Pivetti analisa o impacto físico e mental da pandemia no desempenho dos atletas

Técnico do CSA desde abril deste ano, Bruno Pivetti vivencia diariamente as dificuldades que orbitam o desenvolvimento de uma equipe em meio à pandemia. Além de lidar com um cenário de pressão por resultados, o técnico lamenta que não haja uma relativização por parte dos críticos no que diz respeito aos obstáculos inéditos enfrentados pelos profissionais do esporte desde março de 2020.

“Vejo parte da imprensa e das torcidas avaliando o desempenho de jogadores e treinadores como se estivéssemos em um cenário normal, e nós não estamos em um cenário normal”, pontuou Pivetti em entrevista exclusiva ao Taticando.

Depois de passar uma temporada como auxiliar do Ludogorets, da Bulgária, Pivetti retornou ao Brasil em 2019, contratado pelo Vitória como membro da comissão técnica de Carlos Amadeu. Em junho do ano passado, o assistente foi efetivado como treinador do Leão. Em seguida, teve uma breve passagem pelo Tombense, antes de chegar ao CSA, clube pelo qual conquistou o Campeonato Alagoano e, agora, busca fazer uma boa campanha na Série B do Campeonato Brasileiro.

Pivetti é adepto da periodização tática, já tendo publicado um livro acadêmico sobre o tema. Na entrevista ao blog, o técnico disseca a metodologia de treino, aborda a evolução do entendimento de jogo por parte dos jogadores brasileiros nos últimos anos, comenta sobre a utilização de dados e vídeos na preparação das partidas e destaca as principais tendências táticas identificadas nos gramados do país.

(Foto: Divulgação/Ludogorets)

Você passou uma temporada na Bulgária, vivenciando de perto o cenário tático do futebol europeu. Muitos dizem que o jogador brasileiro é indolente e insubordinado quando o assunto é disciplina tática. Você concorda com essa afirmação? Quais são os principais elementos que influenciam na formação do atleta?

Na minha opinião, o que vai determinar as principais características do indivíduo é o meio em que ele vive. Na Europa, já se pratica um futebol mais apegado às questões táticas há um bom tempo. A formação dos jogadores europeus passou por essa remodelação há muitos anos atrás. Então, realmente tem essa diferença, isso é notório quando alguns jogadores brasileiros vão para a Europa. Eles têm um período de adaptação em relação ao modelo de jogo, à intensidade do jogo. Mas, nos últimos anos, o Brasil está cada vez mais atento a essas necessidades de mudanças no futebol, para que essas equipes permaneçam em um alto nível de competitividade.

Alguns anos atrás, o futebol de formação no Brasil passou por um processo de remodelação e, hoje, os jogadores que nós recebemos em categorias profissionais estão muito mais preparados do ponto de vista de entendimento e leitura de jogo. Eu costumo dizer que, no passado, praticava-se um futebol muito intuitivo, e não estabeleço critério de valores, se isso é melhor ou pior, é apenas uma característica do futebol que nós praticávamos no passado. À medida que as coisas foram evoluindo, principalmente no processo de formação, eu acredito que nós conseguimos agregar um maior entendimento e uma maior capacidade tática aos jogadores. Assim, começamos a obter melhora no processo de tomada de decisão, principalmente, e na intensidade que implementamos no jogo.

Acredito que o grande segredo do futebol brasileiro é ter a junção desse processo intuitivo, que sempre foi a nossa característica, com a capacidade do improviso e do drible, ao momento certo de se fazer. O momento certo de se fazer é justamente influenciado por essa maior capacidade de leitura de jogo, que vai influenciar na tomada de decisão dos jogadores. A partir disso, nós estamos visualizando cenários cada vez mais competitivos no futebol brasileiro, com partidas com intensidade cada vez maior. É claro que essa evolução é sempre limitada pelo nosso contexto em termos de calendário. É humanamente impossível você manter uma equipe competitiva com um intervalo entre jogos de 48 horas.

O jogador brasileiro demonstra um grande poder de adaptação. Peguei dez jogadores brasileiros no Ludogorets, e todos completamente adaptados à cultura búlgara, à cultura do futebol europeu. Acredito que ainda temos condições ideais no Brasil no que diz respeito a talento, justamente porque somos um dos poucos países que ainda adota o futebol de rua na formação das crianças, ainda temos condições de praticá-lo. No final, é o que dá diversidade motora, capacidade de entendimento, capacidade de improviso aos jogadores.

(Foto: Divulgação/CSA)

Você é um adepto da periodização tática. Como você definiria essa metodologia? Quais as vantagens desse conjunto de práticas para o jogador dentro de campo?

