A evolução de Neymar sob a perspectiva de seu primeiro técnico no Santos

“O que mais me chamou a atenção quando vi o Neymar foi a mudança de direção em velocidade, dribles em velocidade. Muito rápido”. Essa foi a primeira impressão que Márcio Fernandes teve do craque do Paris Saint-Germain. O treinador comandou Neymar nas categorias de base do Santos e foi o responsável por subir o jogador para o time profissional do Peixe, ainda em 2009.

12 anos depois, Neymar é o principal destaque técnico do PSG, que entra em campo nesta terça-feira, às 16h, para enfrentar o Manchester City, no jogo de volta da semifinal da Liga dos Campeões. Em busca de seu primeiro título da competição continental,  o clube francês deposita no brasileiro as fichas para reverter a derrota por 2 a 1 sofrida no primeiro confronto e, assim, chegar à grande decisão europeia.

Em entrevista ao Taticando, Márcio Fernandes, hoje à frente do Santo André, revisita a sua experiência como treinador de Neymar e comenta sobre o desenvolvimento e amadurecimento do brasileiro dentro e fora dos gramados, analisando a transformação do jogador ao longo dos anos e a liderança técnica que exerce hoje.

(Foto: Marcelo Ferrelli/Gazeta Press)

Já era possível prever que Neymar alcançaria o patamar que tem hoje?

Márcio Fernandes: É muito difícil de prever o acontecimento do Neymar como um superstar que ele é hoje. Mas, com certeza, a gente via nele um potencial fora de série. Então, a gente já crava que ele seria um grande jogador. Agora, ao ponto dele chegar no nível de hoje, era difícil.

Qual era a principal orientação que você passava para o Neymar no início da carreira dele?

Márcio Fernandes: No início, o que a gente mais passava para o Neymar era que ele jogasse mais perto do gol. Porque, fazendo uma função pelo lado, às vezes ficava um pouco longe de onde ele era mais letal, que é perto da área, perto do gol. Ele pensa muito rápido, qualquer drible que dava abria uma chance muito grande para a gente fazer gol. Então, por isso, a gente pedia para que ele ficasse mais perto da área, onde ele criava algumas situações que nos deixavam em vantagem dentro do jogo.

Hoje, o Neymar tem muita facilidade para jogar com as duas pernas. Ele sempre teve essa ambidestria?

Márcio Fernandes: O Neymar sempre teve muita facilidade, tanto com a perna direita quanto com a perna esquerda. É claro que ele foi se aprimorando, sempre foi um jogador que era muito determinado, gostava de treinar. Acabavam os treinos e ele ficava ali se aprimorando. E ele foi evoluindo, com os treinamentos e com a capacidade técnica que foi desenvolvendo, tornando-se o que é hoje.

(Foto: Divulgação/Santos)

Você acredita que o estilo de jogo irreverente de Neymar é antagônico ao futebol praticado hoje?

Márcio Fernandes: No futebol de hoje, muito disputado fisicamente, com jogadores muito fortes, você driblar já deixa claro que é um jogador diferente. A maior virtude do Neymar é que, no drible, ele consegue mudar de direção muito rápido. Então, quando o marcador acha que está conseguindo anulá-lo, acaba saindo do outro lado, desconcertando totalmente o marcador. Isso faz com que ele se torne diferente no futebol de hoje.

Nos últimos anos, o Neymar ganhou uma nova função em campo, jogando pela faixa central. Como você enxerga essa mudança?

Márcio Fernandes: O Neymar tem mudado um pouco de função, largando um pouco a extremidade para ficar mais pelo centro. Eu acredito que, pelo centro, ele consegue ficar mais perto do gol. Sempre cobrei isso dele, que ele ficasse mais perto da área, que entrasse na área. Ali, ele é letal. Ele tem uma coisa que só os grandes jogadores têm: a bola procura ele dentro da área. Como ele finaliza muito bem, estando pelo centro, consequentemente, a chance de fazer gol é maior.

Dentro da hierarquia de um time, você enxerga o Neymar como um líder?

Márcio Fernandes: Eu vejo o Neymar com uma facilidade muito grande de ser um líder no time, mas é uma liderança técnica, pelo exemplo, pelo que faz dentro de campo. Existem outros tipos de liderança, mas acho que a do Neymar é pela capacidade técnica, pela condição de, realmente, mudar o jogo. Ele se torna um líder dessa forma.

Neymar em ação no primeiro jogo da semi da Liga dos Campeões contra o Manchester City (Foto: Anne-Christine Poujoulat/AFP)

Como você acredita que a pressão extracampo influencia no desempenho de um jogador como o Neymar?

Márcio Fernandes: Toda pressão em cima de um jogador pode prejudicá-lo. Hoje, o Neymar já é calejado com qualquer tipo de pressão. Mas você tem provocações e jogadores com menos condição técnica que usam dessa artimanha para tentar neutralizar o Neymar. Às vezes, com faltas. Hoje, o Neymar é um jogador muito mais maduro. Eu vejo o Neymar muito mais centrado, não perdendo tanto a cabeça, isso faz com que ele melhore o seu desempenho. Toda vez que sai fora do normal dele, acaba se prejudicando. Acho que ele está mais centrado e tranquilo quanto a isso, reclamando menos e rendendo muito mais.

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