O tombo de Vanderlei Luxemburgo (da Silva)

Paletó italiano, sapato espanhol, gravata francesa, grama chilena e um comportamento incomparável e inclassificável. De origem simples, o treinador atual do Grêmio – ex-jogador apenas mediano (atualmente seria reserva em qualquer grande clube do país) – é o exemplo do desequilíbrio social e comportamental mais claro e evidente que, vez ou outra, surge na mídia nacional e internacional. Vanderlei Luxemburgo da Silva se tornou uma figura distorcida às suas bases. O “da Silva” ficou para trás, esquecido numa infância de dificuldades e desafios em Nova Iguaçu.

O Vanderlei ganhou o “W” e o Luxemburgo virou nome de astro, estrela e de guerra. Ganhou destaque no mundo do futebol ao conquistar diversos títulos e dirigir – sem sucesso, mas com muita pompa, o fabuloso Real Madri. Foi um dos precursores da moda fina nos bancos de reserva – ternos, paletós, casacos de grife e gravatas de diversas cores, tipos, modelos. Seu desejo foi prontamente atendido e as lentes midiáticas foram prontamente acessas aos apelos secretos – e, ao mesmo tempo, explícitos.

Adicionou alguns termos  da literatura frágil e vazia da auto-ajuda no seu discurso. Passou a falar sobre o “timing” do atleta – do “feeling do treinador” e outras expressões que só reforçam a maquiagem poluída pelo tempo e pelas reações reforçadas através de um comportamento cênico e desgovernado.

A vaidade construiu e, aos poucos, está desconstruindo o treinador e ser humano. O tombo no gramado chileno, após o riso irônico voltado à equipe local, só reforça – ainda mais – sua falta de consciência, ética, respeito e profissionalismo – tão pregados pelo treinador em diversos idiomas.

Fato é que Luxemburgo não consegue mais encontrar o “da Silva” (simplicidade e essência) em sua história, vestimentas, gestos, falas e demais comportamentos. Lamento pelo profissional, que, indiscutivelmente tem um excelente talento técnico e tático, mas peca pelo distanciamento de sua essência básica original. O amigo leitor é capaz de imaginá-lo com uniforme do clube à beira do campo, coordenando seus atletas? E mais: deixar a linguagem rebuscada de lado e falar com mais discernimento e naturalidade sobre suas ideias e anseios?

O tombo que Luxemburgo sofreu no Chile- ao tentar fugir da surra que levaria dos jogadores locais na partida diante da equipe local  – confesso, me gerou pena. Não pelo sorriso irônico ao correr para o túnel de acesso ao vestiário após falar algo aos chilenos que os tirou do sério (quando se ganha, brincar ou provocar é sempre fácil) , mas muito mais  pelos contornos patéticos de uma dramaturgia pautada no silêncio de uma alma calada e abandonada num passado distante e, já, inatingível.

Prof. João Ricardo Cozac é presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte – www.appeesp.com  – contato: [email protected]

10 comentários

  1. João Ricardo,

    Esse jogou a própria identidade, pra não dizer origem, no lixo! Metido a intelectual, leitor assíduo de orelhas de livros de auto-ajuda, ficou rico sendo (bom) treinador, porém, não consegue disfarçar sua latente pobreza de espírito.
    Pobre figura humana, só isso!!!

    Abraços

  2. Nada justifica a agressão covarde de que o Vanderlei foi vítima. Aliás, nenhum tipo de agressão pode ser justificada, a não ser que seja em legítima defesa. A lógica é simples: provocação não justifica agressão porque o que é provocação é subjetivo e depende muito da interpretação do provocado.
    Já vi gente justificar uma agressão por UM OLHAR. Dá para acreditar? O sujeito dizia que “Fulano tinha olhado pra mulher dele”. Um olhar e o sujeito se sente provocado. Justificar agressão assim é muito complicado, porque pessoas com esquizofrenia paranóide ou outro distúrbio semelhante podem ver provocação em qualquer coisa, até em coisas inexistentes! É preciso inibir que se justiquem ataques, agressões e legitimá-las tão somente em defesa de si ou de outrem.
    Pontuo aqui que não sou simpatizante do Vanderlei Luxemburgo. Mas o futebol TEM provocações. Na Europa técnicos trocam farpas entre si como nunca veremos por aqui. O que o Vanderlei falou perto do que o Mourinho fala de outros técnicos faz o Vanderlei parecer um coroinha de cidade pequena.
    Por lá eles chamam isso de “mind games”. Acham válido e o técnico adversário ou se cala ou retruca de forma que bem entender. Não é considerado legítimo se estapearem. Mas a nossa cultura é muito machista: homem provocado tem que revidar. Será?