A periodização tática nada mais é do que uma metodologia de treino. Ou seja, é uma ferramenta que nós utilizamos no processo de preparação das equipes para colocar as ideias do treinador em prática. Para montarmos o nosso ciclo semanal de treino, que nós chamamos de morfociclo, precisamos saber o que aconteceu no jogo anterior, as características do próximo adversário e ter em conta qual o nosso modelo de jogo, como vamos querer atacar, como vamos defender, como vamos realizar as transições defensivas e ofensivas, como será a nossa organização de bolas paradas… Tudo isso vai influenciar a semana. Então, nós pautamos a preparação da equipe de jogo a jogo e, a partir disso, nós produzimos e criamos certos contextos de exercícios, justamente para que o jogador repita sistematicamente um determinado princípio que envolve o nosso jogo, para que ele adquira isso em forma de hábito.

Por exemplo, se nós queremos pressionar a bola imediatamente após o momento da perda, nós desenvolvemos exercícios mais reduzidos para que o jogador repita essa necessidade de pressionar a bola no momento da perda diversas vezes. Então, tem uma propensão muito maior do aparecimento desse determinado princípio de jogo na partida. Esses exercícios têm uma alternância durante os dias, porque a gente procura não prejudicar os jogadores em termos de desgaste físico, para que ele não tenha a sua condição ótima de jogo prejudicada para a próxima partida. Então, a gente alterna a predominância das contrações musculares. Em um dia específico da semana, pautamos atividades que exigem elevada tensão muscular. Em outro dia, vamos pautar mais pelo volume. Então, vamos abrir os espaços e trabalhar os grandes princípios de jogo. Em outro dia, iremos pautar mais a velocidade, tanto da contração muscular quanto do processo de tomada de decisão. Chegando mais próximo do jogo, direcionamos uma recuperação para que possamos envolver os pressupostos estratégicos da partida.

Então, se o adversário tem uma determinada característica, não é que eu tenha que me adaptar ao adversário. Estabeleço as características do adversário e, dentro das minhas ideias e modelo de jogo, vou criar estratégias para neutralizar os pontos fortes do oponente e atacar as vulnerabilidades. Então, estabelecemos diferentes treinamentos para que nós possamos, de maneira concomitante, desenvolver os jogadores fisicamente, adaptando-os ao modelo de jogo, e desenvolver a tomada de decisão, permitindo que os atletas cheguem em suas condições ótimas de desempenhar bem na partida sem um desgaste acentuado. Nós desenvolvemos todas as vertentes de rendimento de uma maneira muito mais integrada. Então, a gente propõe que o desenvolvimento físico, técnico, tático e psicológico atuem ao mesmo tempo, com os diferentes exercícios que trabalhamos durante a semana.

Então, a periodização tática não pode ser confundida com o método. O método é como se você fosse fazer um bolo. Você pode fazer um bolo em São Paulo ou em Maceió. Independentemente de serem lugares diferentes, se os ingredientes e os contextos forem os mesmos, o bolo sai exatamente igual, porque você segue um método rígido. Agora, no futebol, nós lidamos com seres humanos, aspectos tradicionais diferentes entre um clube e outro, diferenças culturais… Temos que levar tudo isso em consideração e nos adaptarmos ao contexto em que estamos inseridos. Nós chamamos a periodização tática de metodologia, porque ela respeita muito o contexto. As estratégias que eu adoto em Maceió são diferentes das que eu adotava na Bulgária, das que eu adotei no Tombense, em Minas Gerais, do Vitória, em Salvador. Justamente, para respeitar maximamente os contextos em que estamos inseridos. É claro que eu tenho um núcleo duro no processo, mas, para que eu transfira as minhas ideias, tenho que respeitar a cultura estabelecida momentaneamente no local. A partir daí, consigo implementar paulatinamente as minhas particularidades em relação ao modelo de jogo.

(Foto: Divulgação/Vitória)

Imagino que um dos grandes desafios para um treinador é conseguir transferir as suas ideias a partir da comunicação com os jogadores. Como você faz para adaptar a sua mensagem de acordo com cada interlocutor?

Eu acredito que uma das características essenciais de qualquer treinador é a boa capacidade de comunicação. Para mim, o bom comunicador tem que se adaptar ao receptor. Provavelmente, dar entrevista para você seja diferente de dar para outros veículos de imprensa, porque nós estamos em um blog específico de tática. Então, até a nomenclatura utilizada é de uma forma. Se eu estou em um veículo de uma abrangência um pouco maior, é claro que tenho que adaptar a minha linguagem. Se eu estou falando para o meu auxiliar técnico, também tenho minhas maneiras e nomenclaturas que, de repente, não vou utilizar com os jogadores. Um técnico com boa capacidade de comunicação precisa se adaptar em termos de nomenclaturas e vocabulário, para que a mensagem seja absorvida da melhor maneira possível. O fato de eu ter passado por diferentes cenários em minha carreira e ter lidado com os mais diferentes tipos de jogadores me facilitou para que eu tenha essa facilidade de comunicação.

