Aniversário

Flavio Prado

Foi um dia comum. Trabalho pela manhã, até um corte de cabelo no período da tarde e à noite a participação das segundas feiras no Gazeta Esportiva. Aí o futebol com os amigos. Coisa rotineira e agradável. Cai no time com camisa. E aí estava eu vestindo uma do EC.Bahia jogando na defesa. A bola passava a todo momento. Meu time estava um sono. E eu, competitivo, gritando e exigindo mais atenção. Os meninos do adversário driblavam como queriam. Eu tentava dar pontapés, mas nem isso conseguia. Até que veio a asia. O estômago passou a incomodar mais do que a derrota momentânea na pelada. Como piorasse resolvi parar um pouco para tomar uma água com gás. Tomei e percebendo que não melhorava, nem eu e nem o time, fui para o chuveiro.

O banho foi longo. A sensação agora era de um sono profundo. Deitei na arquibancada. Voltei para os vestiários. E lá fiquei até que meu time voltasse. Perdemos e eu já não me preocupei tanto. O pessoal se trocou e íamos sair para a pizza, obrigatória, pós-jogo. Ao tentar levantar, não consegui. A sonolência aumentara. Não sentia nenhuma dor, mas não tinha forças para ficar em pé. Aí veio o goleiro, o Paulão. E o atacante Fabinho. Dois amigos bem mais jovens. E lá fui eu para “tomar um Plasil”, por causa do estômago. Não queria atrasar o jantar.

Entrei no Hospital Cruz Azul, perto da quadra. A médica pareceu preocupada. Eu não. Só queria sair logo e encontrar o pessoal. Não entendi porque o exame de sangue. E a maca. A ordem era ficar quieto, quase imóvel. Eu estava é bravo. “Para que essa frescura toda?”.

Os meninos saíram de perto. Aos poucos foram chegando pessoas mais velhas. O que eles estavam fazendo lá? Por quê estavam lá? Primeiro foi o Wanderlei Nogueira, depois o Fran Papaiordano, Em seguida o Antonio Carlos Méccia. E logo a transferência para o Incor. E eu bravo. Ambulância? Nem pensar. Mas veio uma ambulância. O Dr. David Uip que enviou.

E durante toda noite, no Pronto Socorro, ouvia um senhor gemendo e comentei com minha mulher, que ele deveria estar muito mal. “Coitado”. Amanheceu. Meu companheiro, que gemia, foi logo liberado. Eu não. Até que o médico, Dr. Mansur me chamou de lado e, finalmente, me explicou tudo. Eu tivera um infarto. E grave. Tinha que fazer uma Angioplastia, imediatamente.

Seu Tuta, presidente da Rádio Jovem Pan, ligou solidário, como sempre. Sergio Felipe, superintendente da Fundação Cásper Líbero, mandou o RH para ficar ao meu lado. O pessoal da Unisa, onde eu trabalhava, estava por perto também. Fiquei apavorado. Jamais imaginei que sofresse um infarto. E que fosse desse jeito.

No minuto seguinte as luzes passavam rapidamente pela minha visão. A maca seguia, para o Centro Cirúrgico. Foi tudo tranquilo. O cateterismo, a colocação do stend, a recuperação, a volta à normalidade. Infarto é assim. Ou mata, ou não deixa sequelas. Eu tive muita sorte. Com a minha idade, à época, o índice de morte chega a 90%. O fato de nunca ter bebido ou fumado, ajudou bastante.

Mas, quem quis foi Deus. Quis que eu mudasse, tentasse melhorar, tivesse nova chance. Hoje faz 12 anos de toda essa história. Lembro de cada detalhe. Não tem como esquecer. Era um dia comum. Nada indicava que algo fosse mudar. E eu escapei por pouco da morte. Senti o tamanho da minha fragilidade. Percebi que a gente deve tentar fazer o melhor que pode, durante a maior parte do tempo.

31 de agosto passou a ser também meu aniversário. Só posso agradecer a Deus pela oportunidade. Poucos tiveram, nas mesmas condições. Mudei o temperamento, baixei um pouco a bola, parei de jogar o futebol eventual e procuro manter o peso em ordem. Mas, acima de tudo me espiritualizei mais. Foi bom. Foi necessário. Foi pela dor.

Contei essa história e não é a primeira vez, para que você, meu amigo leitor, saiba que tudo é muito rápido e fútil. Que damos valor muito grande, à coisas que não valem a pena. E que a vida deve ser levada com aproveitamento pleno. Que na hora da crise, ou da colocação de um stend, no meu caso, você depende de alguns médicos, enfermeiros e da vontade Divina. O resto fica para trás. Então, aproveite seu tempo, curta como puder e esquente menos a cabeça. Você pode estar usando muito mal o tempo que lhe foi dado, mas pode ser tirado, a qualquer instante. Talvez você não tenha a sorte que eu tive.