{"id":6443,"date":"2015-11-07T17:35:04","date_gmt":"2015-11-07T19:35:04","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/?p=6443"},"modified":"2015-11-07T17:35:04","modified_gmt":"2015-11-07T19:35:04","slug":"morte-e-vida-do-severino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.gazetaesportiva.com\/albertohelena\/2015\/11\/07\/morte-e-vida-do-severino\/","title":{"rendered":"Morte e vida do Severino"},"content":{"rendered":"<p>Foi o N\u00eaumane quem me deu a triste not\u00edcia, logo na sa\u00edda do<em> Gazeta Esportiva no Ar<\/em>, sexta: o Japi se foi.<\/p>\n<p>Moacir Japiassu Lins\u00a0 &#8211; se n\u00e3o o texto mais rigoroso, divertido e inteligente da imprensa brasileiro, pelo menos um dos raros que sobreviviam entre n\u00f3s -, foi um amigo querido com quem tive a honra e o prazer de conviver anos a fio no falecido Jornal da Tarde, a grande renova\u00e7\u00e3o no g\u00eanero, desde o Jornal do Brasil da virada dos anos 50 para os 60.<\/p>\n<p>O mesmo JB, onde fui apresentado ao Japi pelo Murilo Felisberto, criador do Departamento de Pesquisa do jornal, uma novidade preciosa que n\u00e3o sobreviveu \u00e0 sanha da estupidez que assolou a m\u00eddia brasileira. E aqui t\u00ednhamos algo em comum: o gosto pela pesquisa hist\u00f3rica, sobretudo nas \u00e1reas da m\u00fasica e do futebol.<\/p>\n<p>Vasca\u00edno doente, Japi era capaz de escalar o Almirante de cor desde os tempos de Jaguar\u00e9 ao Expresso da Vit\u00f3ria. Ali\u00e1s, durante o curto per\u00edodo de exist\u00eancia do jornal do Mino Carta, <em>A Rep\u00fablica<\/em>, Japi assinou deliciosa coluna de futebol.<\/p>\n<p>Ligad\u00edssimo, por\u00e9m, em seu tempo, era o farol para tantos focas e maus rep\u00f3rteres cujos textos passavam por suas m\u00e3os no JT, assim como nos anos mais recentes quando mantinha um blog cujo olhar perfurante n\u00e3o perdoava as imbecilidades produzidas pelo jornalismo brasileiro.<\/p>\n<p>E, quando mais mordaz, gostava de assinar cartas aos jornais com o pseud\u00f4nimo de Severino, nome pr\u00f3digo em sua terra natal, a Para\u00edba.<\/p>\n<p>Esmiu\u00e7ador da hist\u00f3ria, era ao mesmo tempo um protagonista e contador de est\u00f3rias.<\/p>\n<p>Como aquela em que, jovem ainda, morando em Belo Horizonte, serviu a contragosto o Tiro de Guerra, um escape do Ex\u00e9rcito para os estudantes da \u00e9poca. Num dia de exerc\u00edcio, foi <em>baleado<\/em> por um<em> inimigo<\/em>, que, por sinal, acabou sendo, muito mais tarde, nosso companheiro no JT. Japi n\u00e3o deu bola e seguiu andando para desaponto do atirador:<\/p>\n<p>&#8211; Japi! Voc\u00ea t\u00e1 morto, s\u00f4!<\/p>\n<p>&#8211; Morto, o c&#8230; Morta est\u00e1 essa m&#8230; toda, coisa de menino bobo.<\/p>\n<p>Largou o fuzil, jogou o capacete no ch\u00e3o e foi embora de vez.<\/p>\n<p>Japi, contudo, tinha seu lado paraibano. Andava com um rev\u00f3lver velho no alforje pra cima e pra baixo, e certa vez apareceu de s\u00fabito na minha casa no Morumbi. Com ar sombrio, queria uma conversa reservada e s\u00e9ria.<\/p>\n<p>No escrit\u00f3rio, colocou as cartas na mesa: queria um parceiro para matar o Murilo Felisberto, seu amiga\u00e7o, respons\u00e1vel por sua ida ao JT, porque o diretor do jornal havia demitido sua mulher, a bela M\u00e1rcia Lobo de texto irrepreens\u00edvel.<\/p>\n<p>Na hora me lembrei de um epis\u00f3dio contado por Almirante na biografia de Noel Rosa.<\/p>\n<p>Madrugada adentro, um mulato forte e determinado decidiu peitar Noel e levar a morena ao seu lado no bar em que estavam.<\/p>\n<p>No mano a mano, o mirrado Poeta da Vila n\u00e3o seria p\u00e1reo para o mulato, o que o levou de imediato \u00e0 janela da casa de Heitor dos Prazeres, sambista e pintor hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Heitor, ainda estremunhado do sono interrompido, ouviu o pedido do amigo:<\/p>\n<p>&#8211; Heitor, me passe a navalha que vou cortar um vagabundo.<\/p>\n<p>Heitor ouviu e entendeu o recado. Noel, que de navalha em punho corria o risco de se cortar, queria mesmo era a interven\u00e7\u00e3o do mestre em samba e mal\u00edcia para resolver a quest\u00e3o por ele.<\/p>\n<p>Heitor, ent\u00e3o, foi ao bar, levou um papo com o malandro, que disse sim, senhor, e se mandou, deixando Noel com a mulata da hora.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, pedi calma ao Japi e fui l\u00e1 levar uma charla com o Murilo, que muito se divertiu com tudo aquilo e resolveu a quest\u00e3o a contento.<\/p>\n<p>E, se continuar puxando pela mem\u00f3ria, a hist\u00f3ria de Japi e suas est\u00f3rias acabar\u00e3o num romance em dois volumes, por baixo.<\/p>\n<p>S\u00f3 me resta lamentar a partida do amigo, com quem n\u00e3o convivia h\u00e1 muitos anos, a n\u00e3o ser por meio de eventuais e-mails &#8211; ele, l\u00e1 em seu s\u00edtio de Cunha; eu, aqui na minha chacrinha de Ibi\u00fana. E mandar um abra\u00e7o apertado \u00e0 M\u00e1rcia e outro ao filho Daniel, que vi nascer e hoje segue os passos dos pais com a mesma dignidade e talento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi o N\u00eaumane quem me deu a triste not\u00edcia, logo na sa\u00edda do Gazeta Esportiva no Ar, sexta: o Japi se foi. 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