  3. Se tem um técnico que eu não aprecio é o boquirroto Felipão, que é conhecido por ser homofóbico, autoritário e saudosista da ditadura militar (fã do Pinochet, inclusive).
    Contudo, mesmo se o supracitado escorregão tivesse acontecido com o Felipão eu não acharia bom.
    Antes que me esqueça: o Vanderlei Luxemburgo esqueceu suas origens, mas quem não esqueceria depois de décadas ganhando centenas de milhares de reais por mês? Origens também são supervalorizadas. Têm saudades das “origens” quem não sofreu na infância, quem passou uma infância sofrida quer mais é esquecer e construir uma nova vida para si. Não o julgo por isso! Ademais, que coisa é essa de sempre cobrar as “origens” de quem nasceu pobre? Nunca vejo isso acontecendo com um “classe média”.
    É como se ser “classe média” fosse o centro e todo o resto “regional”. Assim como ser paulista é padrão: SP não tem regionalismo, todo o resto do Brasil é regional, SP é centro, é a identidade que dita todas as outras, assim como a classe média brasileira é a classe que dita quem deve buscar as origens e quem não deve… e é claro, ela nunca busca suas origens…

  4. Luxemburgo deve ser uma personagem bastante interessante a um psicólogo. Vejo muitos tipos iguais a ele em todas as áreas. Na verdade, é comum. Normalmente são indivíduos inteligentes, mas que superestimam essa inteligência e volta e meia são traídos pela própria soberba. É nítido o apelo a imagem de “doutor” que ele impôs a seus subordinados, ao mesmo tempo em que pedia para assim ser reconhecido pelos jornalistas. Toda vez que algum subordinado falava sobre ele em coletiva, sempre falava do “mestre”, do “professor Luxemburgo”…
    No que diz respeito ao terno, em si, não é problema: Guardiola e outros já usaram com muito sucesso essas vestimentas mas sem o ar caricatural do “doutor”. O Mourinho é um pouco “Luxemburgo” também.
    Já ouvi psicólogo dizendo que o comportamento “doutor sem o ser” é uma espécie de autodefesa ou compensação de alguma fraqueza. É claro que todo mundo tem fraquezas e ninguém reage de forma perfeita à constatação delas. Algumas pessoas ficam até depressivas com isso. Mas o problema é a soberba – que pode fazer ser rude com outros. E o Luxa volta e meia tem suas explosões com um e com outro. No último jogo a coisa engrossou pq ele estava no terreiro adversário, aprontou e quase pagou caro por isso.
    Acho até que o problema dele – e do Felipão (que usa uniforme esportivo do clube mas também se mostra arrogante) – é que essa soberba o impediu de se atualizar no futebol. O esporte evoluiu em formas de jogar, mas, principalmente, evoluiu de fora do campo para dentro dele, e essa evolução, que aqui sempre é mencionada (o trabalho psicológico é parte dela), não foi acompanhada pela maioria dos treinadores brasileiros. Em alguns casos, por desconhecimento e reclusão (teimosia, para não falar “ignorância”). Em outros casos, por arrogância, como é o caso do Luxa, Muricy (que usa uniforme), Felipão e outros. Afinal de contas, eles são do “país do futebol” e por isso não têm nada a aprender com os outros…
    E segue a mediocridade (diria Chico Lang)…

  5. Ana Paula,

    …”mas quem não esqueceria depois de décadas ganhando centenas de milhares de reais por mês?”
    Respeito sua opinião, porém, Steve Jobs, manteve a humildade, mesmo “podre” de rico.

    Veja essa reflexão que ele deixou pra todos nós:

    – “Ser o mais rico do cemitério não é o que mais importa para mim… Ir para a cama à noite e pensar que foi feito alguma coisa grande. Isso é o que realmente importa.”

