{"id":7899,"date":"2016-04-18T13:56:38","date_gmt":"2016-04-18T16:56:38","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/?p=7899"},"modified":"2016-04-18T17:05:04","modified_gmt":"2016-04-18T20:05:04","slug":"futebol-um-espelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/2016\/04\/18\/futebol-um-espelho\/","title":{"rendered":"Futebol, um espelho"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_7904\" aria-describedby=\"caption-attachment-7904\" style=\"width: 900px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/files\/2016\/04\/conceitual.jpg\" rel=\"attachment wp-att-7904\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"7904\" data-permalink=\"https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/2016\/04\/18\/futebol-um-espelho\/conceitual\/\" data-orig-file=\"https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/files\/2016\/04\/conceitual.jpg\" data-orig-size=\"900,599\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"conceitual\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"&lt;p&gt;Foto: AFP&lt;\/p&gt;\n\" data-medium-file=\"https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/files\/2016\/04\/conceitual-300x200.jpg\" data-large-file=\"https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/files\/2016\/04\/conceitual.jpg\" class=\"size-full wp-image-7904\" src=\"https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/files\/2016\/04\/conceitual.jpg\" alt=\"Foto: AFP\" width=\"900\" height=\"599\" srcset=\"https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/files\/2016\/04\/conceitual.jpg 900w, https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/files\/2016\/04\/conceitual-300x200.jpg 300w, https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/files\/2016\/04\/conceitual-768x511.jpg 768w, https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/files\/2016\/04\/conceitual-120x80.jpg 120w\" sizes=\"auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-7904\" class=\"wp-caption-text\">Foto: AFP<\/figcaption><\/figure>\n<p>O amigo, por certo, me\u00a0 conhece como o velho palpiteiro sobre as coisas do futebol. Mas, n\u00e3o por exibi\u00e7\u00e3o ou v\u00e3 vaidade, quero dizer que j\u00e1 frequentei outras \u00e1reas de jornalismo nesta longa caminhada, inclusive a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Basta dizer que, no programa de entrevistas<em> Show da Noite, na TV Record,<\/em> dirigido e apresentado por este infeliz na virada dos anos 70 para os 80, promovi o primeiro debate pol\u00edtico deste pa\u00eds desde a deflagra\u00e7\u00e3o do golpe militar em 64, com M\u00e1rio Covas, Malulli Neto, Almino Afonso e outros.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, nesse mesmo programa, ao entrevistar os rapazes respons\u00e1veis pela comunica\u00e7\u00e3o do governo Montoro, sob minha sugest\u00e3o, nasceu a ideia das <em>Diretas J\u00e1, <\/em>enfeitada pela cor amarela da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/p>\n<p>E, anos depois, aqui na TV Gazeta, no programa <em>Nosso Jornal<\/em>, que ia ao ar de manh\u00e3, produzi o \u00fanico debate na hist\u00f3ria da tv brasileira sobre Capitalismo X Comunismo, justamente quando o Muro de Berlim come\u00e7ava a derruir, com dois fil\u00f3sofos da mais alta estirpe acad\u00eamica &#8211; Leandro Konder, defendendo o comunismo, e Jos\u00e9 Guilherme Merquior, a favor do capitalismo.<\/p>\n<p>Ainda menino, ouvia os ecos da Guerra Mundial no velho Br\u00e1s dos italianos, o desfile pelas ruas das donas de casa carregando latas d&#8217;\u00e1gua na cabe\u00e7a, as filas pra comprar p\u00e3o e carne, a carestia, que provocava greves, bondes sendo derrubados, \u00f4nibus incendiados, corre-corre e discursos, muitos discursos de homens inflamados sobre caixotes. E um slogan que encerrava bem a hist\u00f3ria pol\u00edtica da \u00e9poca e de sempre:<em> Rouba, mas Faz.<\/em><\/p>\n<p>J\u00e1 adolescente, lembro como se fosse hoje o dia em que Get\u00falio Vargas se matou, como\u00e7\u00e3o que virou o Brasil de cabe\u00e7a pra baixo: o que era pedido de ren\u00fancia se transformou numa rea\u00e7\u00e3o popular tal que botou a mo\u00e7ada de S\u00e3o Francisco a se esconder nas Arcadas.<\/p>\n<p>Veio, ent\u00e3o, Juscelino, insuflado pelos ventos da moderniza\u00e7\u00e3o, ind\u00fastria automobil\u00edstica, Bras\u00edlia, todas as vit\u00f3rias inimagin\u00e1veis nos esportes &#8211; Maria Esther Bueno, Eder Jofre, Adhemar Ferreira da Silva, o basquete de Amaury e Vlamir, a conquista da Su\u00e9cia, por Didi, Garrincha e Pel\u00e9, como no frevo ufanista cantado por Jackson do Pandeiro. Nas artes pl\u00e1sticas, Portinari e Di Cavalcanti; na m\u00fasica, Villa-Lobos e a Bossa Nova nascente; no teatro, N\u00e9lson Rodrigues e o Teatro de Arena; nas letras, Jorge Amado, Drummond e Guimar\u00e3es Rosa; no cinema, a Palma de Ouro para Anselmo Duarte, e assim ia.