Os dados e vídeos de apoio estão ganhando cada vez mais espaço na preparação para os jogos. Os atletas estão começando a buscar ativamente essas informações para melhorar o desempenho?

Mais importante que a dimensão dos dados, para mim, é a dimensão qualitativa. Eu utilizo alguns dados numéricos, mas justamente para oferecer mais argumento à análise qualitativa, àquilo que minha equipe demonstrou em termos de padrões. Nós realizamos a análise de vídeos, tanto das partidas quanto de treinos, para detectar os padrões qualitativos. A partir de então, o pressuposto numérico vem para argumentar o que observamos enquanto padrão.

Os jogadores têm uma procura e um interesse cada vez maior tanto pela análise de vídeo quanto por números. Com o acesso à informação de maneira mais democrática, até pelo advento da internet, ficou muito mais fácil para o jogador buscar informação. No Brasil e no mundo, nós agora temos jogadores muito mais bem assessorados, com plano de carreira, metas, carregando todo um staff por trás. Na Europa, por exemplo, cada jogador tem atenção à alimentação, ao preparo físico, aos exercícios preventivos. Alguns deles contratam isso de maneira isolada. Então, cada jogador tem o seu nutricionista, tem o seu personal trainer, que vai ser o responsável por fazer alguns exercícios preventivos em termos de lesão. Essa é uma tendência que nós, treinadores, não podemos deixar de lado, porque é cada vez mais uma necessidade dos jogadores. Com a internet, estão cada vez mais bem informados, e a demanda que eles têm sobre qualquer treinador é cada vez maior. O nível de exigência que nós temos perante eles é observado também no caminho contrário.

(Foto: Divulgação/CSA)

Você vivencia diariamente um trabalho em meio à pandemia. De que maneira as tensões existentes neste período impactam nas facetas tática, técnica, física e psicológica do futebol?

Embora todos estejamos dentro de um cenário de pandemia, confesso que, na minha área de futebol, as pessoas às vezes não relativizam o fato de nós estarmos em uma pandemia na análise do que acontece no campo. Estou dizendo em relação ao torcedor e à imprensa, que são os canais que vão avaliar a nossa performance em campo. Nós estamos em um cenário em que os jogadores estão mais expostos ao vírus, porque nós temos viagens constantes, a necessidade de você ter pequenas reuniões para debater certos assuntos, mostrar um vídeo. Os jogadores obviamente têm menos chance de uma eventual letalidade, mas cada vez mais visualizo que os atletas que são infectados pela covid estão demorando um tempo maior para retornar com saúde, na melhor da sua performance. Uns sofrem mais, outros sofrem menos, mas é notável que existe essa influência. Um outro fator é que nós temos quase 500 mil mortos no Brasil hoje, e muitos jogadores perderam entes queridos. São também vítimas da pandemia, e o reflexo desse luto não tem como não influenciar no desempenho do jogador.

Nós estamos tendo a necessidade de ter um calendário cada vez mais apertado, joga-se, por vezes, de dois em dois dias. Em qualquer estudo científico em que analisamos as repercussões musculares e neurais, nós vamos vislumbrar que não só o rendimento é afetado, mas também a saúde dos jogadores. Eles estão muito mais vulneráveis a eventuais lesões, porque o nível de exigência é muito alto. Quando você associa esse calendário extremamente apertado a viagens em um país com dimensões continentais, fica um cenário ainda mais caótico. Então, eu vejo parte da imprensa e das torcidas avaliando o desempenho de jogadores e treinadores como se estivéssemos em um cenário normal, e nós não estamos em um cenário normal.

Tem também o fator de nós jogarmos sem a presença de torcedores, isso também influencia determinantemente naquilo que vai ser o jogo. Infelizmente, no Brasil, não se tem a empatia necessária para relativizar as análises.

Uma das principais críticas à gestão no futebol brasileiro é a interrupção precoce de trabalhos de treinadores. Você acredita que exista um tempo mínimo para que um modelo de jogo seja implementado por completo?

