O jogo mágico do Natal

Acervo/Gazeta Press
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Acho que já contei esta breve história de Natal. Se já contei, conto de novo, pois a fila anda e atrás vem gente, novos olhos e ouvidos.

É a história de como confirmei ao vivo, aos seis anos de idade, a inexistência de Papai Noel. Ou, melhor: que o bom velhinho de barbas brancas nem era velho, nem tinha barbas ou usava espalhafatosas roupas vermelhas.

Era um prosaico comerciante de trinta e poucos anos de idade, de terno e gravata, que vi com meus olhos, na véspera do Natal de 1947, retirando do porta-malas de seu Ford cinzento uma grande caixa de madeira dobrada ao meio e com duas alças de couro nas extremidades. O cavalheiro em questão era ninguém menos que meu próprio pai, Alberto, não Noel, que ficou muito decepcionado ao ser surpreendido no gesto secreto.

A tal caixa, quando aberta era um campo de futebol com os bonequinhos fincados por varetas que os atravessavam de lado a lado. Uma novidade recém-chegada às Casas Pirani, pioneira loja de departamentos instalada num prédio da Avenida Celso Garcia, entre a rua Costa Valente e a Bresser, próximo ao cine Universo, assim chamado porque tinha um teto retrátil que se abria para as estrelas nas noites quentes de verão. E com a qual eu sonhava dia e noite desde a primeira em que a vi.

E lá estavam os bonequinhos perfilados como a turma da época escalava os times de verdade: goleiro, dois zagueiros, três médios e cinco atacantes. Todos pintadinhos com os respectivos nomes às costas, num autêntico Choque-Rei, um Palmeiras e São Paulo, os dois times que protagonizavam as disputas dos títulos paulistas da época.

De tanto que me debrucei sobre aquele campo dos sonhos, sou capaz de escalar as duas equipes, assim, num zap. O Palmeiras de Oberdã, Caieira e Turcão; Fiúme, Og Moreira e Gengo; Lula, Gonzales, Oswaldinho, Lima e Canhotinho. O São Paulo: Gijo, Savério e Renganeschi; Rui, Bauer e Noronha; Barrios, Ieso, Leônidas, Remo e Teixeirinha.

E tal era o encanto que passei a acreditar na existência de Papai Noel. E que aquele cavalheiro de terno e gravata teria sido apenas um mensageiro do bom velhinho de barbas brancas e espalhafatosas roupas vermelhas.

 

 

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