<\/p>\n<p>Apesar disso, as casernas rugiam. Houve Aragar\u00e7as, houve Jacareacanga, duas infrut\u00edferas tentativas de golpe militar, barradas pelo Marechal Lott, que perderia as elei\u00e7\u00f5es para J\u00e2nio, o Homem Providencial, aquele que nossa alma luso-hisp\u00e2nica vive acalentando: o Messias, o Salvador da P\u00e1tria, o Caudilho acima de qualquer suspeita.<\/p>\n<p>J\u00e2nio tomou um pileque, fez as malas e partiu, \u00e0 espera de que o povo o reconduzisse num andor como um pequeno ditador.<\/p>\n<p>Mas, o encanto se acabara, e o jeito era barrar o vice Jo\u00e3o Goulart, que estava na China. O pl\u00e1cido estancieiro do Sul cujo \u00fanico passo em falso era ter sido afilhado de Get\u00falio e pretender distribuir entre os miser\u00e1veis do pa\u00eds um pouquinho da riqueza nacional, foi barrado na volta pelo Parlamentarismo, que durou pouco, o tempo exato de um plebiscito que o conduziu \u00e0 chefia do Estado e do Governo de fato e \u00e0 deposi\u00e7\u00e3o pelas armas, logo em seguida, sob o som dos panela\u00e7os nas ruas tomadas por algumas centenas de senhoras de cabelos tingidos e colar de p\u00e9rolas cingindo os pesco\u00e7os delicados, mas j\u00e1 se enrugando. Panelas tamb\u00e9m tocadas por boa parte da imprensa, que, mais tarde viria a utiliz\u00e1-las para as receitas culin\u00e1rias que era obrigada a publicar no lugar de not\u00edcias e artigos que ferissem as suscetibilidades dos ditadores de plant\u00e3o.<\/p>\n<p>Foram vinte e tantos anos de trevas, em que a chamada intelig\u00eancia nacional foi varrida do pa\u00eds. O ensino p\u00fablico, que era uma excel\u00eancia em cidades como S\u00e3o Paulo, foi sucateado, enquanto jovens e velhos eram torturados e mortos nos por\u00f5es da ditadura.<\/p>\n<p>Veio, ent\u00e3o, a restaura\u00e7\u00e3o da democracia, no instante em que o regime militar se exauria. Justamente quando o mundo se fundia numa s\u00f3 ideologia: a de ter e n\u00e3o a de ser. Estabelece-se, ent\u00e3o, definitivamente, a sociedade de consumo, um sistema de vida voltado exclusivamente para isso &#8211; o consumo, ainda mais incrementado pela s\u00fabita evolu\u00e7\u00e3o das novas tecnologias e produtos dela derivados.<\/p>\n<p>Pra consumir \u00e9 preciso ter dinheiro. Pra ter dinheiro, vale, portanto, qualquer esfor\u00e7o, honesto ou n\u00e3o. E, a partir da\u00ed, n\u00e3o h\u00e1 mais freios.<\/p>\n<p>O pov\u00e3o segue mergulhado nas trevas da ignor\u00e2ncia e vai na conversa de qualquer um. As elites, que outrora refinavam suas sutilezas mandando seus filhos estudarem em Paris ou em Coimbra, passaram a ter olhos apenas para os carr\u00f5es da moda, os apartamentos em Miami, em contas nos para\u00edsos fiscais e coisas do g\u00eanero. Nunca antes este pa\u00eds teve tantos bilion\u00e1rios listados pela revista Forbes, como agora, verdadeira indec\u00eancia numa na\u00e7\u00e3o t\u00e3o carente do m\u00ednimo.<\/p>\n<p>Nunca antes o Brasil foi t\u00e3o pobre em artes, literatura, m\u00fasica e teatro.<\/p>\n<p>E aqui me permita o amigo voltar ao nosso tema di\u00e1rio: nunca antes nosso futebol foi t\u00e3o pobre do ponto de vista do espet\u00e1culo e de resultados, o rei das sociedades competitivas e de consumo. Assim como nunca antes foi mote pra tanta viol\u00eancia nos est\u00e1dios, nas ruas, nos metr\u00f4s etc.<\/p>\n<p>Costumo repetir que o futebol \u00e9 a dramatiza\u00e7\u00e3o, o reflexo, do cotidiano de um povo, com seus her\u00f3is, vil\u00f5es e figurantes metidos em enredos regidos ora pela intelig\u00eancia, ora pelo acaso.<\/p>\n<p>Depois de passear os olhos na tv pelas avenidas, o Congresso e os campos de futebol, num clique, volto a rever a obra-prima de Lucchino Visconti,<em> Il Gattopardo<\/em>, baseado no livro de Lampedusa, justamente no momento em que Tancredi (Alain Delon) justifica-se para o tio, o Pr\u00edncipe de Salina (Burt Lancaster), por que iria se juntar \u00e0s tropas de Garibaldi que acabavam de invadir a Sic\u00edlia: \u00e9 preciso que algo mude pra tudo ficar como est\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O amigo, por certo, me\u00a0 conhece como o velho palpiteiro sobre as coisas do futebol. 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