Dirigentes de ontem e de hoje – III – A remuneração de uma amizade

o ciclista Mauro Ribeiro e o Major Sylvio de Magalhães Padilha
28/07/1982: O Major Sylvio de Magalhães Padilha (direira), presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, entrega uma placa de prata ao ciclista brasileiro Mauro Ribeiro.

Há momentos em que a gente precisa abdicar do pudor da modéstia e contar um fato do qual fomos protagonista. Creio que, cronologicamente, ele se refere a um dos últimos atos de voluntariado dos velhos tempos, antes de chegarmos à realidade pouco lisonjeira demonstrada hoje pelos meios de comunicação atuais que divulgam fartamente os mega eventos.

No final dos anos 80 do último século, a conduta digna de Sylvio de Magalhães Padilha incomodava algumas confederações. Elas tinham outras ideias sobre a gestão do esporte, principalmente na área financeira. O apoio ao trabalho do Major resultou na minha indicação, em 1982, para a chefia da Assessoria de Imprensa do COB, cargo este exercido, obviamente, voluntariamente e sem remuneração.

Naquela década, Padilha, acompanhando o êxito do meu trabalho na empresa de eventos que eu presidia, pediu que eu também desse um apoio à área de marketing.

O esporte nacional não nadava ainda em dinheiro quando amadureceram os preparativos para os Jogos Olímpicos de Seul, em 1988. Era importante e urgente a conquista de novos recursos para complementar a dotação do Governo para todas as necessidades da nossa delegação na capital da Coréia.

Nesse momento, por grande felicidade, conseguimos o “sim” de um importante cliente de nossa empresa para dar tranqüilidade ao COB. Era uma vultuosa quantia, difícil de precisar exatamente o quanto seria hoje devido às mudanças de moedas pelas quais nosso país teve de passar por causa da inflação galopante, mas a participação daquela empresa privada praticamente correspondia quantitativamente à dotação do Governo Federal.

Considerando-se a minha condição de dirigente voluntário do COB, abri mão de qualquer comissão ou forma de remuneração pessoal  pela intermediação na conquista daqueles recursos.

O agradecimento pelo ato está em três diplomas de honra ao mérito e benemerência que guardo com muito orgulho em meu escritório.

Dezoito anos depois destes Jogos Olímpicos, eu escrevi o livro “O Evento Esportivo como Objeto de Marketing”. O texto do prefácio foi de autoria do homem da área de publicidade da Philips que havia assinado a autorização da verba olímpica. A retribuição que recebi pela minha renúncia a um lucro pessoal foi a conquista de uma grande amizade que dura até hoje.

4 comentários

  1. Época de ouro do esporte brasileiro, em que o ideal, a ética,o respeito, o amor à camisa e ao país eram a base de sustentação das grandes conquistas. Lamentavelmente o Major Padilha e o querido Professor Nicolini não estão mais entre nós. Essas ausências dignas empobrecem o esporte e tornam o mundo mais vazio. Parabéns ao Alberto Murray por nos fazer relembrar, em seu blog, esses valores.

  2. Muito bom meu garoto. Esse era o tempo que a gente pagava para trabalhar de graca. Me lembro bem quando fui pra Seoul como comentarista da TV Globo. Por sugestão de minha Fada Madrinha, Laurete telefonei aí Major Padilha se ele teria alguém pra me indicar para eu comprar a passagem aérea em módicas prestações. E ele me respondeu: pelo que vc fez pela ginastica do país eu te dou a passagem. Mandou ligar pra alguém da VARIG e economizei a passagem. Foi bom os o pagamento da TV Globo era uma droga!!

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