Caro amante do futebol e de sua arbitragem,
Finda a temporada do ano 2025, cumpre-nos realizar um balanço do que foi nossa arbitragem no indicado período.
Lamentavelmente o saldo não foi positivo. Com efeito, apesar de ter havido, talvez em sua maioria, boas arbitragens e muitas decisões técnicas e disciplinares acertadas, inclusive em lances difíceis, os diversos erros graves ocorridos no período, sobretudo porque foram resultado da inexistência de uma filosofia, de diretrizes coerentes e seguras que dessem identidade a nossa arbitragem, não possibilitam concluir que o balanço do setor foi positivo.
Afinal, o balanço de uma arbitragem não resulta positivo ou negativo exclusivamente na razão direta da quantidade de erros e acertos, também e antes de tudo, em decorrência do sistema do trabalho desenvolvido; das diretrizes implementadas; dos critérios adotados; da filosofia empregada e, em especial, da confiança transmitida para o púbico do futebol. E foi justamente pela fragilidade desses requisitos que muitos erros graves e injustificáveis ocorreram e com a consequência de alteraram os resultados de diversos jogos.
Assim, é certo afirmar que além dos equívocos, suas causas são elementos muito mais importantes do que um isolado mais e menos aritmético entre os acertos erros. Afinal uma arbitragem não se revela boa ou má por questão aritmética, mas, principalmente, pela credibilidade, pela coerência e pela segurança que lhe dão identidade, feição.
Em razão disto, a afirmativa da Comissão de Arbitragem da CBF de que o saldo foi positivo porque o índice de acertos das decisões foi superior a 90% não é consistente. Não bastasse, tal percentual, por certo, deve ter levado em consideração as pequenas e corriqueiras decisões adotadas pelos árbitros, a exemplo da marcação de faltas simples e claras; da aplicação de cartões amarelos e até vermelhos em situações indiscutíveis; das marcações de tiros de meta, de canto e de arremessos laterais inquestionáveis etc. etc., o que implica inadmissível desvio de análise da essência do que deve ser uma arbitragem, até por não ser crível que situações de jogo tão singelas possam revelar a fisionomia da arte de apitar, principalmente quando se trata de árbitros de primeira grandeza, inclusive internacionais. Computar decisões dessas naturezas para avaliar nossa arbitragem e estabelecer números estatísticos, data máxima vênia, implica, até depreciação da qualidade de nossos árbitros.
Desse modo, reitere-se, o balanço resulta negativo pelas razões já expostas, salientando-se que muitos erros em lances capitais se tornaram ainda mais graves porque contaram com auxílio ou omissão VAR, cuja função também pecou principalmente por ausência de diretriz segura. Além de tudo, não podemos nos esquecer da relação dos árbitros com os participantes das partidas, ora ríspida, ora flácida, e, pois, comumente inconsistente, que dificultaram a prática de um futebol limpo.
Também é bom pontuar sobre a afirmativa de que no futebol não há lances iguais e que, portanto, não pode haver igualdade de critérios, com o que se pretenderia justificar decisões distintas para situações muito semelhantes. Neste ponto a visão da Comissão de Arbitragem é equivocada. Com efeito, as pequenas sutilezas que, realmente, podem distinguir dois lances de igual natureza, não têm força para excluí-los de uma moldura que a todos possa abrigar e que os enquadre em um determinado tipo que exija decisões iguais. Afinal, há, por exemplo, faltas impeditivas de ataques promissores muito claros e outros nem tanto, mas que, ambos, exigem punições com Cartão Amarelo; igualmente, há faltas cortando claríssimas oportunidades de gol, e outras nem tanto, mas ambas requerem punições com Cartão Vermelho; há lances de assumir risco de lesão claros e outros nem tanto, mas ambos exigem punições com Cartão Vermelho etc. etc. Assim, exigir-se identidade absoluta entre dois lances, à semelhança do reconhecimento facial, para justificar decisões distintas ou é desviar-se da essência do futebol ou pretender revelar conhecimento que apenas um ser humano detém. Logo, a semelhança entre os lances, não a igualdade absoluta, é que deve dar norte às decisões de arbitragem: todos dentro da mesma moldura.
Para provarmos que o balanço foi negativo não precisamos enumerar os erros cometidos, pois isto, além de já havermos feito ao longo da temporada, agora, não produziria qualquer efeito positivo, que é o que desejamos neste trabalho e para nossa arbitragem.
Em resumo, o que desejamos para melhoria de nosso apito é que a Comissão de Arbitragem adote a postura que o setor exige, a exemplo de afastar-se completamente de qualquer liame político, concentrando-se, apenas e exclusivamente, no aspecto técnico e lhe dando diretrizes seguras; que haja resgate a autoestima dos árbitros, acolhendo-os sempre, sobretudo quando errarem, sem, contudo, deixar de aquinhoar com mais designações os que atravessarem melhor fase, mas buscando requalificar os que errarem, sem expô-los ao desgaste público das punições que nada produzem de bom, mas que apenas enfraquecem os punidos e deixam o grupo em expectativa negativa, gerando uma repulsiva insegurança.
O VAR é um capítulo especial, que não apenas merece, mas exige uma diretriz clara sobre sua filosofia de atuação que, a nosso ver, deve ser de acordo com o que está estabelecido no correspondente protocolo e que tem força de regra: Corrigir “erros claros, óbvios”, sem, pois, surpreender o mundo do futebol, com princípios que oscilam rodada após rodada. Afinal, quem se desvia da lei nunca toma o caminho certo.
Também almejamos que a Comissão de Arbitragem da CBF adote o princípio da plena transparência, transmitindo ao vivo todas as checagens, estas quando o jogo estiver parado, e todas as revisões ao vivo e em tempo real, ajustando, se necessário for, os contratos com as empresas de TV que transmitem os jogos, de modo a obriga-las a assim agir.
De outro passo, rogamos a Deus que o impedimento semiautomático, que virá no próximo ano, não traga mais problema ou desconfiança do que solução, pois este novo processo apenas mostra o resultado, sem que se saiba a forma como foi alcançado, sobretudo porque o homem VAR continuará atuando para corrigir eventuais distorções que o método vindouro pode ocasionar, principalmente porque utilizaremos apenas o modelo básico (apenas 12 câmeras). Tudo sem desconsiderar que o método a ser substituído era um pouco lento apenas em lances com múltiplas possibilidades de impedimento, o que nos permite concluir que o benefício do novo sistema, que se limitará aos impedimentos por interferir no jogo, poderá não corresponder à expectativa para a segurança e celeridade do jogo.
Espera-se que a Comissão de Arbitragem, ademais, atue perante todos os agentes do futebol para revelar o sistema de trabalho a ser desenvolvido, de modo a facilitar a conduta de tais agentes, que são tão responsáveis quanto os árbitros para que nosso futebol seja limpo, ético.
Por fim, vale afirmar que o Brasil dispõe de material humano de qualidade elevada e que pode render ótimos frutos para nossa arbitragem, principalmente com a implementação do profissionalismo, que possibilitará mais treinamentos e, pois, proximidade de critérios, que, não obstante, também dependerão, antes e acima de tudo, de instrutores preparados e alinhados com a essência das regras do jogo e do futebol.
Desejamos e esperamos que ano vindouro seja alvissareiro para nossa arbitragem.
