A ética de Rodrigo Caio

(Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press)

Pela dificuldade que o tema suscita, melhor ater-se a uma discussão restrita ao campo da ética esportiva e, especialmente, da ética que seria própria ao futebol. Até porque parece inadequada toda tentativa de transportar a este ou a qualquer jogo padrões de conduta próprios a outros setores da sociedade.

Em outros termos, mais do que ouvir a opinião de filósofos ou de professores de ética sobre a polêmica criada pela pureza do gesto de Rodrigo Caio, que acarretou a anulação de um cartão amarelo aplicado a um adversário, é necessário discutir o tema sob a estrita perspectiva da ética aplicável à modalidade em análise.

Sim, o futebol é um jogo, como bem lembrou, ao comentar o caso, o jornalista Arnaldo Ribeiro.

Isso implica não apenas a existência de regras, mas também de autoridades incumbidas de aplicá-las: primeiro, os árbitros de campo e, subsidiariamente, os membros dos tribunais esportivos.

Para contribuir com a discussão pontual sobre o caso de Rodrigo Caio, cabe diferenciar situações que, apesar de manifestamente distintas, têm sido tratadas como similares por parte da opinião pública.

A primeira diz respeito à conduta (ardilosa) do atleta que simula uma falta para ludibriar o árbitro e, com isso, levar vantagem: forma de agir que, embora frequentemente reproduzida, afronta qualquer ideia que se tenha de fair play aplicado ao futebol. A solução ? 1) Educação desde as categorias de base (solução definitiva); ou 2) aplicação sistemática de punições, por parte dos tribunais esportivos (solução paliativa). O caminho ? Basta que as entidades esportivas manifestem vontade política para combater tal ato antidesportivo de forma eficaz.

A segunda situação diz respeito à conduta do atleta que abre mão de continuar uma jogada para facilitar o atendimento de um adversário caído no chão: mais além de uma aparente obrigação moral, esta é a mais típica (e frequente) manifestação do fair play aplicado ao futebol.

Já a terceira situação diz respeito à conduta do atleta que, ao tomar como base sua particular interpretação dos fatos ocorridos dentro de campo, pretende corrigir marcação do árbitro da partida. Foi o que fez Rodrigo Caio.

Assim como é impossível ignorar a honestidade (e o eventual valor moral) da conduta do zagueiro do São Paulo, não se deve deixar que questionar se, em vista de tal ética do futebol, caberia aos atletas a tarefa de promover, de forma positiva, a aplicação das regras do jogo; uma conduta que implicaria, em outras palavras, contribuir com o árbitro na condução das partidas.

Aparentemente, a generalização de tal atitude traria dificuldades, posto que acarretaria uma inversão das funções dos atores do jogo em questão (atletas e autoridades).

Nesses termos, Rodrigo Caio teria, naquele caso concreto, ido bem além de seu dever de respeito ao fair play.

Em vista disso, é possível questionar se, em caso de generalização, tal forma de agir não poderia, além de atrapalhar o exercício do trabalho dos juízes, colidir com a obrigação primordial de todo atleta e, especialmente, do futebolista profissional: contribuir da melhor forma possível – e nos limites das regras do jogo – com o sucesso de sua equipe.

Em resumo, antes de enaltecer um gesto cavalheiresco, mas cuja aplicação generalizada revela-se absolutamente improvável (e possivelmente indesejável), é tanto mais legítimo, quanto factível e necessário, lutar para coibir as (proliferadas) condutas deliberadas de atletas que objetivam a vitória a qualquer custo.

Em tempo: Rodrigo Caio, que avaliou ser injusto o cartão mostrado ao atacante Jô, sequer percebeu que, possivelmente, o choque entre ele e goleiro Renan teria sido evitado não fosse… um empurrão do atacante corintiano, igualmente ignorado pelo árbitro.

 

 

 

 

4 comentários

  1. A ATITUDE DECRODRIGO CAIO FOI DIGNA E MUITO CORRETA.
    JÁ NÃO FOI A MESMA DO FERNANDO PRASS NO JOGO CONTRA A PONTE NO LANCE EM QUE ELE DERRUBOU O POTKER DENTRO DA ÁREA.
    E VOCÊ É O CARA MEU QUERIDO BO SORTE SEMPRE.

  2. sua análise coaduna com a minha, a ética tem sua compreensão dentro de um contexto cultural específico e se o viés coletivo foi ferido (SP) precisa ser repensada sob este ponto de vista. Parabéns!

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