    Abraços

  6. João Neto, o Steve Jobs definitivamente não está na minha lista de referências. Não fez nada “grande”, por exemplo. Só ajudou a depredar um pouco mais o planeta explorando a obsolescência programada e vendendo quinquilharia e um estilo de vida.
    Eu não tenho dúvidas de que quando se é podre de rico e se bota a cabeça na cama, é nisso que se pensa: que se fez algo grande.
    Eu também seria megalomaníaca se fosse o Steve Jobs por alguns anos! Você não?
    Mas daqui, do mundo dos mortais, quando boto a cabeça no travesseiro penso nas dívidas e no aluguel, coisas pequenas, né?

  7. Vou reforçar aqui um pouco do que disse o João Neto numa pequena viagem por indivíduos elogiáveis… alguns, não tanto – pela soberba: há no meio musical, por exemplo, aqueles músicos que se dedicam a projetos assistenciais em seus lugares de origem. Nem todos são ricos, mas muitos podiam estar ganhando muito mais dinheiro do que ganham nas horas que fazem isso e, no entanto, dizem preferir a satisfação de tentar mudar a realidade daqueles que se assemelham a eles quando eram jovens a segragar-se numa porção “nobre” (um condomínio de alto padrão, por exemplo) da cidade. Aliás, muitos continuam morando em seus lugares de origem… Não há uma regra para isso e também é um valor importante manter os amigos e a convivência. O sujeito ganha dinheiro mas não se torna um ET depois disso. O próprio Adriano, hoje ex-jogador, preferiu os churrascos e os pancadões nas lajes dos seus amigos de bairro que os milhões num palacete na Itália. Ele não queria ser o “imperador” embora gostasse momentaneamente do status. Não estou elogiando ele mas apenas dizendo que a escolha que fez é a do único modo de vida que sabe viver.
    O Vanderlei (Wanderley) fez outra escolha – desapegada às suas origens – mas não é esse o problema do Vanderlei. Certas experiências difíceis engrandecem alguns sujeitos e permitem que eles se comportem de forma sábia quanto ao passado, não com repulsa e arrogância por hoje viver diferentemente. Neste ponto o “doutor Vanderlei” aparece.
    Conheci uma madame que prefere passear de balão na Capadócia a conhecer o próprio país, mas dizia ser mais brasileira que os brasileiros que nunca saíram daqui. Eu gostaria de sobrevoar o Vietnã num monomotor pela beleza da experiência em si, mas considero mais interessante viajar e conhecer algumas comunidades no Brasil a isso. Enfim, tem aqueles passeios que você só precisa ter um pouco de dinheiro para fazer. E tem aqueles em que é preciso ter “mente aberta”. São as experiências que contam de verdade! Tem gosto pra tudo. Não condeno as escolhas individuais, mas é de doer ver aqueles que cospem simultaneamente nos outros e no seu próprio passado.
    Ana Paula falou algo interessante sobre o Jobs – em outra esfera – no que diz respeito da política que as empresas têm – a da obsolescência forçada de seus produtos para manter a economia aquecida. O Dr. Jobs, apesar de suas qualidades, também era um dos pontas de lança dessa política.
    De qualquer maneira, é evidente que ele contribuiu para o progresso geral com seus “pequenos passos”. Não foram passos maiores como de Benjamin Franklin, Thomas Edison e Nikola Tesla, mas passos que, seguidos de outros, trouxeram uma modernidade capaz de produzir utilidades e baratear custos de vida, por exemplo. Edison, por exemplo, era bastante arrogante. O próprio Newton também foi muito.
    Sendo corintiano, vejo o “passo importante” do Vanderlei naquele time de 98-99 – que ele arrumou para o O.O.
    Como todo paradigma é ultrapassado um dia, o de técnicos como ele parece ter ficado para trás…

  8. Pessoal, agradeço imensamente pelo debate em altíssimo nível. Os que puderem me adicionar no facebook – ” João Ricardo Lebert Cozac ” – podemos trocar ideias por lá tb!
    Elvis, tomei a liberdade de publicar em meu face suas palavras – que foram brilhantes!
    Apareçam sempre, todos! É tão bom encontrar vida inteligente no universo do futebol. Abrs, Cozac

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