) limites da intervenção do VAR (erro claro, óbvio); f) ações disciplinares sobre golpear o adversário, principalmente no rosto; g) entradas, jogando ou não a bola, tocando ou não no adversário, quando haja risco de lesão; g) contatos próprios do futebol e faltosos; h) autoridade do árbitro e respeito às suas decisões – medidas disciplinares; etc. etc.
O impedimento semiautomático e a tecnologia da linha de gol são ferramentas que o mundo ainda não poderá experimentar largamente. São privilégios da maior competição do mundo, pois seus vultosos recursos os possibilitam.
Ao leitor, a palavra final.
