De braços com a morte

Foto: AFP

Horácio morreu. Ele era jovem, pouco mais de 58 anos. A morte foi na madrugada, na pequena cidade de Progresso, Província de Santa Fé, no interior da Argentina. O coração explodiu. E o coração explode por vários motivos. Pode ser genético, por excesso de peso, muito cigarro, falta de atividade física, etc. Mas no caso de Horácio não foi nada disso. Ele simplesmente desistiu de sofrer.

Horácio é o pai de Emiliano Sala, aquele jogador que faleceu no voo de apresentação ao Cardiff, proveniente de Nantes, clube que defendeu com sucesso gerando um negócio, que seria maravilhoso, mas virou tragédia. O avião sumiu no Canal da Mancha e alguns dias depois encontraram o corpo. Desesperador para qualquer um, imaginem para um pai.

Foram 3 meses de falta de sono, de lembranças, de questionamentos e muitas lágrimas em quartos escuros. Pobre Horácio. O que terá ele pensado nesses 90 dias enormes? Sim porque na tristeza extrema o tempo fica congelado. Horácio morreu só com seu drama. O grande cantor e compositor brasileiro, Alceu Valença, compôs uma canção maravilhosa sobre a  solidão. Poucos conseguiram retratar tão bem esse sentimento: ” A solidão é fera, a solidão devora. É amiga das horas, prima, irmã do tempo. E faz nossos relógios caminharem lentos. Causando um descompasso no meu coração”

Sim. Morte do filho, tristeza, desespero, pavor, incredulidade e enorme solidão, mesmo que algumas pessoas estejam ao seu lado. É uma dor incessante. Há um momento em que a própria morte se torna viável. Não o suicídio, atitude extrema de grande desequilíbrio emocional. É que a vida fica vazia. Qualquer coisa passa a ser aceitável e o cara perde o medo de morrer. Simplesmente aceita. Talvez, finalmente, Horácio tenha reencontrado a paz, que perdeu no fundo do Canal da Mancha. Abraçado com a morte, ele achou a liberdade.