Eu acredito que dependa muito do contexto. Depende da herança que você recebe do treinador anterior, das características dos jogadores, dos aspectos culturais e tradicionais que envolvem o clube. O tempo que o treinador precisa para desenvolver e levar a cabo suas ideias em um determinado clube depende de inúmeros fatores. O Guardiola oferece um prazo de três anos. Três anos no Brasil é um aspecto tão surreal que nós, treinadores, pensamos que é impossível. Aqui, nós temos o exemplo positivo do Renato no Grêmio, mas, se puxar pela memória, é muito raro um treinador ficar mais de um ano, dois anos, o que dirá três anos em um clube.

Esse é o cenário ideal, mas acredito que nós estamos muito longe de um cenário ideal no Brasil. Nós temos que trabalhar com aquilo que temos, não adianta ficar reclamando, porque acredito que nós temos o poder para mudar, mas a mudança vem de dentro para fora. Você tem que estar no meio para influenciar pessoas e contribuir para uma eventual mudança. Hoje em dia, ficou ainda mais difícil para os treinadores, até pelo cenário atípico da pandemia. Já tive a experiência, por exemplo, de perder quatro titulares infectados na véspera da partida. Você tem que remodelar e, no dia seguinte, vai jogar contra uma equipe e ser cobrado da mesma maneira. Nem sempre você tem condições de ter um grupo homogêneo, equilibrado. O que vejo é que os analistas de hoje não levam isso em consideração.

(Foto: Divulgação/Vitória)

Olhando para o que as equipes estão fazendo no Brasil, quais são as principais tendências táticas que observa acontecendo com frequência no futebol praticado no país?

Eu acredito que o Brasil passa por um período riquíssimo de aquisição tática. Esse sistema com três zagueiros no Brasil, por exemplo, é desenvolvido há muito tempo, mas vejo que, hoje, essa tendência dos três zagueiros está associada a uma marcação mais zonal, com o estabelecimento de linhas de restrição do campo do adversário. Sem a bola, as equipes que se defendem com três zagueiros costumam fazer uma linha de cinco, fica muito mais fácil de você proteger a largura. Você perde alguns jogadores para fazer uma pressão mais alta, mas, em contrapartida, sua última linha de marcação consegue ser mais eficiente na defesa da largura. Essa é uma tendência não só do Brasil, como também da Europa. O Rúben Amorim acabou de ser campeão português à frente do Sporting, talvez ninguém posicionasse o time como favorito ao título antes do início do campeonato, com o poderio financeiro do Benfica e do Porto. No estabelecimento dos três zagueiros e da linha de cinco para defender, ele conseguiu ser muito eficiente. Agora, não foi só por isso que ele foi campeão português. A equipe agrega outras qualidades, mas vejo, sim, os três zagueiros como uma tendência.

Isso não diminui a eficiência da utilização de dois zagueiros, de uma linha de quatro defendendo. O importante é a gente não estabelecer a nossa ideia por simples modismos. Acho que essas tendências devem nos inspirar, mas não suscitar uma possível cópia. Porque cada contexto é um contexto e, sobretudo, o treinador precisa respeitar demais as características dos jogadores que ele tem à mão, além das necessidades contextuais que o clube em que trabalha lhe impõe. Vejo uma diminuição de uma polarização no Brasil que, para mim, é muito contraproducente, entre um jogo mais reativo e outro mais propositivo. Eu acredito muito no equilíbrio, ninguém ataca em todos os momentos do jogo e ninguém defende em todos os momentos do jogo. O jogo é feito de momentos e, quando a equipe tem a posse de bola, precisa saber o que fazer com ela. Essa posse pode ser de 30% ou 70%, mas ela precisa saber o que fazer com a bola. Se ela vai fazer uma saída de três, se ela vai jogar com dois zagueiros, se ela vai trazer um volante para ajudar na construção, se ela vai atuar de maneira mais ou menos avançada em relação aos laterais, se vai oferecer mais liberdade para os extremos entrarem para um jogo interior, isso depende da ideia de cada treinador.

O importante é que se tenha uma boa lógica estabelecida entre aquilo que é a ideia do treinador e aquilo que os jogadores podem oferecer em termos de rendimento. Da mesma maneira, quando a equipe não detém a posse de bola, ela precisa ser eficiente na marcação em bloco alto, médio e baixo. É a dinâmica do jogo e as características do adversário que vão estabelecer a altura do bloco de marcação. Quanto mais equilibrada a equipe for em todos os momentos do jogo, maior será o leque de opções do treinador. Sem esquecer das transições, tanto ofensivas quanto defensivas. No momento em que minha equipe recupera a posse de bola, o que eu vou fazer? Vou tirar a bola da pressão ou tentar um ataque direto? No momento em que perder a bola, vou pressionar imediatamente o adversário ou vou recompor para formar o meu bloco defensivo? São questões que precisam ser refletidas pelo treinador o tempo inteiro.

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