Guardiola e Seleção de 82: ligação zero

Foto: Montagem sobre foto de Acervo/Gazeta Press e Paul Ellis/AFP
Foto: Montagem sobre foto de Acervo/Gazeta Press e Paul Ellis/AFP

Há mitos que surgem no futebol e viram verdade. Não será esse post que encerrará essa conversa mentirosa. Não tenho essa pretensão. Mas me sinto na obrigação de colocar os fatos reais, para quem queira tê-los. Sei lá porque volta e meia, ouvimos no Brasil uma teórica ligação do futebol idealizado por Guardiola, com a seleção brasileira de 1982. Os mais fantasiosos falam até de influências do maravilhoso Brasil de 1970. Não sei quem começou com isso. Mas aí outros seguiram e está quase virando verdade incontestável.

Vou colocar alguns fatos. Guardiola nasceu dia 18 de janeiro de 1971. Ou seja, não viu a Copa de 70. Em 1982 tinha 11 anos. Convenhamos que por mais meticuloso que fosse, com essa idade não tinha como ver um Mundial com os olhos de um profissional. Mais ainda de alto nível. Ok, você pode me dizer que existem vídeos desses eventos importantes. E creio que ele até possa ter visto os jogos depois. Mas, para virar referência, é bem complicado.

Vamos ao outro lado. Ele jogava no Barcelona B. Era reserva. De repente é chamado pelo auxiliar técnico de Johan Cruyff, técnico da equipe principal e passa a ser catequizado pelo Futebol Total. Subiu por ser franzino e não poder dividir bolas com os grandalhões. Então desenvolveu uma técnica especial. Ele procurava antecipar e passar logo a bola dando ritmo ao nível de jogo. Era banco no time B porque a filosofia de Cruyff, ainda não estava implantada como ideário de jogo oficial do clube. Ele buscava isso e garimpava as peças em todos os lugares. Achou Guardiola.

Pouco depois o jovem era titular na equipe principal, porque entendia o que se pretendia. Virou quase porta voz de Cruyff dentro do gramado. E a bola fluiu. O Barcelona virou referência de jogo bonito. E aí ele ligou-se as seleções do Brasil de 1970 e 1982. Sim, jogavam lindamente. Mas de forma muito diferente.

A seleção de 1970 tocava a bola com paciência e buscava o passe longo, sempre que possível em contra ataques, usando a velocidade de Jairzinho. Não tinha pontas. Rivellino e o próprio Jairzinho eram meias e fechavam bastante pelo centro. Felix ficava somente embaixo do gol. Os setores eram bem delineados e os talentos só se aproximavam para trocar passes, esperando o momento do lançamento longo.

O time de Telê Santana em 1982 também não tinha pontas. Eder até avançava pela esquerda, mas pelo lado direito havia grande variação. Inclusive com jogadores mais de marcação como Paulo Isidoro e Dirceu. As bolas longas e os tiros de meta eram normais, como em 1970. Quando Falcão chegou o espaço da direita era coberto por quem estive mais perto. O time sabia esperar para dar o bote. Nunca ia na direção do adversário. Nada de marcação ofensiva. A equipe jogava bem espaçada. Raras vezes se compactava. Havia um centro avante fixo, o Serginho. E claro, Valdir Peres ficava apenas na linha do gol.

Guardiola marca pressão ofensiva. Há a regra dos 4 segundos para retomada de bola. No Barcelona os pontas jogavam bem abertos para abertura de espaços. Nada de centro avante parado lá na frente. Pelo contrário, Messi vinha de trás entrando pelo lado que bem entendesse. O time jogava muito compactado e o goleiro bem a frente. Em muitos casos, quase no meio campo. A preferência em 99% das vezes é sair jogando, mantendo a bola sob total posse. No Bayern houve uma ou outra adaptação. Agora no Manchester City também. Porém, o jeito de pensar o jogo, segue imutável. Ou o idioma a ser usado durante os 90 minutos, como gosta de falar o grande treinador.

Enfim. São três times históricos. Maravilhosos. Guardiola está entre os maiores treinadores da história, perdendo talvez, apenas, para o idealizador de todo esse modelo, o monumental Rinus Mitchels. Bem melhor que Zagallo e muito superior, taticamente, a Telê Santana, que tirava o máximo tecnicamente dos boleiros, mas não era tão criativo na horas das alterações. Guardiola chega a usar 5 esquemas diferentes na mesma partida. Mas todos merecem enorme respeito. Sobre jogadores, Zagallo teve Pelé. Telê um quarteto com Cerezzo, Falcão, Sócrates e Zico. E Guardiola, Iniesta, Xavi e Messi.

Então a ideia aqui não foi gerar polêmicas. Não discuto quem foi ou é melhor. Falo de coisas grandiosas. Raras no futebol. Seria espetacular se todos tivessem existido simultaneamente. A única intenção foi desvincular o que não tem vínculo. Guardiola  é originário do futebol holandês. De Mitchels e Cruyff. E isso não o torna maior ou menor. Nem diminui em nada a grandiosidade dos times brasileiros em 1970 e em 1982.