{"id":2717,"date":"2014-08-27T14:48:38","date_gmt":"2014-08-27T17:48:38","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/chicolang\/?p=2717"},"modified":"2014-08-27T17:49:48","modified_gmt":"2014-08-27T20:49:48","slug":"jovens-desprezam-mais-velhos-e-so-querem-saber-do-cade-o-meu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/chicolang\/2014\/08\/27\/jovens-desprezam-mais-velhos-e-so-querem-saber-do-cade-o-meu\/","title":{"rendered":"Jovens desprezam mais velhos e s\u00f3 querem saber do &#8220;cad\u00ea o meu?&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><figure style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/s.glbimg.com\/es\/ge\/f\/620x230\/2011\/05\/23\/pele-pagao-pepe-ae470.jpg\" width=\"620\" height=\"230\" class \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Pel\u00e9, Pag\u00e3o e Pepe no come\u00e7os dos anos de 1960<\/figcaption><\/figure>A antropologia \u00e9 uma ci\u00eancia relativamente nova e tem muito para ensinar ao futebol brasileiro. H\u00e1 10 mil anos atr\u00e1s, n\u00e3o existiam cidades, nem com\u00e9rcio. ningu\u00e9m sabia ou tinha id\u00e9ia do que era \u201cdinheiro\u201d. O homem sapiens sapiens (ou seja, n\u00f3s) viv\u00edamos para ca\u00e7a, pesca e \u00e9ramos n\u00f4mades. A solidariedade prevalecia entre grupos de sessenta a oitenta pessoas. Leis b\u00e1sicas estavam escrita no totem (s\u00edmbolo animal da tribo) e nos tabus (respeito \u00e0 natureza, nada de casamento entre primos e irm\u00e3os e assim por diante).<\/p>\n<p>O mais importante de tudo: os mais velhos ensinavam, por tradi\u00e7\u00e3o oral, aos mais novos. T\u00e9cnicas de fazer instrumentos de ca\u00e7a, pesca, utens\u00edlios dom\u00e9sticos, arma\u00e7\u00e3o de barracas e comportamento de animais eram aprendidos ao redor do fogo, em conversas entre os mais experientes e os mais novos.<\/p>\n<p>Bem, tudo isso n\u00e3o existe mais e ficou nos prim\u00f3rdios da humanidade. Uma pena que a Evolu\u00e7\u00e3o tenha tomado rumos mais cru\u00e9is. A fraternidade e a uni\u00e3o, sem falar do amor, predominavam. Hoje, com o capitalismo de mercado, a tradi\u00e7\u00e3o oral foi deixada de lado. A gera\u00e7\u00e3o de hoje, antes e at\u00e9 durante os famosos est\u00e1gios, faz a seguinte pergunta: \u201cQuanto eu vou ganhar?\u201d. At\u00e9 entendo. Desde muito jovens, essa \u00e9 a conversa que ouvem na mesa do caf\u00e9, do almo\u00e7o e do jantar entre os pais e os irm\u00e3os mais velhos.<\/p>\n<p>No futebol, isso tamb\u00e9m acontece. Desde garotos, crian\u00e7as mesmo de 10 a 14 anos, j\u00e1 t\u00eam empres\u00e1rios. Conversando com o meu amigo Serginho Chulapa, hoje nas equipes de base do Santos, lamentamos a situa\u00e7\u00e3o. Afinal, entre os jogadores experientes e os novatos entra o papel quase sempre nefasto do representante. Nos tempos do Chulapa, n\u00e3o era assim.<\/p>\n<p>Um dia, na Vila Belmiro para entrevistar Edu Marangon, vi agarrado ao alambrado um velhinho, camisa azul, aberta at\u00e9 o umbigo. Cabelos brancos, fumava um cigarro atr\u00e1s do outro e xingava demais os atletas durante o coletivo. Por\u00e9m, ningu\u00e9m reclamava, se atrevia a mand\u00e1-lo calar ou retir\u00e1-lo dali. Perguntei ao Marangon quem era aquela figurinha carimbada. \u201c\u00c9 o Pag\u00e3o, Chico. Aqui ele \u00e9 Deus\u201d, disse o meia.<\/p>\n<p>Serginho confirmou a \u201conipot\u00eancia\u201d de Pag\u00e3o, um dos companheiros de Pel\u00e9 na Vila, ainda nos anos de 1950. \u201cEle me dava muita bronca. O que eu fazia? Fica quieto, baixava a cabe\u00e7a. O passado dele como jogador impunha respeito\u201d, disse. E olhem que o Chulapa n\u00e3o leva desaforo para casa de jeito nenhum. \u201cMas ali tinha que me calar. Estava diante da hist\u00f3ria do futebol. Tinha muito que aprender com ele\u201d, finalizou o maior artilheiro dos anais do S\u00e3o Paulo e um dos principais do Santos.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, a minha gera\u00e7\u00e3o e do Serginho reverenciava os mais experientes. E por uma simples raz\u00e3o: deles vinha o conhecimento de \u201catalhos\u201d para se caminhar na estrada da bola e da vida.<\/p>\n<p>Que esse texto sirva de li\u00e7\u00e3o para brilhante garotada que vem atropelando por fora. O DNA humano n\u00e3o pode ser alterado por uma regra de mercado. O dinheiro \u00e9 importante, mas n\u00e3o \u00e9 tudo. A experi\u00eancia n\u00e3o tem pre\u00e7o e s\u00f3 d\u00e1 para adquir\u00ed-la no decorrer do tempo.<\/p>\n<p>E tenho dito!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A antropologia \u00e9 uma ci\u00eancia relativamente nova e tem muito para ensinar ao futebol brasileiro. 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