O outro lado de Brasil X Bélgica

Escrito por Jonas Campos
05/07/2018

O Brasil tem 207 milhões de habitantes. A Bélgica 11 milhões. O Brasil, historicamente, tem os melhores jogadores de futebol do mundo. A Bélgica, só agora, tem uma geração considerada ‘de ouro’. O Brasil é o maior vencedor de Copas do Mundo. A Bélgica nunca chegou a uma final sequer. Apesar da diferença de repertório, que faz da Seleção Canarinho a favorita natural, o confronto desta sexta-feira, pelas quartas de final da Copa da Rússia, tende a ser um dos melhores do Mundial.

A seleção pentacampeã do mundo, além de ser soberana na história, tem o melhor conjunto do momento e, pelo que vem jogando, faz por merecer esse favoritismo — reconhecido pelos próprios jogadores belgas. No entanto, se ampliarmos um pouco o campo de análise, podemos dizer que a Bélgica vem goleando o Brasil — quase que um 7×1 — quando o assunto é planejamento e gestão de futebol.

A geração de ouro liderada por Hazard, Lukaku, De Bruyne e companhia é fruto de um projeto amplo nas categorias de base do futebol local, da integração entre clubes e escolas, do olhar atento à educação. O Anderlecht, tradicional clube de Bruxelas que lançou um projeto de talentos que teve Lukaku como pioneiro, é responsável pela formação de mais de um terço do atual grupo de jogadores que representa o país na Copa.

A Bélgica, hoje, é referência no desenvolvimento do futebol e do ser humano, espelho para países como Alemanha e Inglaterra. Viveu uma verdadeira revolução técnica e tática, estimulando o drible e o jogo ofensivo desde a infância e acompanhando o jogador em todas as situações — com futuro dentro ou fora de campo.

Enquanto isso, o Brasil segue, natural e organicamente, gerando inúmeros talentos do futebol. Mas enquanto ganha um ‘Neymar’ aqui e um ‘Coutinho’ ali, o país verde-amarelo perde milhões de jovens (também talentosos) frustrados, sem rumo após o ‘fracasso’ no mundo da bola. Não poderíamos esperar algo diferente diante de um esporte gerido por uma instituição tão corrupta quanto a Confederação Brasileira de Futebol.

O mérito do bom momento brasileiro na Copa da Rússia e, quem sabe, do hexacampeonato é todo do trabalho do técnico Tite e de sua comissão, que atua com integridade, planejamento, tirando o melhor do grupo dos jogadores mais talentosos dessa Copa do Mundo.

Do lado europeu, o trabalho do espanhol Roberto Martínez também é excelente, mas é um detalhe diante de tanta coisa boa que os belgas vêm construindo. Falando do jogo e da Copa, acredito em vitória brasileira. Falando em projeto e gestão de futebol, não tem jeito: a Bélgica já ganhou antes mesmo da bola rolar.